quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

este blogue hibernou

Estarei ali ao lado, e também aqui.

# 62 - HISTÓRIAS DO ZÉ PALÃO

Cinco historinhas de Zé Palão, amigo do narrador, que singrava até à Terra Nova, à pesca do bacalhau. Mas Zé Palão era também um mentiroso compulsivo e contava as aventuras mais mirabolantes, que nunca eram contrariadas pelo amigo, caso contrário não teria o que contar a quem o lesse. Trata-se de pequenos contos para crianças de Leonel Neves, publicados em 1977, bem conseguidos e valorizados pelo traço do excelente Tòssan.   4**** 

ficha:
Autor: Leonel Neves
título: Histórias do Zé Palão
edição: 2.ª
colecção: «Pássaro Livre» #9
editora: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano: 1979
ilustrações: Tòssan
impressão: Lito. Amorim
págs.: 38

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

#61 - ADEUSAMÁLIA

Um entrecruzar das reminiscências do autor, natural de uma aldeia do concelho da Covilhã, com o percurso de Amália Rodrigues, também ela com raízes na Beira Baixa. Fragmentos que vão ao cerne, uma poética de memória pessoal e colectiva do real país que ouvia Amália cantar.   4****

ficha:
Autor: Manuel da Silva Ramos
título: adeusamália
colecção: «Fenda Luminosa» #18
editora: Fenda
local: Lisboa
ano: 1999
impressão: Silvas
págs.: 88
capa: foto de Amália por Silva Nogueira

#60 - A ESTRELA DO DESERTO

A mulher e a filha dum alto funcionário do Ministério da Justiça são violadas e barbaramente assassinadas. Homem seco e determinado, Mathew Montgomery põe-se no encalço dos suspeitos, de Washington até uma dessas cidades-estaleiro da construção do caminho-de-ferro, que, com os trabalhadores, atraem toda a espécie de escória humana. A Estrela do Deserto (1996) é um western negro, interessante mas batido, excepto num ou noutro pormenor. Desta dupla Marini-Desberg prefiro, apesar de tudo, a série O Escorpião. O desenho de Marini também não me empolga excessivamente, excepção para as vinhetas de exterior, muito boas, e as cores utilizadas, que servem muito bem a narrativa.   3***

ficha:
Autores: Marini & Desberg
título: A Estrela do Deserto I e II
apresentação: Carlos Pessoa
tradução: João Silva
colecção: «Grandes Autores de Banda Desenhada» #6
editores: Público e Edições Asa
local: Porto
ano: 2008
impressão: SOCTIP
págs.: 110

domingo, 28 de dezembro de 2014

#59 - LUGAR CAÍDO NO CREPÚSCULO

Romance em que as personagens são almas, almas que pouco fazia habitavam gente de carne e osso com os seus sonhos, esperanças, grandezas, fraquezas e misérias. Deambulamos pelo Limbo, entretanto extinto, o Purgatório, o Paraíso e o Inferno. Lugar Caído no Crepúsculo não é apenas um romance surpreendente e pouco apaziguador, é também um livro de João de Melo, no que isso significa de respeito pelo leitor, e por si próprio enquanto escritor, com prosa de elevadíssima qualidade, da melhor que se escreve entre nós.   4****

ficha:
Autor: João de Melo
título: Lugar Caído no Crepúsculo
editora: Leya / D. Quixote
local: Alfragide
ano: 2014
impressão: CEM
págs.: 255

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#58 - O PÁSSARO DA CABEÇA E MAIS VERSOS PARA CRIANÇAS

Uma poesia inventiva e bem humorada ("comia coisas lindíssimas mas sem saber / mas ele queria lá sabor!" -- «Sopa de letras», p. 17) e um tom suave de quem conta e canta só para nós, como se estivéssemos ouvindo ler.   5***

ficha
Autor: Manuel António Pina
título: O Pássaro da Cabeça e Mais Versos para Crianças
edição: 2.ª
ilustrações: Ilda David'
editora: Assírio & Alvim
local: Lisboa
ano: 2014
impressão: Bloco Gráfico, Maia
págs.: 59

domingo, 14 de dezembro de 2014

#57 - WERTHER

O amor impossível de Werther por Charlotte (ou talvez os amores impossíveis de Werther e Charlotte). A intemperança, a melancolia que a contrariedade amorosa opera no protagonista, a que se junta a volubilidade dos estados de alma do indivíduo permeável pela Natureza, tornando-o presa de melancolia e paixão irracional e disruptora das convenções sociais, cujo desfecho terá forçosamente de fazer face a essa tensa comoção permanente em que vive.   4****

ficha:
Autor: J. W. Goethe
título: Werther
tradução: João Barreira
colecção: «Livros RTP / Biblioteca Básica Verbo» #8
editora: Editorial Verbo
local: s.l.
ano: s.d.
impressão: Gris Impressores, Lisboa
págs.: 188

