sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

microleituras

O maravilhoso dos gestos quotidianos, sempre mais significantes so que deixa entrever um olhar apressado. Um singular olhar de fora para dentro.










Primeiro poema:

Dia 1

Hoje não há leite.
O alumínio
não foi 
à flor do lume.

Que silêncio
quadrado
na cozinha!
Lá fora

-- um frio só
de rua fria.
Que risco

tão um
o número 
deste dia!

ficha:
Autor: Pedro Alvim
título: A Esfera dos Dias
colecção: «Caminho da Poesia»
editora: Editorial Caminho
local: Lisboa
ano: 1985
capa: José Araújo
impressão: Guide-Artes Gráficas
págs.: 38
tiragem: 800


sábado, 24 de dezembro de 2016

microleituras

Eco era não só um extraordinário erudito, como um sábio epicurista. O seu humor assim o comprova.
(Conferência proferida em 10 de Março de 1981, na Biblioteca Municipal de Milão.)

início - «Penso que num lugar tão venerando seja oportuno começar, como numa cerimónia religiosa, pela leitura do Livro, não como uma finalidade informativa, pois quando se lê um livro sagrado já  roda a gente sabe o que o livro diz, mas com as funções litaniais e para predispor bem o espírito.»

ficha:
Autor - Umberto Eco
título: A Biblioteca
texto da contracapa: Maria Luísa Rodrigues de Freitas
tradução:  Maria Luísa Rodrigues de Freitas
editora: Difel
local: Lisboa
ano: 1987
capa: Rogério Petinga
impressão: Tipografia Guerra, Viseu
págs. 47

sábado, 1 de outubro de 2016

fui às compras

8 Sonetos de Nunes Claro, Sintra, Câmara Municipal [1965].
Capitais da Solidão, de Rui Pires Cabral, Vila Real, Teatro de Vila Real, 2006.
Livros Proibidos, de Domingos Monteiro, Lisboa, Sociedade de Expansão Cultural, 1974.
Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, edição de Afonso Félix de Sousa, 2.^ed., Rio de Janeiro, Record, 1986
Meridianos Críticos (Segunda Série), de Manuel Anselmo, Lisboa, Portugália Editora, 1950.
Muito, Menos, de Rui Almeida, Lajes do Pico, Companhia das Ilhas, 2016.
Quiçe Mi Lá Buche, de António Miranda, Lisboa, Tea For One, 2015.
Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, de Álvaro Pina, Lisboa, Editorial Caminho, 1977.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

A novelística portuguesa - IV: 1-2,9

13. Lídia Jorge, Os Memoráveis (2014) - 2,7
12. Filomena Cabral, Em Demanda da Europa (1997) - 1,5
11. Mário Zambujal, Primeiro as Senhoras (2006) - 2,5
10. Carlos Querido, A Redenção das Águas (2013) - 2,7
9. Maria Manuel Viana, Teoria dos Limites (2014) - 2,7
8. António Alçada Baptista, O Riso de Deus (1994) - 1,2
7. Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição (1916) - 2,0
6. Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho (2008) - 1,5
5. Guedes de Amorim, Aldeia das Águias (1939) - 1,5
4. Sarah Beirão, Triunfo (s.d.) - 2,9
3- António Manuel Venda, O que Entra nos Livros (2007) - 2,5
2. Rosa Lobato de Faria, A Alma Trocada (2007) - 2,7
1. Bento da Cruz, Filhas de Loth (1967) - 2,9

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

se o Lebesgue o escreveu...

Dentre os muitos e bons lusófilos que a França nos deu, Philéas Lebesgue é certamente um dos maiores, e também dos mais persistentes. Basta dizer que a sua colaboração no Mercure de France se prolongou por mais de cinquenta anos (1896-1951...). Há quase uma década, em 2007,  Madalena Carretero Cruz e Liberto Cruz prestaram um grande serviço à cultura portuguesa, traduzindo e organizando essa vasta colaboração -- quase 700 páginas com letra em corpo 10.
Além da competência crítica, o que mais surpreende, no final do século XIX, é a completíssima informação que Lebesgue tem do movimento editorial português.
Passarei a visitar essa colaboração no que concerne a alguns nomes que mais me interessam (ver barra lateral), e até alguns que me interessam menos.
Philéas Lebesgue, Portugal no Mercure de France -- Aspectos Literários, Artísticos, Sociais de Fins do Séc. XIX a Meados do Séc. XX, edição e tradução de Madalena Carretero Cruz e Liberto Cruz, Lisboa, Roma Editora, 2007.
 


