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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gineto, grande Gineto

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - 1.3


As mulheres da Feira também se vendem: a Rosette e as colegas, as do "Restaurante das Andorinhas". A Rosete, «de olhos esquisitos como o seu nome», com «a voz mais suave que o canto dos pintassilgos nos valados» embasbacando o sanguíneo Gineto, tão «valentão, como o Tom Mix», apesar da sua pouca idade.
A Feira como libertação fugaz da desesperança quotidiana, como pórtico do sonho. No carrossel, à desfilada, 
                «Gineto fizera-se Tom Mix em pensamento e crava esporas no cavalo, a que chamou Malacara. Dentes cerrados e o lenço ondulando ao vento, cingia nos braços a pálida Rosete, arrebatada aos bandidos. O cavalo saltava muros e esteiros, sem parar. E o Malesso, o Sagui e todos os companheiros do telhal acenavam ao longe, muito ao longe...»
Gineto, o grande Gineto, que paga a volta ao Gaitinhas e rouba uma gaita de beiços para dar ao amigo sem dinheiro. Todos roubam: é o Malesso que rouba, e o Gineto também; são os feirantes que são roubados, pobres como o são os miúdos, num círculo vicioso de carência e chumbo.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

dor n'alma

2. Gervásio despachado para Lisboa, é agora Ricardo de Loureiro quem concita a atenção de Lúcio. Neste capítulo de construção rudimentar, o narrador-protagonista é como que o anotador das angústias e dos estados de alma de Ricardo (também ele alter ego do autor, nas encruzilhadas íntimas e na amargura das disformidades físicas). Continua a vincar-se a desconformidade dos protagonistas, por pose ou inclinação profunda, com o que está convencionado e é aceitável em sociedade. Lisboa, de resto, é a primeira a ser riscada do mapa, mesquinha e provinciana para espíritos requintados diante da luminosa Paris -- «É o único ópio louro para a minha dor -- Paris!» --, quando, em crise, não sentem a nostalgia da simplicidade nunca vivida.
Quanto a Ricardo, aprisionado dentro de si em confissão a Lúcio, um fóbico que sente fisicamente a alma e dores no espírito, acaba por revelar(-se) artificiosamente (tudo aqui é artificial, excepto o sofrimento) na sua bissexualidade. 
(parágrafo)
«--É isto só: --disse -- não posso ser amigo de ninguém... Não proteste... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos (já lhe contei), apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura trás sempre consigo um desejo de beijar... de estreitar... Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso sentir realmente aquilo que os provocou. A verdade, por consequência, é que as minhas próprias ternuras nunca as senti, apenas as adivinhei. Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.»



Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio (1914)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

como farrapo abandonado ao vendaval

Um night club lisboeta, lugar de música & evasão, bailarinos, espanholas ("Carmencita, Paca e Lola...) & transgressão. César faz-se encontrar por Odette. Ele, engenheiro, desportista, cuidador da sua saúde, o habitual "bom rapaz", parece; ela, a costumeira perversa, a "elegante" que vive à custa dos homens, que vive o dia de hoje, que acrescenta pó de coca à ponta dos seus «Abdulas» (marca de cigarros), que experimenta «todos os gozos, até os proibidos, principalmente os proibidos...» 
Até aqui, nada de extraordinário, mesmo num romance de 1930: o bom público pequeno-burguês e/ou provinciano já tinha acesso -- talvez de forma menos explícita --, por via das revistas do tempo (A.B.C., Civilização, Europa, Ilustração), a este mundo pouco conforme ao seu temperamento e à sua bolsa.  
Interessantes são as alusões ao jazz e às suas raízes, às danças contemporâneas e a esse enigmático Tomé:
«Não tardou que Tomé, o preto dançarino, executasse os seu primeiro "charleston" dessa noite, ante o olhar atento e assombrado de alguns mirones que tentavam apreender por que artes mágicas ao tan-tan rítmico do jazz, ele conseguia, sem uma falha na cadência, movimentar as suas pernas bambas, as pernas de trapo, conjugando-as com o balancear desconexo dos braços de pêndula. Era um boneco desarticulado que, movido por um maquinismo oculto, adquiria a flexibilidade de um farrapo abandonado ao vendaval impetuoso daquelas músicas de sertão africano, que floresceram por estranha afirmação de raça nessa Norte América intransigente e severa para com os seus negros.» 
Mário Domingues, O Preto do "Charleston", 1930 (cap. II)