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

livros que me apetecem

Amálgama, Rubem Fonseca (Sextante)
O Angolano que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço), Kalaf Epalanga (Caminho)
As Avenidas Periféricas, Patrick Modiano (Porto Editora)
Cartas, Visões e Outros Textos do Sr. Pantaleão, Fernando Pessoa (Assírio & Alvim)
Desta Varanda, o Mar, Albano Martins (Simplesmente)
Diários de Viagem, Franz Kafka (Relógio d'Água)
O Livro dos Dias, Diniz Conefrey (Pianola / Quarteto de Jade)
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz (Alfaguara)
Monte Cativo e Outras Ficções, Jorge de Sena (Guimarães)







quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

#56 - FOLHAS CAÍDAS

Garrett conhecera a baronesa da Luz em 1846 e neste cenário bravio de mar, serra e pinhais viveu e consumou esse amor. Quando se publicaram os poemas respeitantes a esta relação, um ano antes da morte do poeta, já tudo não passava de recordação agridoce. Ele fora o «Pescador da barca bela» enredado na rede da sereia da qual não quis fugir. Por isso, nesse ano de 1853, a Lisboa mundana tomara conhecimento, pelas referências directas a «rosa» e «luz», recorrentes no livro. «Cascais» ao evocar o êxtase duma poderosa relação carnal – era disso, essencialmente, que se tratava, enunciado noutro poema, «Não te amo» –, dá também nota do seu declínio. Ao «Céu na Terra», à consumação fragorosa da pulsão erótica num meio intocado – remetendo para a natureza primitiva e máscula da posse e da cópula –, sucede a prostração, remorso, desalento do fim: fim do prazer, fim do gozo do amor, fim da vida que se anuncia: «Inda ali acaba a Terra, / Mas já o céu não começa;». O arrebatamento de «Cascais» faz deste poema um dos grandes fragmentos da sinestesia romântica portuguesa e, com ela, da civilização europeia, que teve no Romantismo a possibilidade de o Homem confrontar e alardear a sua, ao mesmo tempo frágil e sublime, condição humana -- como se pode ver aqui   4****

Ficha:
Autor: Almeida Garrett
título: Folhas Caídas
colecção: «Livros de Bolso Europa-América» #241
editora: Publicações Europa-América
local: Mem Martins
ano: s.d.
impressão: Gráfica Europam, Mira-Sintra
págs.: 123

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

#55 - FRIEDRICH -- LA NATURALEZA Y EL INDIVIDUO EN EL ROMANTICISMO ALEMÁN



http://1.bp.blogspot.com/-J2_om3Qk5tA/VG3BauYCclI/AAAAAAAAXWU/kO2TEXDTecg/s1600/RafaellaRusso-Friedrich.tifCaspar David Friedrich é um dos pintores do romantismo que chega aos nosso dias intacto no seu interesse. As paisagens idealizadas e as figuras enigmáticas mantêm um apelo e estimulam duma forma que já não sucede com muitos dos seus contemporâneos, inclusive aqueles que a historiografia mais apressadamente consagrou. É claro que continuamos a gostar de ver Delacroix e Gériculat, mas olhamo-los como pintores de época; já o mesmo não acontece, comigo, com Friedrich e Turner, que continuam a desafiar-me.
Sobre o livro em si, não direia grande coisa, a não ser que cumpre todos os requisitos para ser uma óptima monografia sobre este alemão do Norte, esquecido durante um século: as reproduções (algumas, infelizmente, reduzidas), a contextualização histórica, a análise pormenorizada de algumas obras.   5*****

ficha.
Autora: Raffaella Russo
título: Friedrich -- La Naturaleza y el Indivividuo en el Romanticismo Alemán
tradução: Victo Gallego
editora: Electa
local: Madrid
ano: 1999
págs.: 143   

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

leituras de 2014 - #54 NENHUM OLHAR

Um romance sobre a vivência trágica da vida, escuro por vezes obscuro.
Trata-se do primeiro romance de Peixoto (de 2000), e podemos detectar algumas influências, uma reais outras talvez sugestão minha. Quanto às reais, é inegável que o estilo de José Saramago aqui se faz muito sentir; subjectivamente, ouvi os ecos de algum José Régio, das narrativas alentejanas, e Manuel da Fonseca, alguns contos seus.   4****

ficha
Autor: José Luís Peixoto
título: Nenhum Olhar
colecção: «Língua Comum»
editora: Quetzal
local: Lisboa
ano: 2014
impressão: Bloco Gráfico, Maia
págs.: 221


