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domingo, 30 de abril de 2017

forma & conteúdo

A propósito da leitura dos dois ensaios que compõem o voluminho Sobre o Romance Contemporâneo, publicado em 1940 e redigido um par de anos antes, na prisão:
Casais Monteiro, um poeta menor, foi um excelente ensaísta, dos melhores do seu tempo. Havia então uma querela entre a chamada literatura humanista, neo-realista, que tinha os mais estrénuos defensores em Mário Dionísio e Álvaro Cunhal e, doutra parte, aqueles que, acusados de «psicologismo», elitismo e até de desumanidade -- porque não punham os problemas materiais do homem na primeira, ou na segunda, linha das suas preocupações enquanto artistas -- gravitavam em torno da revista presença. A história veio dar razão a Casais, a Régio e a Gaspar Simões, directores da folha coimbrã, não porque o outro lado não tivesse autores de primeira água, que os tinha, simplesmente porque o que sobrevive hoje dessa literatura tem que ver com questões de todas as épocas: por um lado, o homem visto como um problema total, não só material mas também espiritual; por outro, os aspectos da técnica literária, principalmente narrativa, que uma boa parte dos escritores política e/ou socialmente empenhados dominavam muito bem. A querela aludida acima, se hoje (nos) é risível, causou então fortíssimas polémicas, interessantíssimas historicamente, mas que actualmente seriam, mais do que intoleráveis, ridículas... (5 de Junho de 2005)

domingo, 17 de março de 2013

Ei-la, pois, aqui, neste momento --

Ei-la, pois, aqui neste momento -- tudo parece natural ainda; venho olhá-la a cada instante, mas amanhã levá-la-ão, e como hei-de eu ficar sozinho? Neste momento ela está na saleta, em cima da mesa, juntaram-se duas mesas de jogo, mas o seu caixão, amanhã, será todo branco e a sua mortalha de tafetá será pálida; aliás, não é disso que se trata... Não paro, para cá e para lá, a ver se consigo explicar-me a mim mesmo o que se passou: há quase seis horas que procuro essa explicação sem conseguir coordenar as minhas ideias. No fundo, nada mais faço senão ir e vir, ir e vir... Eis como as coisas se passaram. Procederei com método. (Com método!) Deus meu, não tenho nada de um escritor, e isso vê-se bem, mas, que importa?, contarei as coisas tal como as compreendo. Mas, o que é para mim mais espantoso, é que eu compreendo tudo!

Início de Está Morta!, de Fiódor Dostoiévski, trad. João Gaspar Simões,  Lisboa, Editorial Inquérito, 1940.