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quinta-feira, 4 de abril de 2013

O AMOR DAS MÃES (Brito Camacho)

Dizia o médico que não era nada; mas a criança piorava a olhos vistos, a febre queimando-lhe as carninhas tenras, e uma tosse incessante, muito funda, parecendo que lhe rasgava o peito, como se fosse um lâmina! Era o seu único filho, a compensação duma longa vida de trabalho e dores, a esperança dum futuro longínquo, em que havia clarões de gozo. Nem ela sabia como aquilo fora. De repente, como se o tocara um bafejo da peste, o pequeno deixou-se-lhe cair no colo, a encolher-se como quem sente frio, a tiritar como quem tem medo, e logo aquela maldita tosse entrou a rasgar-lhe o peito, como se fosse um punhal, ao mesmo tempo que lhe martelava a cabecinha loira, como sobre uma bigorna.
Enquanto não chegava o médico, fora ela renovar todas as flores do seu oratório, acendendo muitas vezes à Senhora do Rosário, sua madrinha de baptismo, perante a qual ajoelhava todos os dias, com muita fé e devoção. Pedia-lhe agora a vida do seu filho, a salvação do seu Toneco, que ali estava ardendo em febre, a tosse rasgando-lhe o peito, como se fosse um punhal, e nas faces redondinhas umas grandes chapas vermelhas, como dois gigantescos pingos de lacre. Parecia-lhe que a sua Madrinha descerrava os lábios, a dizer-lhe boas palavras, e, como fechasse os olhos, num grande movimento de concentração, ia jurar que tinha sentido sobre a sua cabeça pendida, a mãozinha branca da Santa, a significar-lhe que tivesse esperança.
Dizia o médico que não era nada; e efectivamente desaparecera aquela febre que escaldava o seu Toneco, como num banho de enxofre derretido; cessara aquela maldita tosse que lhe rasgava o peito, como se fosse um punhal, e das faces emagrecidas tinham-se apagado aquelas chapas vermelhas, que eram como dois grande pingos de lacre, ou duas gotas de sangue, muito quente e muito vivo. Aquilo não era nada; o sofrimento cessara... porque também cessara a vida.

Apagou as velas do oratório e, quando atirava para o quintal as flores e a sua Madrinha, pareceu-lhe que se descerravam os lábios da Santa, como num gesto de súplica. Fechou a janela, com força, e, deixando cair os olhos, cheios de lágrimas, sobre o pequenino leito vazio, ficou-se a considerar a impossibilidade de terem crenças as mães que perdem os filhos.

Brito Camacho, Contos e Sátiras, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1929.

segunda-feira, 11 de março de 2013

REMORSO (António Botto)

O céu de súbito pôs-se negro e o vento à solta, parecia querer derrubar montes, castelos e vidas. -- Eduardo, meu filho! gritou a mãe. E o pequeno que deixara de brincar, cego pela poeira e assustadíssimo pelo brusco desaparecimento da luz do sol, deitou a correr para casa. Batia-lhe de frente a ventania dificultando-lhe a corrida. Um remoinho de folhas secas ergueu-se, descompassado. Eduardo, chegou. -- Mas, vens a tremer, meu filho? -- Sim, minha mãe, tenho frio. E com efeito nessa manhã suavíssima de outono o vento fez-se cortante como nos dias baços, chuvosos, e doentios de Janeiro. Eduardo, a pouco e pouco, ia ficando tranquilo. Entretanto, o vento, numa lamúria desgrenhava as árvores, partindo-as, e a chuva, torrencial, dava-nos a impressão de alagar o Universo. Os relâmpagos iluminavam a terra e o céu. A casa estremecia e algumas telhas abalavam como flechas pelos ares. -- Não tenhas medo, meu filho. Deus protege o nosso ninho. Eduardo, então, desatou a chorar, e por mais que a mãe lhe perguntasse a causa daquele choro, não respondia, e sempre a chorar, lembrava-se, com certeza, do ninho de passarinhos que destruíra nessa manhã.

Os Contos de António Botto, 7.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.