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

4 ou 5 págs.: EUCLIDES E HERCULANO

Este texto foi publicado no número espécime (ou número zero, como se diria hoje) de O Diabo -- Semanário de Crítica Literária e Artística, de 2 de Junho de 1934. Ferreira de Castro dá conta do grande momento que então vivia a literatura brasileira, não apenas no romance como no ensaio. Ele não menciona, mas como sabemos dos seus contactos estreitos com o meio cultural do Brasil, é evidente que estaria a pensar em nomes como José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Erico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre e, especialmente, em Jorge Amado, com quem se coemaçava a corresponde e de quem viria a ser grande amigo.
Essa referência serviu de introdução ao desconhecimento por que passava a literatura coeva, ao contrário do que sucedera com a do século XIX -- em que enumera alguns dos grandes nomes desse tempo, acrescentando, no início da centúria seguinte, o de Euclides da Cunha, cujo reconhecimento por cá se restringia aos meios literatos, não alcançando ainda o público leitor em geral.
E, curiosamente, vai compará-lo a Alexandre Herculano, não apenas na propensão para a História mas também por uma propensão austera de ambos, distiguindo-se, porém, no colorido da prosa: brônzea no autor da História de Portugal, polícroma no d'Os Sertões, diferenças entre o luso e o trópico.

Início: «Há alguns anos, os escritores brasileiros queixavam-se, e, possivelmente, ainda hoje se queixam, de serem pouco conhecidos em Portugal, enquanto os portugueses estavam largamente difundidos no Brasil.»

um parágrafo: «Irmanados pelo mesmo arcabouço literário, pela mesma forte orquestração verbal, os dois separam-se quando as pupilas devem constituir elemento a aproveitar. Herculano tem pouca cor, usa poucas cores. A sua visão não encontra cromatismos e é como o seu pensamento: profundo, vasto, mas sóbrio. Se tivesse de pintar, seria como certos mestres da arte espanhola; sombrios, procurando exteriorizar-se pelo castanho e pelo negro. Há sempre algo de arte ibérica, conventual, neste génio português.» 

Ferreira de Castro, «Euclides e Herculano», O Diabo, número espécime, Lisboa, 2 de Junho de 1934; antologiado por mim em «A unidade fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro», Vária Escrita #3, Sintra, 1996.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

4 ou 5 págs.: A VINGANÇA DE D. PEDRO

A entrega a D. Pedro I e imediata execução de dois dos três assassinos de Inês de Castro, que se haviam homiziado em Castela: Álvaro Gonçalves, e Pêro Coelho (Diogo Lopes Pacheco atravessara os Pirenéus...).
A intemperança do rei, os espasmos de fúria, a gaguez que se exacerba com a ira, as réplicas de desespero e raiva dos que serão supliciados, são passagens vívidas que ilustram este episódio em que não se sabe onde começa a lenda.

Início: «Nos paços reais de Santarém, D. Pedro esperava, impaciente, a chegada dos fidalgos criminosos.»

um parágrafo: «Levantara-se. Tinha a boca e as barbas a pingar sangue na opa de veludo, e as mãos encarnadas como as de um carniceiro. Assomou a uma varanda dos paços, chamou pelos soldados, e, arremessando desprezìvelmente à praça essas sanguinolentas postas de carne, ordenou enfastiado à escolta:»

Antero de Figueiredo, «A vingança de D. Pedro», 14 Novelas Históricas Portuguesas, Lisboa, Estúdios Cor, 1965, pp. 147-154.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

4 ou 5 págs.: s/ título

 Auster continua a desfiar episódios e histórias insólitas que lhe aconteceram ou contaram. Agora é o episódio rocambolesco de um tio de um amigo, resistente nacionalista sérvio, cercado pelos alemães nos dias que antecederam o fim da II Guerra Mundial. Baleado pelos nazis na tentativa de fuga, quando os companheiros anteriores haviam sido abatidos, foi recolhido, inanimado, por um camponês. Transportado numa carroça conduzida por este, instantes após recuperar os sentidos, viu saltar a cabeça do homem que o conduzia, decapitada por uma carga de obus, sendo, logo em seguida, apanhado pelas tropas soviéticas, desmaiando novamente. Acorda numa enfermaria improvisada num barracão, e fica a saber que está prestes a ser-lhe amputada a perna ferida. Enquanto suplica que não lha cortem, novo bombardeamento faz com que volte a desfalecer. Mais tarde acordará com a perna intacta, tendo diante de si uma bela enfermeira por quem se apaixona. Não era o paraíso, mas parecia. O tio do amigo de Auster -- um chetnik que escapou duas vezes à morte no mesmo dia, milagrosamente, e que não acabará os dias com a bela enfermeira -- era, à data em que a história lhe foi contada, um prosaico angariador de seguros de Chicago.

início: «Pouco tempo depois do meu regresso a Nova Iorque (Julho de 1974), um amigo contou-me a história seguinte.»

um parágrafo: «Olhou pela janela o primeiro homem a correr pelo campo coberto de neve. Houve uma barreira de tiros de metralhadora vindos da floresta e ele foi abatido. Um momento depois, o segundo homem saiu, e passou-se a mesma coisa: as metralhadoras soaram e ele caiu morto na neve.»

