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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Guedes de Amorim, Augusto Abelaira, Ruben A., João Aguiar, Bruno Vieira Amaral

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? Talvez não.

1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

domingo, 4 de maio de 2014

leituras de 2014 #23 - ALDEIA DAS ÁGUIAS

Tinha alguma expectativa em relação a este livro. Nunca lera nada do autor -- à parte alguns artigos ou contos dispersos --, é talvez o único título seu que não caiu em esquecimento completo, mercê do Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências que lhe foi atribuído em 1939, ano da edição. Andava com ele  há anos na cabeça: Aldeia das Águias, título sugestivo, evocando com a literalidade que nome e capa impunham -- e que veio a verificar-se --, uma narrativa situada numa área semi-isolada, em faldas e escarpas duma província nortenha.
À medida que ia avançando, a desilusão era crescente. Uma oposição cidade-campo já então com barbas, Júlio Dinis entrado pelo século XX adentro, sem o talento, o humor e a mestria do autor d'A Morgadinha dos Canaviais. As personagens são esquemáticas, previsíveis quase caricaturas: irmão mau e irmão bom -- um, velhaco, vaidoso, desprezível, quase psicopata; honrado, generoso e abnegado, o outro; um amigo de infância do primeiro, de estrato social muito abaixo, personagem sacrificial da narrativa, quase um santo, mais do que a criada desonrada pelo "menino", que arrostou com a fúria paterna, vindo, obviamente, mais tarde a ser redimida pelo irmão bom... As cenas de cidade -- Porto -- são pobres e a linguagem é confrangedora e insuportavelmente banal e magazinesca.
Há algumas boas páginas -- melhor fora --, em especial as que são centradas na aldeia de Sedielos (Régua), terra-natal do autor: o quadro de caça às águias, predadoras dos rebanhos, que ciclicamente a aldeia em peso promove, é do melhor que o livro tem. E nem falta o maluquinho de aldeia, o Taranta, a dar a tonalidade trágica de acento camiliano, que narrativas deste género exigiam.
Poderia ser um bom romance em mãos de mestre. Mesmo que em 1939, Ferreira de Castro e José Régio, cada um a seu modo, houvessem já transformado o romance português -- este com o Jogo da Cabra Cega (1934); aquele, a partir de Emigrantes (1928) -- não se seguia forçosamente que um romance mais académico tivesse  de ser por força dispensável (quem desdenha, por exemplo de Rachmaninov por antes dele ter havido Schönberg ou Debussy ou Stravinski? Só um pateta); nem seria preciso que o autor tentasse equiparar-se a Aquilino Ribeiro -- de quem está a anos-luz. Bastaria não ter sido tão acomodatício, previsível, superficial; ou, estilisticamente, afastar-se da vulgaridade da escrita postiça, no seu dar-se ares modernaços, para que pudesse ser algo que se lesse a contento, 75 anos depois. Mas não, já era irrelevante quando saiu dos prelos.   2**

ficha:
Autor: Guedes de Amorim
título: Aldeia das Águias (1939)
colecção: «Minerva de Bolso» #26 
editora: Editorial Minerva
local: Lisboa
ano: 1973
págs.: 199
impressão: Oficinas da Ed. Minerva
capa: Manuel Dias