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quarta-feira, 27 de maio de 2015

microleituras

Tal como o apoliticismo é profundamente político, a recusa do tangível em poesia acaba por ser, por oposição, uma atitude que reflecte o social. E que poesia rejeita Adorno (1903-1969)? A poesia mercantilizada, a dos prémios literários, a dos suplementos dos jornais, exaltando, pelo contrário, a estesia pura de comunicar o mundo sem porquê, reduzir as palavras ao essencial e não ao funcional. Ou, para citar um poema do norte-americano A. R. Ammons que ainda ontem me passou pelos olhos e pelas mãos: «Desistir das palavras com palavras.» (Limiar #4, 1994). 
Há aqui um nojo, que compreendo bem (estamos em 1957, mas, por outras razões, poderia ser 2015), compreendo, mas ao qual, provavelmente por romantismo, espero-o bem, não consigo aderir. Pôr a mão na massa, para mim, ainda pode ser das acções mais poéticas que uma caneta (!) poderá praticar, pelo risco, pelo despojamento. Sinto-me, aliás, confortado com o que ele escreve a propósito de Brecht, cujo nome se afirma «como o do poeta a quem foi dada a integridade da linguagem sem ter de pagar tributo ao esoterismo.» 
Antes de me ficar, uma nota para a edição, que comprei há dez anos numa Feira do Livro (a 6,16€, preço da dita -- ai o mercado...), cujo colofão, o mais bonito colofão que já li, reza assim: «Este primeiro volume da colecção Marfim acabou de se imprimir na Artipol -- Águeda, no dia 12 de Março de 2003, 48 anos após a morte de Charlie Parker.»  Caraças!, assim também eu queria ser editor.

o incipit: «O anúncio de uma conferência sobre poesia lírica e sociedade irá trazer um certo mal-estar a muitos de vós.»

ficha
   
tradução: Maria Antónia Amarante (e João Barrento para os poemas)
«Colecção Marfim» #1
editora: Angelus Novus
local: Coimbra
ano: 2003
capa: Francisco Romão
impressão: Artipol, Águeda
págs.: 29

sábado, 1 de março de 2014

4 ou 5 págs.: A COMUNIDADE NACIONAL

Primeiro de 24 quadros do quotidiano alemão sob domínio nazi, nos anos pré-guerra. Na noite de 30 de Janeiro de 1933, dois oficiais ss, embriagados, festejam a vitória de Hitler, aquele que vai proceder ao renascimento do povo alemão. Perdem-se no caminho, entrando num bairro suspeito, provavelmente desafecto.; em tempos haviam surpreendido num sítio daqueles "um ninho de marxistas". Temerosos, ouvem um ruído. Abre-se uma janela, um velho em pijama pergunta em voz baixa "És tu, Ema?"... Panicam os ss, desatam aos tiros, e de súbito um grito de alguém atingido por uma bala, irrompe na noite.

duas falas:
«O PRIMEIRO - Numa destas esquinas caçámos um ninho de marxistas. E os tipos depois a dizerem que eram uma associação católica. Mentiras! Nenhum deles tinha colarinho branco!
O SEGUNDO - Achas que ele vai conseguir pôr de pé a grande comunidade nacional?»

Bertolt Brecht, O Terror e a Miséria n o Terceiro Reich [1938], tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 9-11.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A DENÚNCIA

Estes que aqui vêem
são os delatores. Por três vinténs
vendem seu vizinho.
Que são conhecidos
bem no sabem; mas a gente
lembrar-se-á sempre?
A noite dormem-na mal --
-- muitos dias há
antes do dia final.


Breslau, 1933. Casa pequeno-burguesa. Um homem e uma mulher escutam, de pé, junto à porta. Estão muito pálidos.

A MULHER -- Chegaram lá abaixo. 
O HOMEM -- Ainda não.
A MULHER -- Deram cabo do corrimão. E quando o arrastaram para fora do quarto já vinha inconsciente.
O HOMEM -- Mas eu só disse que a rádio que se ouvia com postos estrangeiros não era a nossa.
A MULHER -- Não foi só isso.
O HOMEM -- Não disse mais nada.
A MULHER -- Não te ponhas a olhar para mim dessa maneira. Se foi só isso que disseste, pronto, foi só isso.
O HOMEM -- É o que eu estou a dizer.
A MULHER -- E porque é que não vais à polícia declarar que eles não tiveram ninguém em casa no sábado?

Pausa

O HOMEM -- À polícia não vou. Aquilo são umas bestas. Não vista a maneira como se atiraram a ele?
A MULHER -- Cada um arranja a cama onde se deita. Para que se meteu ele na política?
O HOMEM -- Mas não precisavam de lhe rasgar o casaco. Um casaco grosso como aquele não temos nós, não.
A MULHER -- O casaco não vem para o caso.
O HOMEM -- Mas não precisavam de lho ter rasgado.

Bertolt Brecht, O Terror e a Miséria no Terceiro Reich, trad. Fiama Hasse Pais Brandão, Lisboa, Portugália Editora, s.d.