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quarta-feira, 1 de março de 2017

Camilo Castelo Branco, algumas aparas

Que penso eu do Camilo?
Costumo dizer que ele vale por toda uma literatura. Está no mesmo patamar da poesia trovadoresca, do Camões, do Padre António Vieira, entre outros poucos. Isto é: podia a literatura portuguesa contar apenas com o CCB, e já poderíamos dar-nos por felizes.
Execrável criatura, imoral, porventura amoral, porém fisicamente corajosa. Demolidoramente sarcástico, violento até à bengalada.
Ideologicamente instável, menos reaccionário do que se supõe, oportunista no que fosse preciso.
Detractores, não creio que os tenha hoje, mesmo entre os que preferem o Eça. Já é um clássico.
Conheço-lhe a obra deficientemente (uns quinze títulos ou pouco mais), na proporção incomensurável que logrou alcançar, o suficiente, porém, para um juízo não muito erróneo.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, freguesia dos Mártires, Lisboa, 16 de Março de 1925 -- São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1 de Junho de 1890), é um dos meus escritores.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

leituras de 2014 - #20 DISCURSOS VÁRIOS POLÍTICOS


Publicado em 1624, ainda sob a dinastia dos Felipes, os Discursos Vários Políticos do chantre da Sé de Évora Manuel Severim de Faria (1583-1655) são um exemplo brilhante de estilo acutilante e erudição larga da literatura portuguesa de ideias do século XVII. 
O livro é composto por quatro discursos (ensaios), entremeados pelas biografias de João de Barros, Luís de Camões e Diogo do Couto.
«Do muito que importará para a conservação e aumento da monarquia de Espanha, assistir sua majestade com sua Corte em Lisboa.» é um notável sublinhado do valor estratégico da capital portuguesa como cabeça do império dos Habsburgos; 
«Das partes que há-de haver na linguagem para ser perfeita, e como a Portuguesa tem todas e algumas com eminência de outras línguas.» é um saboroso ensaio e louvor ao nosso idioma, à sua riqueza e à preeminência que, segundo o autor, granjeia sobre as outras línguas novilatinas;
O Discurso  seguinte, «Com que condições seja Louvável o Exercício da Caça.» é um breve e divertido apanhado de prós e contras da actividade venatória, concluindo Severim que a caça é lícita se tiver a justificá-la a necessidade; e mesmo enquanto recreio do senhores poderá continuar a sê-lo, se praticada com moderação;
O Discurso Quarto, «Sobre a origem, e grande antiguidade das vestes, que usa por hábito Eclesiástico o Clero de Portugal», realça a velha ligação da Igreja portuguesa a Roma, mais apertadamente observada no trajo e no cerimonial do que acontecia ao tempo na própria Itália. 
Com excepção do discurso sobre a caça, todos estes textos têm, directa ou indirectamente, um escopo de exaltação patriótica -- como, aliás, bem viu Vasco Graça Moura na sua tão curta quanto sólida "Apresentação". Exaltação prudente, embora clara, com louvores ao monarca reinante e, por mais de uma vez, as melhores (e justas) palavras para o grande monarca da dinastia, Felipe II, o Prudente, a quem nunca deixa de, portuguesmente, designar por "D. Felipe I". Portugal é pois claramente tratado como país claramente distinto na Espanha, embora governado por um mesmo soberano.   5*****

Ficha
Autor: Manuel Severim de Faria
título: Discursos Vários Políticos
colecção: «Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa»
direcção: Vasco Graça Moura
editora: Planeta deAgostini
local: Lisboa
ano: 2005
impressão: Cayfosa, Barcelona
págs.: 191

sábado, 12 de abril de 2014

4 ou 5 págs. - ELOGIO DO SUBÚRBIO

Criar um mundo num mínimo de espaço com um máximo de literatura é atributo dos grandes cronistas, e António Lobo Antunes é um deles.
Esta é a primeira do primeiro Livro de Crónicas, e o subúrbio  de que fala é Benfica em finais de 1940 inícios de 1950, um lugar recuado da Lisboa de então, fronteira do que, a partir da década seguinte se tornaria, de facto, o subúrbio, com toda a carga que a palavra ganhou.
E nesse país que é a infância -- como escreveu Saint-Éxupéry --, os vizinhos eram característicos, os comerciantes castiços, os amigos eram filhos desse povo que vivia na periferia. Era aí que se iniciava a camaradagem no desporto (no Futebol Benfica) e se começava a olhar de esguelha para as mulheres, as boas mulheres dos outros, inacessíveis a bicos imberbes; era o tempo da clandestinidade dos cigarros, como dos primeiros versos. 
Um país que agora só existe na memória do cronista, sepultado pelos prédios de habitação, do qual só resta um vestígio vegetal, a acácia da quinta da família, ao pé da qual ele, querendo, continua a ouvia a chamada da mãe para o jantar.

Incipit. «Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
     -- Víííííííítor
     num grito que, partido da Rua Ernesto da silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos.»
Um parágrafo: «O dono da Farmácia união jogava o pau, a esposa do proprietário da farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me faziam esquecer a mulher de Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o papagaio Loiro  na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava «Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos nos intervalos do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.»

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998, pp. 13-15.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa.
Ferreira de Castro irá, assim, contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil... Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selvaque o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.