quarta-feira, 27 de julho de 2016

A novelística portuguesa -- III: 3-3,9

16. Rui Nunes, «Quem da Pátria Sai a Si Mesmo Escapa?» (1983) - 3,9
15. Nuno Júdice, O Enigma de Salomé (2007) - 3,7
14. Reinaldo Ferreira, Memórias Extraordinárias do Major Calafaia (póstumo, 1945) - 3,3
13. António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã (1988) - 3,0
12. José Saramago, Terra do Pecado (1947) - 3,5
11. Manuel da Silva Ramos, Três Vidas ao Espelho (2010) - 3,8
10. Luís de Magalhães, O Brasileiro Soares (1886) - 3,9
9. João Botelho da Silva, Beduínos a Gasóleo (1993) - 3,7
8. Fernando Faria, O Noviço (2015) - 3,4
7. Augusto Abelaira, A Cidade das Flores (1959) - 3,8
6- Mário Domingues, O Preto do «Charleston» (1930) - 3,1
5- Antunes da Silva, Suão (1960) - 3,8
4- Mário de Sá-Carneiro, A Confissão de Lúcio (1914) - 3,1
3. Olga Gonçalves, A Floresta em Brermehaven (1975) - 3,7
2. Tomaz Ribas, Cais das Colunas (1959) - 3,0
1. Afonso Cruz, Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012) - 3,7

quarta-feira, 6 de julho de 2016

livros que me apetecem

Anunciações -- Um Romance, de Maria Teresa Horta (Dom Quixote)
A Conspiração Cellamare, de Nuno Júdice (Dom Quixote)
O Capitão Veneno, de Pedro Antonio de Alarcón (Sistema Solar)
O Meças, de J.Rentes de Carvalho (Quetzal)






domingo, 19 de junho de 2016

microleituras

Cartas de Camilo, apresentação de Vasco Graça Moura, edição de José da Cruz Santos, gravuras de Alberto Péssimo, direcção gráfica de Armando Alves -- tudo para ser uma grande edição, e é-o.
E o é, pelo humor sardónico de Camilo, que, em quatro cartas, datadas de 1886, trata, com o destinatário delas, Adelino António das Neves e Melo, Filho, ex-comissário de polícia em Coimbra, e velho amigo, que este lhe arranje um burro, para passeio (recomendação médica).
O título, certamente de Graça Moura, é um achado, à altura da verve camiliana, sempre maldosa. Mas como no melhor pano cai a nódoa, a edição a respeito de questões editoriais essenciais, mesmo atendendo a este tipo de publicação, em que o objecto-livro é (boa) finalidade. A saber: trata-se de uma primeira transcrição?; e por quem?. Se não, de onde foram extraídas?... 

excerto duma carta:

«Meu presado Am.º
[...]
Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo. /  Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam-me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns q ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos. [...]»


ficha:
Autor: Camilo Castelo Branco
título: Um Animal de Quatro Cartas
prefácio: Vasco Graça Moura
ilustrações: Alberto Péssimo
edição: Edições Asa
local: Porto
ano: 2000
impressão: Edilções Asa, Rio Tinto
págs.:
tiragem: 1350
págs.: 26

segunda-feira, 6 de junho de 2016

microleituras

Jogos de humor, de palavras e ideias, de onde não está ausente, em certos poemas, uma intenção didáctica.











1 poema

ficha: 
Autor: Luísa Ducla Soares
título: Arca de Noé
ilustrações: Pedro Leitão
edição: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano: 1999
impressão: Printer Portuguesa
págs.: 27

sexta-feira, 3 de junho de 2016

AS MÃOS (Júlio Dantas)