Paul Auster, O Caderno Vermelho, trad. Fátima Freire de Andrade, 8.ª ed., Porto Edições Asa, 2002, pp. 7-14. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

livros que me apetecem

Como Falsa Porta, de José Emílio-Nelson (Edições Sem Nome)
O Fado da Tua Voz. Amália e os Poetas, de Vítor Pavão dos Santos (Bertrand)
Um Lugar Só para Sí, de Ricardo Marques (Debout sur l'Oeuf)
Hawk, de André Oliveira, Osvaldo Medina e Inês Falcão Ferreira (Kingpin Books)
O Osso da Borboleta, de Rui Cardoso Martins (Tinta-da-China)
Prefácios, de Mário Dionísio (Casa da Achada)





sexta-feira, 31 de outubro de 2014

4 ou 5 págs.: O PALÁCIO DA AJUDA

E então eles chegaram da praia, «em estado de graça», desembocando no recinto frio do Palácio da Ajuda, quase à hora do fecho, por entre resignação funcionária e trejeitos de governanta que passava por directora daquilo. A personagem era (é) real, e o desinteresse que dela emana originou uma das mais bem esgalhadas e entesoantes linhas sobre o prazer -- neste caso, feminino -- que tenho lido. Um texto que, só por si, já valia todo o livro.

[P.S. Aquilo é mesmo frio comò caraças. Há 28 anos passei uns meses por lá a pesquisar a Gazeta de Lisboa no último lustro do reinado de D. João V (1746-1750), e só não saí dali com uma pneumonia porque era então um jovem bem constituído e, há que dizê-lo, viçoso.]

Início: «Eles vinham, em estado de graça, da praia.»
Um parágrafo: «O que faria aquela mulher à noite? Não devia ser amor com o marido. Devia ser do tipo de levar dossiers  para casa, do tipo de tomar ansiolíticos, desse tipo. Teria alguma vez bebido bourbon? Conheceria as campanhas publicitárias da Lucky Strike? Saberia o que sente uma mulher quando uma mão desliza por entre umas coxas, por debaixo de um vestido preto curtinho, que tem por sua vez por baixo umas cuecas de cetim -- que também podem ser pretas --, saberia o que sente uma mulher quando quer que um homem dominador apaixonado a penetre, mas ele não quer logo, que mais daí a pouco, e ele prossegue sorvendo-lhe o mel que ela produz de geração espomtânea, ele adorando-lhe o ventre inteiro que parece querer saltar para fora para ser acariciado? Saberia que há crianças que nascem de dias de sexo que começam de noite e acabam de dia, num qualuqer dia da semana em curso? Quais seriam as fantasias da directora do palácio? Que mais teria a directora para além de ambições prosaicas?»

Sarah Adamopoulos, A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 2007, pp. 17-21. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #53 MORTADELA & SALAMÃO -- ESTRELAS DE CINEMA!

Mortadelo e Salaminho (prefiro a designação brasileira) povoaram-me a infância. Mortadelo será sempre uma das personagens mais carismáticas da 9.ª arte, e é um achado. Por ela, o seu autor, F. Ibañez, tem lugar no panteão dos autores de BD. Mas não é impunemente que se aguenta uma série desde 1958 (!).
Nem vale a pena gastar tempo a discorrer sobre o argumento deste Estrelas de Cinema!, pelos gags  previsíveis (de há muito, de resto) e até indigentes. É possível que uma criança ainda esboce um sorriso ou solte uma gargalhada. Mas os agentes da T.I.A. já tiveram os seus tempos áureos, que, aliás, ninguém lhos tira.  2**

Ficha:
Autor: F. Ibañez
título: Mortadela & Salamão -- Estrelas de Cinema!
tradução: João Silva
editora: Edições Asa
local: Porto
ano: 2005
impressão: Grafiasa, Rio Tinto
págs.: 46

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

livros que me apetecem

Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930), de A. Campos Matos (Colibri)
Lugar Caído no Crepúsculo, de João de Melo (Dom Quixote)
Poesia Presente, de António Ramos Rosa (Assírio & Alvim)
O Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça (Caminho)
Teremos Sempre Paris,de Ray Bradbury (Bizâncio)






sexta-feira, 24 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #52 CARTAS DE AMOR À VISCONDESSA DA LUZ

