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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gineto, grande Gineto

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - 1.3


As mulheres da Feira também se vendem: a Rosette e as colegas, as do "Restaurante das Andorinhas". A Rosete, «de olhos esquisitos como o seu nome», com «a voz mais suave que o canto dos pintassilgos nos valados» embasbacando o sanguíneo Gineto, tão «valentão, como o Tom Mix», apesar da sua pouca idade.
A Feira como libertação fugaz da desesperança quotidiana, como pórtico do sonho. No carrossel, à desfilada, 
                «Gineto fizera-se Tom Mix em pensamento e crava esporas no cavalo, a que chamou Malacara. Dentes cerrados e o lenço ondulando ao vento, cingia nos braços a pálida Rosete, arrebatada aos bandidos. O cavalo saltava muros e esteiros, sem parar. E o Malesso, o Sagui e todos os companheiros do telhal acenavam ao longe, muito ao longe...»
Gineto, o grande Gineto, que paga a volta ao Gaitinhas e rouba uma gaita de beiços para dar ao amigo sem dinheiro. Todos roubam: é o Malesso que rouba, e o Gineto também; são os feirantes que são roubados, pobres como o são os miúdos, num círculo vicioso de carência e chumbo.

sábado, 27 de junho de 2015

a féria e a feira: entra Gineto

Gineto é apresentado: o indomável, o revoltado, o aventureiro -- aquele que, avisa o narrador, irá desembocar na marginalidade.
O quadro social é de pobreza extrema, a dos "homens que nunca foram meninos", a quem Soeiro Pereira Gomes dedica o livro.
O escopo do autor vai-se desenvolvendo ao longo deste capítulo inicial: não apenas com a exposição do desvalimento, mas com referência à ilusória pacificação entre classes em fim de temporada e véspera de festança anunciada para regozijo geral; e ainda com a muito marxista alusão à venda da força de trabalho pelo já anti-herói.
Psicologicamente, revela-se também uma característica importante: o mundo é seu, para ele não há propriedade, as vedações não contam; às terras férteis chama.lhe suas («as suas quintas»), e delas se aproveita quando e quanto lhe aprouver. Agora, a caminho da grande diversão anual, hesita: o melhor já fora apanhado, os caseiros e os cães de guarda já não estavam de atalaia; Gineto hesita mas reencaminha-se para a feira -- como se a provável facilidade da transgressão lhe retirasse todo o gozo dela.  

«Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre como um homem. 
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E, como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro tilintasse no bolso das calças.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

marginálias

«Apresentando-se como o reverso de uma feminilidade assisada e maternal, provocam atracção e repulsa. Na grande maioria oriundas de famílias operárias e artesãs, fizeram do próprio corpo seu instrumento de trabalho. Algumas foram obrigadas a vender-se para poderem muito simplesmente continuar vivas. As histórias de mulheres sós e abandonadas, com filhos pequenos a morrer de frio e miséria em quartos gelados, que, para sobreviverem, se lançam nas ruas "a fazer a vida" não são meras ficções de folhetinistas. Numa altura em que as classes sociais ganham forma, sem estarem definitivamente cristalizadas, numa altura em que como tão bem demonstrou Louis Chevalier*, as classes trabalhadoras se tornam classes perigosas tendo por fundo uma burguesia que entesoira e começa a querer esbanjar para obter prazer, como sabia fazer, pensa ela, a aristocracia, as prostitutas vêm baralhar as pistas, atropelam as classes sociais, inflamam o imaginário dos homens e fazem recuar as fronteiras do pudor e da respeitabilidade.»

*Classes Labourieuses et Classes Dangereuses à Paris Pendant la Première Moitié du XIXe. Siècle (Paris, 1958).

Laure Adler, A Vida nos Bordéis de França -- 1830-1930 (1990)
(tradução: Maria Assunção Santos)