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sábado, 15 de março de 2014

Se tivesse de recomeçar a vida...

«Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. Não me habituo: não posso ver uma árvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra.»

Raul Brandão, Memórias, vol. I (1919)

sábado, 27 de abril de 2013

REINALDO

Reinaldo Ferreira pertencia à geração que entrou na vida ao estrépito dos canhões da Grande Guerra. À sua volta, tudo era turbilhão e vertigem. Dotado de uma sensibilidade quase infantil, absorveu todas as inquietações e angústias que 1914 lançou no mundo, revoluções e atentados, fortunas e misérias, glórias e baixezas, espionagens e crimes... Foi assim que ele compreendeu a vida. E assim a descreveu a sua pena de jornalista, em crónicas modelares, em reportagens de mistério e fantasia.
Os que somos da geração anterior, ainda sentimos durante alguns anos a noção de equilíbrio social, de harmonia, de estabilidade nos interesses criados. Habitávamos uma casa talvez envelhecida, mas com todos os compartimentos em ordem. A mobília, gasta pelo uso, estava sempre no seu lugar. As paredes davam uma impressão de solidez eterna. Pensávamos que seria sempre assim. Fazíamos versos e líamos romances.
Depois, o mundo entrou em obras. Surgiram em toda a parte arquitectos audaciosos, que mandavam implacàvelmente deitar abaixo. Nalgumas salas só há estilhaços de cadeiras. As paredes ameaçam desabar. Os vigamentos tremem. Os alicerces mal suportam o peso das ruínas ainda em pé. Como deve ser bom habitar o mundo quando as obras receberem os acabamentos finais e tudo esteja outra vez no seu lugar, o tempo a deslizar com harmonia, num ritmo suave! 
Reinaldo Ferreira, que aflorou todas as formas literárias com a mesma espontaneidade exuberante e criadora, não quis que da sua pena saísse a descrição do drama pungente que foi a sua existência, em certos lances. Se o fizesse, não precisaria de socorrer-se da sua imaginação prodigiosa para despertar algumas lágrimas de piedade nos olhos de quem os lesse.
Pobre Reinaldo! Sofreu demasiadamente as angústias da época em que viveu. Foi ela que o matou.

Herculano Nunes, in O Livro de Repórter X, edição de Mário Domingues, Lisboa, Agência Editorial Brasileira, s.d.

terça-feira, 26 de março de 2013

O CONDE DE RESENDE, O FEITOR E OS POMBOS

O caso passou-se com o conde de Resende, espírito de elevada ilustração, grande amigo e cunhado de Eça de Queirós.
Visitando um dia uma das suas propriedades, foi na visita acompanhado pelo feitor, que tinha presunção de muito bem falante.
A certa altura, levantou-se uma revoada de pombos torcazes.
O conde perguntou, admirado:
Donde vieram para aqui estes pombos torcazes?
E o feitor:
-- Querem dizer alguns autores que estes pombos são oriundos da Ibéria. Erro profundo. Torcazes... a palavra o diz, são da Turquia.

D. Alberto Bramão, Últimas Recordações, Lisboa, edição de Adelaide Bramão, 1945.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

TRÊS ESCUDOS

A minha cela levou hoje uma barrela mestra!
Durante três horas andaram dois presos encarrapitados num escadote, e a palmilhar a lagariça do chão, descalços, encharcados até aos ossos, numa esfrega desenfreada de escova, pano, sabão e potassa, que deixou tudo num brinquinho, do tecto à porta!
Como não eram obrigados a tanto esforço, disse-lhes que ia entregar 3 escudos à Secretaria, onde eles poderiam recebê-los.
-- Nada, não senhor! responderam ambos. Não iremos!
Insisti. Mostrei-lhes que a fartura não era grande, que nada os obrigava ao que tinham feito, que estavam ambos exaustos de cansaço.
-- Muito agradecido, atalharam eles mantendo a sua recusa. Isto que nós fizemos não é nada...
-- Não nos deu trabalho algum, acrescentou o mais velho, arfando de fadiga.
Ainda tentei convencê-los. Não houve meio. Mantiveram-se intransigentes.
-- E além disso, concluiu um deles com ar embaraçado, nem era bonito a gente aceitar...
Intrigado, perguntei-lhe porquê.
-- Porque a gente sabe muito bem que o senhor... o senhor também vive com dificuldades!
E sem quererem ouvir mais, deitaram o escadote aos ombros e abalaram pela porta fora, a escorrer como uns pintos!
Um deles, por alcunha o Marreco, está condenado por ladrão.
O outro, por alcunha o Bilau, está condenado por incendiário. (*)

(*) -- Este Bilau era um recluso com bom comportamento. Condenado por crime de fogo posto num palheiro, jurava estar inocente, e o seu co-réu, autor do crime, confirmou sempre a verdade desse juramento. Bilau tentou a revisão do processo, mas faltaram-lhe os meios para isso. Morreu em 1929.
O outro ainda se encontra preso e é igualmente bem comportado.

António Bandeira, os Grandes Armazéns da Desventura, Lisboa, Imprensa Libânio da Silva, 1931.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

(MOSCOVO, 1952 -- OS DESMEMORIADOS)

Ilya Eremburg e eu chegamos silenciosos de uma conversa com figuras gradas nos altos escalões a propósito de nosso amigo Jan Drda, atendendo pedido que ele me fez em Praga de onde venho para receber o Prémio Internacional Estaline da Paz: o prémio me credencia. Estamos em Janeiro de 1952, vinte graus abaixo de zero, vento gélido varre as ruas de Moscovo, emborcamos os cálices de vodca no apartamento da rua Gorki, Ilya me diz: Jorge, somos escritores que jamais poderemos escrever memórias, sabemos de mais. No abalo da conversa que acabamos de ter, balanço a cabeça concordando.
Afirmação categórica não impediu que, alguns anos depois, durante o período de Krushtchev, ao se abrir uma pequena brecha no obscurantismo soviético, ao despontar de uma pequena luz no meio das trevas, o autor de Degelo publicasse sete tomos de memórias, sete, nada menos: no sétimo Zélia e eu figuramos, simpáticos personagens. E isso não é tudo, pois Irina me contou, em 1988, estar pondo em ordem os papéis do pai com o fim de editar vário volumes de memórias inéditas que ele não conseguir publicar sequer durante a abertura de Krushtchev: Ilya sabia de mais.
Durante a minha trajectória de escritor e cidadão tive conhecimento de factos, causas e consequências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive acções subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a actividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga consequência alguma. Mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrerão comigo.

Jorge Amado, Navegação de Cabotagem -- Apontamentos para um Livro de Memórias que Jamais Escreverei (1992), Mem martins, Publicações Europa-América, 1992,