Enquanto houver literatura portuguesa (ou a memória dela), Garrett será sempre um dos nomes cimeiríssimos. E, portanto, nem sequer estou a contemplar a sua dimensão histórica e política, que foi grande. Não é impunemente que se escreve uma obra-prima absoluta (Frei Luís de Sousa), a melhor poesia do romantismo português (Folhas Caídas) ou se inaugura o romance moderno em língua própria (Viagens na Minha Terra). É o primeiro escritor português da primeira metade do século XIX, e só uma pessoa pode com ele ombrear, principalmente graças a monumental e fundadora obra de historiador: Alexandre Herculano.
Vem isto a propósito das Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Sobre Eça de Queirós (outro gigante), Vergílio Ferreira disse qualquer coisa parecida com isto: dele tudo nos interessa, até a conta da lavandaria. Estas cartas são obra paraliterária, não foram escritas para publicação e reflectem um estado emocional alterado. Embora a epistolografia possa ostentar-se os galões de literatura de pleno direito -- vários foram os autores que viram as suas cartas equiparadas à obra mais séria, quando não suplantá-la: estou a lembrar-me de obras-primas como as Cartas do Cárcere, de Gramsci ou da maior parte das missivas do Eça, sempre ele --, não é isso que se passa com estas do punho garretiano.
Não que elas seja excessivamente anódinas, bem pelo contrário; não que a sua publicação não se justificasse. Há nelas muitos elementos úteis para estudo em várias áreas.
São cartas de tal modo pessoais, unívocas, íntimas e obsessivamente repetitivas, que valem por essa expressão extrema de amor ardente e transgressor, penetrando de tal forma na intimidade do escritor que valem por essa verdade desvelada. Felizmente, o Pessoa já nos dera o antídoto para as cartas de amor -- e além do mais, que diabo!, esta paixão deu-nos as Folhas Caídas... 22 cartas que se salvaram, dentre as centenas que foram escritas e trocadas. Um milagre, portanto. É a segunda vez que se publicam, depois da edição de José Bruno Carreiro, que assinalou, em 1954, o centenário da morte de Garrett, um trabalho impecável do investigador brasileiro Sérgio Nazar David.
Em duas palavras: Rosa Montúfar Infante, espanhola lindíssima, mulher do Visconde da Luz, militar e político de destaque, é amante de Almeida Garrett na segunda metade da década de 1840 até ao início do decénio seguinte. de Garrett temos a ideia do escritor quase-dândi, viril e sedutor com as mulheres, o eco do tribuno de voz bem colocada e palavra assertiva, do homem de acção que foi um dos bravos do Mindelo. ler-lhe os delíquios amorosos chega a ser perturbador e incómodo, passados 160 anos da sua morte, de tal modo ele é ainda nosso contemporâneo. As cartas são patéticas -- a paixão é patética (todas as paixões o são). A que leva o número XVIII, em que testemunhamos o seu desengano, a sua ingenuidade, o seu desgosto, essa, então, é dilacerante.
Assim sendo, não estando estas cartas de Garrett nos píncaros da epistolografia portuguesa, são de enorme relevância biográfica. E mais do que isso: iluminam alguns poemas de Folhas Caídas, de um modo que não se suspeitava. Só por isso a sua edição teve toda a razão de ser.   5*****

ficha:
Autor: Almeida Garrett
título: Cartas de Amor à Viscondessa da Luz
edição: Sérgio Nazar David
apresentação: Ofélia Paiva Monteiro
colecção: «Biblioteca Primeiras Pessoa»
editora: Edições Quasi
local: Vila Nova de Famalicão
ano: 2007
impressão: Papelmunde
págs.: 222


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

4 ou 5 págs.: SIM, MAS A MÁQUINA A VAPOR É CAPAZ DE FAZER ISTO?

Folheando uma revista de consultório -- um consultório especial, como desde logo somos informados --, o narrador depara-se com uma curiosidade que lhe mudaria a vida, uma revelação, no sentido místico da coisa: "A sanduíche foi inventada pelo Conde de Sanduíche." Essa invenção, com efeitos momentosos no quotidiano da história da humanidade, e o seu inventor, tornaram-se-lhe obsessivos. De tal modo que empreendeu uma biografia do aristocrata britânico, apresentando-nos uma cronologia sucinta, com particular enfoque no processo criativo do que viria a desembocar na prosaica sandes. Essa cronologia é hilariante, como se calcula, e revela não apenas o humor culto e irónico de Allen -- os tiques pretensiosos de determinados tipos sociais de classe média alta e cultivada são constantemente trazidos ao leitor, como de resto acontece em muitos dos seus filmes --, mas demonstram também a enorme cultura do autor, que dela faz uso desabusado, para nosso deleite quase perverso.

início: «Desfolhava eu uma revista enquanto esperava que o meu beagle Joseph K. saísse da sua sessão habitual de cinquenta minutos às terças-feiras com um analista de Park Avenue -- um veterinário junguiano que, a cinquenta dólares a sessão, trabalha corajosamente para o convencer que a papada não é uma desvantagem social -- quando topei com uma frase que captou a minha atenção como se fosse um aviso de um cheque sem cobertura.»

um parágrafo: «1750: Na Primavera exibe e demonstra três fatias consecutivas de presunto empilhadas umas sobre as outras; isto desperta algum interesse, sobretudo em círculos intelectuais, mas o público em geral permanece indiferente. Três fatias de pão umas por cima das outras aumentam-lhe a reputação e, apesar de a maturidade do estilo não ser ainda evidente, é convidado por Voltaire.»

