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sábado, 1 de fevereiro de 2014

4 ou 5 págs.: LÁZARO

Terra Virgem (1882) é o primeiro livro em prosa de D'Annunzio, muito influenciado ainda pelo chamado verismo literário. O cenário decorre nos Abruzos, região da Itália central, na costa adriática, de onde o escritor era natural, e as figuras que perpassam pela maioria dos contos são seres rente ao chão, vadios, aleijados, raparigas inocentemente sensuais, rapazes largados à sua sorte, acabando por cansar um pouco o desfile de abortos e desgraçado atavismo. Mas há um enlevo para com a paisagem, que em parte condiciona os indivíduos, que acaba por redimir a obra.
O último conto, Lázaro sintetiza, no seu inefável horror, boa parte destes contos.

Incipit: «Estava de pé, em frente da barraca, meio embrutecido, amortalhado num fato de malha sujo, que se lhe rugava nas barrigas das pernas esqueléticas; fitava o campo lívido, taciturno, entristecido pelas poucas árvores despidas de folhagem, que se erguiam esguias por baixo dum dossel de nuvens pardacentas, humedecidas pela neblina.»

um parágrafo: «Do céu escurentado tombava uma chuva miúda, persistente, raivosa, que por toda a parte se infiltrava, encharcava até à medula, gelava o sangue.»

Gabriele D'Annunzio, Terra Virgem (Terra Vergine, 1882), tradução de M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955, pp. 185-186.




domingo, 30 de dezembro de 2012

LÁZARO

Estava de pé, em frente da barraca, meio embrutecido, amortalhado num fato de malha sujo, que se lhe rugava nas barrigas das pernas esqueléticas; fitava o campo lívido, taciturno, entristecido pelas poucas árvores despidas de folhagem, que se erguiam esguias por baixo dum dossel de nuvens pardacentas, humedecidas pela neblina. Fitava o campo lívido e o clarão sinistro da fome incendiava-lhe o negrume dos olhos. A barraca, coberta de lona encharcada pela chuva, assemelhava-se na penumbra a enorme animal, todo ossos e pele flácida.
Passaram um dia sem comer; os últimos bocados de pão havia-os devorado naquela manhã o filho, esse pequeno monstro humano, de crânio calvo e separado como esférica abóbora. Ele, porém, o mísero, tinha o ventre mais vazio do que o tambor no qual rufava, para atrair os curiosos e exibir o horrível fenómeno a troco dalguns cobres. Não se enxergava, porém, alma viva e a criança jazia dentro da barraca, deitada num montão de velhos farrapos, as pernas contorcidas, o busto deformado, matraqueando os dentes num acesso de febre, enquanto o rufar das baquetas na pele do tambor lhe produzia espasmos dolorosos nos temporais.
Do céu escurentado tombava uma chuva miudinha, persistente, raivosa, que, por toda a parte se infiltrava, encharcava até à medula, gelava o sangue.
O rufar do tambor perdia-se sem eco na tristeza do crepúsculo outona; e Lázaro rufava, rufava de pé, lívido, triste, cravando o olhar angustiado na sombra como para descortinar nela algo que devorasse, apurando o ouvido a cada momento na ânsia de ouvir as vaias de alguns borrachos que se aproximassem. Por duas ou três vezes se voltou para examinar o ignóbil farrapo de carne viva, que arquejava estendido por terra, e, de todas, os olhos do mísero fixavam outros onde se lia a suprema dor.
Não se avistava vivalma. A sombra dum cão surgiu duma viela negra, passou com rapidez em frente de Lázaro, cauda entre as pernas, e parou por detrás da barraca para esburgar um osso encontrado Deus sabe onde. O tambor calava-se; rajadas de vento faziam turbilhonar folhas secas arrancadas dos galhos das carvalheiras. Pairou seguidamente pávido silêncio, silêncio apenas quebrado de vez em quando pelo rosnar do cão, o surdo rumor das cordas de água fustigando a lona branca e o estertor da criança -- um estertor que parecia sair duma garganta mutilada.

Gabriele d'Annunzio, Terra Virgem, trad., M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

12X25

crinas, atirando ao vento gargalhadas sonoras, brados selvagens, deixando flutuar os cabelos esparsos. Os amuletos e os discos refulgentes titlintavam e uma das pomas, de bico nacarado, saltara-lhe fora do corpete com a violência dum gerânio desabrochado. E ria, e ria, e sobre esta luta do poldro e da rude vagabunda, o Sol dardejava as primeiras frechas de oiro.
     -- Bate-lhe com uma vara, Ziza! -- gritou a amazona ofegante.
     O animal, vergastado, despediu em louca correria pela estrada branca, levantando nuvens de

Gabriele d'Annunzio, Terra Virgem, trad. M. L., Lisboa, Editorial Minerva, 1955, p. 25, ls. 1-12.