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domingo, 17 de março de 2013

Ei-la, pois, aqui, neste momento --

Ei-la, pois, aqui neste momento -- tudo parece natural ainda; venho olhá-la a cada instante, mas amanhã levá-la-ão, e como hei-de eu ficar sozinho? Neste momento ela está na saleta, em cima da mesa, juntaram-se duas mesas de jogo, mas o seu caixão, amanhã, será todo branco e a sua mortalha de tafetá será pálida; aliás, não é disso que se trata... Não paro, para cá e para lá, a ver se consigo explicar-me a mim mesmo o que se passou: há quase seis horas que procuro essa explicação sem conseguir coordenar as minhas ideias. No fundo, nada mais faço senão ir e vir, ir e vir... Eis como as coisas se passaram. Procederei com método. (Com método!) Deus meu, não tenho nada de um escritor, e isso vê-se bem, mas, que importa?, contarei as coisas tal como as compreendo. Mas, o que é para mim mais espantoso, é que eu compreendo tudo!

Início de Está Morta!, de Fiódor Dostoiévski, trad. João Gaspar Simões,  Lisboa, Editorial Inquérito, 1940.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

12x25

[con]cordo que isso possa ser ridículo, «mas que me deixem em paz».
     Polina Aleksandróvna insistiu em que eu partilhasse com ela os ganhos do dia em partes iguais, e deu-me oitenta fredericos de ouro, propondo-me que continuasse a jogar nessa condição. Recusei completa e definitivamente a metade e disse-lhe que não podia jogar para outros, não porque não quisesse, mas porque de certeza perderia.
     -- Pois também eu, por mais tolo que isso possa ser, já quase só tenho esperança na roleta -- disse ela, pensativa. -- E por isso você deve sem falta continuar a jogar a meias comigo, e, é claro, vai continuar. -- E afastou-se de mim,

Fiódor Dostoievski, O Jogador -- Memórias de um Jovem, trad. António Pescada, Lisboa, Biblioteca de Editores Independentes, 2007, p. 25, ls. 1-12. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

"A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D'ÁGUA"

Em dois tentos simples, Jorge Amado acaba de escrever o que para mim é o melhor romance e a melhor novela da literatura brasileira: Gabriela, Cravo e Canela e A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, publicada, esta, no número de junho da revista Senhor. Para tirar teima, ainda andei pegando êsses últimos dias Dom Casmurro e Quincas Borba e uma série de contos do velho Machado; um mais fino estilista, sem dúvida, o escritor carioca, com a graça da sua silogística cinzenta e a sua paciente ordenação das personagens no tempo e no espaço. O baiano, apesar do apuro que, pouco a pouco, está também atingindo, ainda se espoja no sumo de sua linguagem, ainda brinca em serviço, como se diz. E felizmente o faz! Pois se é verdadeiro dizer que o estilo é o homem, temos que Machado é mais estilo que homem, e Jorge Amado mais homem que estilo. E esta é, em última instância, pelo menos a meu ver, a classe de escritores que realmente fecundam a língua que realmente libertam as personagens da sua própria teia psicológica e as fazem saltar, vivas e ardentes, para o lado de cá do livro. 
Não somos um país de grandes prosadores. Alguns dos melhores são, a meu ver, poetas como Bandeira e Drummond, ou poetas a ser, como Rubem Braga, que é para mim, neste momento -- em que pese a freqüente displicência que a obrigação da crônica diária lhe traz -- o melhor prosador do idioma. Digo prosa, entenda-se bem. Grandes romancistas nós os temos, alguns aliando à vocação qualidades ímpares de estilo; e, infelizmente, nesta linha, o maior dêles, na minha opinião, morreu: Graciliano Ramos. Mas a maioria dos que procuraram narrar com estilo, nas pegadas do velho Machado, ou por imperativo de sua própria condição de escritor, secaram a língua, fizeram dela não um saboroso pão, cheiroso e de sustância; produziram finos biscoitos quebradiços que se prova uma vez com delícia, mas cuja repetição resulta enjoativa. A êsses prefiro francamente a incúria estilística de um José Lins, de um Jorge Amado da primeira fase, de um Otávio de Faria, que se prejudica o prazer sibarita da leitura de sandálias, em nada lhes subtrai a capacidade de criar mundos de romance onde as personagens "vivem".
Eu acho francamente belo o crescimento de um escritor como Jorge Amado, que vem desde um livro cheio de defeitos como O País do Carnaval até essa obra-prima que é A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água. Um crescimento verdadeiro como a vida, que vem de baixo para cima e sem se recusar às torpitudes; não um crescimento decorativo de araucária, mas de árvore que dá fronde e que dá frutos de polpa, que dá parasitas e dá passarinhos: uma gorda e resinosa mangueira. E que melhor comparação, para o deleite da leitura dêsse baiano da peste, que o de comer mangas, os dentes mordendo fundo a carne da fruta, a terebentina escorrendo pelo queixo no seu amarelo pungente, a gulodice de enxugar o caroço até o fim...
Saí da leitura dessa extraordinária novela, eu que andava no maior fastio de literatura, com a mesma sensação que tive, e que nunca mais se repetiu, ao ler os grandes romances e novelas dos mestres russos do século 19, Pushkin, Dostoievski, Tolstoi, Gogol especialmente. Uma sensação de bem-estar físico e espiritual como só dão os prazeres do copo e da mesa, quando se está com sêde ou fome, e os da cama, quando se ama. Ela representa dentro da novelística brasileira, onde já há cimos consideráveis, um cume máximo. Um cume que todos os escritores jovens devem ter em mira, numa sadia inveja e num saudável desejo de ultrapassá-lo. E tanto pior se o não fizerem.


(Publicado inicialmente em Última Hora, Rio de Janeiro, 1959)

Jorge Amado Povo e Terra -- 40 Anos de Literatura, prefácio de José de Barros Martins, São Paulo, Livraria Martins Editora, 1971.