Woody Allen,  Para Acabar de Vez com a Cultura (ed. original, 1966), tradução de Jorge Leitão Ramos,  4.ª edição, Amadora, Livraria Bertrand, 1981, pp. 37-42.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #51 CATOLICISMO ROMANO E FORMA POLÍTICA

Carl Schmitt (1888-1985) é um autor de referência do pensamento contra-revolucionário, antiliberal e antidemocrático. Dizer só isto, aliás, é dizer pouco. Schmitt foi um nazi desde cedo; e apesar de algumas divergências, traduzidas em ataques de sectores do nacional-socialismo (em nazismo não se pode dizer "mais radicais"...), a verdade é que o autor leccionou na Universidade de Berlim entre 1933 e 1945 -- ou seja, em todo o período em que o führer e os seus sicários estiveram no poder. 
Este ensaio de 1925 pretende reagir ao ataque à Igreja Católica, que ele então denunciava, definindo-a como efectiva representação de Cristo no Mundo: «Ela representa a civitas humana, ela apresenta a cada instante a união histórica entre o devir humano e o sacrifício de Cristo na cruz, ela representa o próprio Cristo pessoalmente, o Deus que se tornou homem na realidade histórica. No representativo assenta a sua supremacia sobre uma época de pensar económico.» (p. 33) E, como seria de esperar, põe nos antípodas duma sociedade regida pela política e pelo direito (oh, ironia...), tanto capitalismo como bolchevismo, alegadamente pólos opostos duma mesma mundivisão: «O grande patrão não tem nenhum outro ideal senão o de Lenine: o de uma "terra electrificada".» (p. 28)
Schmitt oferece, portanto, a referência de um elemento não racional -- a divindade representada pela Igreja Católica -- em oposição a um sistema que não o pode contemplar -- a perspectiva demo-liberal: de um lado, como de costume, os vectores deletérios: a "técnica" e a "economia"; do outro, o institucionalismo da política estribada no direito, com as dicotomias do costume: matéria-espírito, pragmatismo-idealismo, revolução-tradição. 
Da visão da Igreja como figuração  de Deus, não posso deixar de extrapolar para uma ideia de Estado à imagem daquela, logo do "chefe" desse Estado como equiparado, senão ao próprio Deus, pelo menos soberano dessa mesma Igreja, o vigário do Deus. Daí ao endeusamento do chefe (do führer a haver), vai um pequeno passo.
Interessante como leitura e exercício, é ideologicamente intragável.   3***

ficha
Autor: Carl Schmitt
título: Catolicismo Romano e Forma Política
tradução, prefácio e notas: Alexandre Franco de Sá
colecção: «Biblioteca de Ciências Humanas»
editora: Hugin
local: Lisboa
ano: 1998
págs.: 55
impressão: Sociedade Astoria
capa: Júlio Prata Sequeira

sábado, 11 de outubro de 2014

4 ou 5 págs.: OS MISTÉRIOS DO MUNDO

O narrador não gosta de andar de avião. Não por medo de voar, mas pelos constrangimentos de segurança impostos nos aeroportos, e também por correr o riso de ter de aturar algum chato a meter conversa  do assento ao lado. Só que o chato deste voo Luanda-Lisboa não só não o era, chato, como aguçou a curiosidade do narrador sobre si.
«Os perigos do mundo» é mais um conto de Agualusa a combinar humor e uns ameaços de fantástico, deixando-nos em suspenso -- não no ar, mas no aeroporto de Dacar -- onde as personagens deste conto foram forçadas a aterrar de emergência.

o início: «Não gosto de aeroportos nem de aviões.»

um parágrafo: «Acordou duas horas mais tarde, espreguiçou-se, estalou os dedos, levantou-se e pediu licença para passar. Vi-o dirigir-se à casa de banho, cerimonioso, fúnebre, como quem se prepara para ajoelhar num confessionário. Adormeci. Não devo ter dormido muito tempo. Lembro-me que despertei com um rumor de vozes. Vinha lá da frente, da primeira classe, e rolava em crescendo na nossa direcção. Julguei que fosse um bêbado, uma discussão entre bêbados, qualquer coisa desse género. A seguir passou uma hospedeira a correr. Algumas pessoas levantaram-se tentando perceber a origem de tanto alvoroço, ouviram-se gritos, e a mesma hospedeira reapareceu, enfurecida, obrigando toda a gente a reocupar os seus assentos. Atrás de mim uma senhora começou a rezar.»

José Eduardo Agualusa, Fronteiras Perdidas (1999), 5.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009, ,pp. 21-26.

«Dos perigos do riso» 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #50 UM LUGAR PARA OS DIAS

Uma longa carta à pessoa amada, já falecida, que é, simultaneamente, um diário, uma revisitação memorialística e um balanço, com micro-ensaios e reflexões, pequenas narrativas de viagem, poesia -- um livro compósito, enfim, que reflecte os interesses da autora. Pintora de formação, foi na escrita que Irene Lucília Andrade encontrou um lugar para os seus dias, embora a aguda capacidade observadora e descritiva não deixe, creio, de ser tributária dessa aprendizagem de base.
As observações de carácter genericamente político (em especial os relativos aos fenómenos internacionais a que vimos assistindo nos últimos anos) são talvez o menos conseguido desta obra, embora traduzam a impotência do cidadão comum diante do momentoso de que (ainda) só somos testemunhas, em diferido e por vezes em directo; e, nesse especto, constitui um exemplo fidedigno do ambiente geral. O melhor, para mim: as evocações do passado, os pais, a infância, e a descoberta do mundo; e também os vários apontamentos, magníficos, sobre arte, em especial a pintura.  3***

Ficha
Autora: Irene Lucília Andrade
título: Um Lugar para os Dias
colecção: «Viagens na Ficção»
editora: Chiado Editora
local: Lisboa
ano: 2013
capa: Sandra Figueiredo
impressão: Chiado Print
págs.: 283

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

livros que me apetecem





T. S. Eliot e Ezra Pound -- Uma Tentativa de Aproximação, de Fernando Guedes (Verbo)
Trinta Anos de Dispersos Sobre Teixeira de Pascoaes, de António Cândido Franco (IN-CM)
As Velas da Noite, de Ana Teresa Pereira (Relógio d'Água)


leituras de 2014 - #49 A CRISE ECONÓMICA DE 1929

Crónica do crash bolsista de 1929, que levaria à Grande Depressão, com efeitos devastadores, dento e fora dos Estados Unidos.
Galbraith, que era um académico e um economista sagaz, procedeu a um levantamento historiográfico com o à-vontade dum bom narrador, ainda por cima provido de humor -- o que, num tema árido como este, é feito de monta (não foi em vão que John Kenneth Galbraith se deixou tentar pela ficção).
A mentalidade do especulador é esta: fazer muito dinheiro com pouco trabalho e no mais curto espaço de tempo possível. A ideia  de que "dinheiro gera dinheiro" serviu em cheio com este espírito ganancioso, que uns criativos trataram de explorar em todas as suas potencialidades. Existe um bem que se valoriza tanto mais quanto a procura é maior -- é a lei da oferta e da procura, como se sabe. Simples, mas não chega: a esta mecânica elementar, acrescenta-se artificialmente valor, atribuído das formas mais variadas, de tal maneira que deixariam zonzo qualquer aldrabão de feira. Um parágrafo, como exemplo:
«Na alta da Florida o negócio [sobre terrenos para a especulação imobiliária] fazia-se através do pagamento de um sinal. Não eram os próprios terrenos que se transaccionavam, mas o direito de os comprar a determinado preço. Este direito de compra -- que se obtinha através do pagamento de 10% do valor de transacção -- podia ser vendido. Deste modo, os especuladores beneficiavam integralmente das valorizações. Verificada a valorização, o especulador podia revender o "sinal" por uma importância igual à soma do que tinha pago com a valorização.» (pp. 60-61) Escusado será dizer que, com a febre especulativa, a valorização era constante e permanente -- pelo menos até ao estoiro, algo que estava fora das cogitações dos compradores & revendedores.
Para um leigo como eu, estes episódios fazem lembrar as habilidades do subprime, já  neste século. E, interessante, há até protagonistas que se repetem: a Goldman Sachs, que esteve no olho do furação em 29. 
Estas aldrabices da criação de valor sem base de sustentação na economia real continua a ser galhardamente ensinada nas business schoolls por esse mundo fora, de Lisboa a, provavelmente, Ulan Bator, com as miseráveis consequências que se conhecem. Que os mercados, na sua desregulação, sejam entidades insusceptíveis de controlo (ou de se deixarem controlar), é algo com que convivem bem. Quem vier atrás, que feche a porta. Em caso de agitação, há sempre governantes inoperantes e gurus do mundo académico e da imprensa económica bovinamente deslumbrados com as maravilhas da finança, ou, talvez mais comum, generosamente estipendiados para papaguearem aquilo que os argentários pretendem que se veicule.
Livro pormenorizado e cuidadoso, cheio de informação publicado pela primeira vez em 1954, é um bom exercício sobre a cupidez, revelando a lamentável fragilidade humana, sempre a morder os iscos lançados pelos mais vivaços.   5*****

ficha:
Autor: John Keneth Galbraith
título: A Crise Económica de 1929
subtítulo: Anatomia de uma Catástrofe Financeira
tradução: Calado Trindade
colecção: "Universidade Moderna" #42
editora: Publicações Dom Quixote
local: Lisboa
ano: 1988
págs.: 286

domingo, 28 de setembro de 2014

leituras de 2014 #48 - A FEIRA DOS IMORTAIS / O SONO DO MONSTRO

A pareceria Bilal / Christin deu-me uma das melhores bd's políticas que já li: A Caçada. Neste álbum duplo, que reúne A Feira dos Imortais (1980) e O Sono do Monstro (1998), o autor sérvio está a solo como abordagens s-f- aos temas do totalitarismo e das guerras nacionalistas da antiga Iugoslávia como referência remota da narrativa.
A ficção científica não é bem my cup of tea, na BD e na literatura tout court, mas Bilal desembaraça-se a contento enquanto argumentista. Como desenhador, a sua personalidade artística é muito vincada e reconhecível. 
Um dos aspectos mais interessantes desta co-edição reside, fruto da junção de duas narrativas que distam dezoito anos entre si, permitindo verificar a evolução estilística do artista -- como, de resto, é destacado na nota de apresentação: a um traço mais realista sucede-se um outro, mais elíptico e esfumado.   4****

Ficha:
Autor: Enki Bilal
títulos. A Feira dos Imortais e O Sono do Monstro
introdução: Carlos Pessoa
tradução: Catarina Labey e Pedro Cleto
colecção: «Grandes Autores de Banda Desenhada» #5
editores: Público e Edições Asa
local: Porto
ano:2008
impressão: Soctip
págs.: 134

domingo, 21 de setembro de 2014

livros de 2014 - #47 ENTRE O CÉU E A TERRA


O livro reúne duas duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de ou tempo de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.   5*****

ficha: 
Autor: Rui Chafes
título: Entre o Céu e a Terra
editora: Documenta (Sistema Solar)
local: Lisboa
ano: 2012
capa: fotografia de Alcino Gonçalves sobre trabalho do autor
impressão: Guide - Artes Gráficas, Odivelas
págs.: 63

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

livros de 2014 #46 - ABCdário DO ANTIGO EGIPTO

Adoro dicionários temáticos, sínteses estimulantes entre o ponto de situação do tema proposto e a alieatoriedade quase insana com que somos comandados pelos asteriscos, que nos remetem para verbete conexo, dentro duma ordem alfabética...
Aqui, história, política, religião, literatura, artes decorativas e as outras, arqueologia -- a civilização egípcia concentrada em oitenta entradas, precedidos de um breve enquadramento histórico e sucedidos por uma cronologia que abrange do Período Pré-Dinástico (5000 - 3000 a.C.) até ao ocaso da época ptolomaica, em 30 da nossa era, com a conquista romana. Acresce um óptimo acervo iconográfico em bom papel -- que mais se pode pedir?   5*****

ficha:
Autores: Guillemette Andreu, Patricia Rigault, Claude Traunecker
título: ABCedário do Antigo Egipto
tradução: Maria João Batalha Reis
colecção: #ABCedário" #16
editora: Público
local: Porto
ano: s.d.
impressão: Printer Portuguesa
págs.: 119

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

leituras de 2014 - #45 O RETORNO

Um bom romance sobre o drama dos chamados retornados -- episódio central do pós-revolução de Abril, em que sobressai o choque cultural e consequente rejeição da "Metrópole", que responde em conformidade. Rejeição sentida principalmente por parte dos jovens, que nunca a haviam conhecido ou dela tinham uma ideia distorcida, porque mitificada, nomeadamente nos programas escolares. Decepção que acarreta um sentimento de impotência e revolta. Todos os que não fomos retornados conhecemos e tivemos parentes que o foram. Eu tenho a idade de Dulce Maria Cardoso, e lembro-me.
Esta é, pois, uma história sobre as vítimas da História, as que foram apanhadas no turbilhão em que, por um lado, se intersectaram as contingências da política interna (Guerra Colonial, Revolução e estado de pré-guerra civil, Descolonização) e, por outro, as dinâmicas geopolíticas decorrentes da Guerra Fria. Demasiado para simples pessoas que a pobreza da "Metrópole" ou o espírito de iniciativa fizeram com que fossem atraídas por essas terras de oportunidade. Daí que o mainstream político retornado espelhe uma enorme hostilidade ao 25 de Abril e àqueles que o protagonizaram, militares e políticos. Os doestos com que mimoseavam Soares e Rosa Coutinho, por exemplo, são expressão patética dessa impotência.
Dulce Maria Cardoso trata o tema, não apenas com mestria literária (a chegada ao Aeroporto da Portela é um dos grandes momentos do livro), mas igualmente com sabedoria autoral, pois O Retorno é um livro que se esforça por não tomar posição. Embora se perceba a inelutabilidade histórica -- e, desse ponto de vista, não há um mínimo de justificação do colonialismo, bem pelo contrário --, o romance é feliz ao dar-nos um perfil perfeitamente normal daqueles que vieram de África: na maioria, gente comum apanhada pelo vórtice da História.
A forma como a autora o veicula é inteligentemente dada através do discurso do protagonista, Rui, um adolescente a quem, nós leitores, permitimos e compreendemos todos os desabafos, todas as invectivas, todas as perplexidades.   4****

ficha
Autora: Dulce Maria Cardoso
título: O Retorno
editora: Tinta-da-China
local: Lisboa
anos: 2013
impressão: Guide-Artes Gráficas
págs.:267

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

livros que me apetecem

(Relógio d'Água)

(Clube do Autor)

(Afontamento)

(Dom Quixote)

(Relógio d'Água)

(Chili Com Carne)