Maria Júlia acordou em sobressalto. O coração batia-lhe com força. Tinha a testa inundada de suor e frio. A boca sabia-lhe a sangue. Fez um esforço intelectual para reconhecer onde estava. Na escuridão, sentou-se na cama, escutou, tacteou. As suas mãos encontraram uma massa morna, gelatinosa, arquejante. Era um homem. Era o seu companheiro de acaso naquela noite. Na torre de S. Paulo bateram as três da madrugada. Um cheiro acre a palha e a bafo sufocou-a. Dormia, mais uma vez, na hospedaria da Rua do Carvalho, tão conhecida já dos seus dois anos de miséria. O calor viscoso daquele corpo fê-la estremecer; sentiu crispar-se-lhe a pele num movimento instintivo de repugnância. Quem seria aquele homem? Mal tivera tempo de o ver. Deixara-lhe a vaga impressão dum casacão amarelo, duma voz rouca, duma barba hirsuta e grisalha, duns braços possantes que a tinham sacudido, apertado, calcado. Ficou uns minutos na treva, a ouvi-lo respirar. Era o ronco brutal e pacífico dum animal que dorme. Imóvel, a respiração quase suspensa, Maria Júlia esperou, com a resignação das abandonadas, que clareasse a manhã. Os lençóis de estopa ardiam-lhe na pele. Zumbiam-lhe os ouvidos. Quis adormecer. Não pôde. Passavam-lhe pela cabeça, num tropel, os horrores da sua vida inteira. Reviveu toda a sua infância aos pontapés; o abandono, o asilo, o hospital, a fome; a mãe morta, com as veias abertas, numa poça de sangue; o pai embarcado para o Brasil quando ela tinha sete anos; os vizinhos a gritarem-lhe no pátio: -- «Manuel da Cruz, tenha dó da criança, que é sua filha!»; -- e na escuridão, na imobilidade, no silêncio, adivinhando cada vez mais vivo, mais mordente o calor daquele corpo desconhecido, Maria Júlia sentia as lágrimas a escaldarem-lhe a cara, o peito a arquejar-lhe com força, e toda a cama tremia já do arranco dos seus soluços. A obscuridade oprimia-a; a cabeça andava-lhe à roda; vacilou, numa vertigem; acendeu a luz. O homem dormia serenamente, de costas, a barba empastada de suor, o arcaboiço largo arfando numa camisola velha de mescla azul, a mão direita espalmada sobre o peito. Maria Júlia levantou a vela, debruçou-se, observou-o -- estremeceu. Os olhos fixaram-se-lhe, redondos de pavor, naquela mão espessa, maciça, enorme, queimada de tabaco, eriçada de pêlos ruivos,  onde brilhava um anel de prata. Cambaleou. Dominou-se, para não gritar. Tinha conhecido, na sua infância, umas mãos assim. A tremer, aproximou a luz da cara do homem -- e olhou-o, e fitou-o ansiosamente. Uma expressão de dúvida horrível crispou-lhe as feições. Seria ele? Não seria ele? Num lampejo, pensou em tudo -- em sacudi-lo, em acordá-lo, em fugir, em gritar, em esmigalhar a cabeça de encontro às paredes. Num esforço de todas as suas reminiscências infantis, olhou ainda, uma vez mais, aquela mão musculosa, ruiva, felpuda, possante como uma pata de fera. Queria saber, queria ter a certeza. Atirou-se para os pés da cama. O sangue ardia-lhe nas faces. Perdida, ofegante, travou das roupas do homem -- revolveu-as, rebuscou-as, despedaçou-as. Achou uma carta, um sobrescrito com um nome. Abriu os olhos, fitou esse papel mudo onde estava escrita a sua sentença. Não sabia ler. Numa angústia, num desespero, sustendo a respiração, calçou-se, vestiu-se, atou o lenço, embrulhou-se no xaile -- e, com os dedos fincados na carta, desceu a escada de roldão. Era madrugada. Uma lufada de ar fresco bateu-lhe na cara. Na rua, a luz azulada da manhã alastrava como uma névoa. Maria Júlia correu a um polícia, que cabeceava encostada a um candeeiro ainda aceso, e pálida, opressa, mal podendo falar, pediu-lhe que lesse o nome escrito naquele papel. O guarda encarou-a, viu a carta e leu:
-- Manuel da Cruz.
Diante dele, Maria Júlia caiu sem um grito, como um corpo morto.

De Mulheres (1916); antologiado por João Pedro de Andrade em os Melhores Contos Portugueses,Lisboa, Portugália, 1959.

Comentário - Conto de um naturalismo já tardio, mas nem por isso mais artificioso, com fatal e esperável desenlace. Gosto do ritmo da prosa, períodos curtos, jornalísticos. Muito boa a descrição do brutal, mas pacificado, Manuel da Cruz, dormindo.



domingo, 29 de maio de 2016

cabaz de meia feira

António Franco ALEXANDRE, Aracne (Assírio & Alvim)
ANÓNIMO, História de Carlos Magno (Minerva)
ANÓNIMO, História do João Pateta (Minerva)
ANÓNIMO, Vida e Milagres de Santo António (Minerva)
H. G. CANCELA, De Re Rvstica (Afrontamento)
Manuel Afonso COSTA, Os Últimos Lugares (Assírio & Alvim)
Gastão CRUZ, A Poesia Portuguesa Hoje (Relógio d'Água)
Maria da Conceição FERNANDES, António Botto -- Um Poeta de Lisboa (Minerva)
Mário-Henrique LEIRIA, Depoimentos Escritos (Estampa)
Ilde LOSA, Sob Céus Estranhos (Afrontamento)
A. H. de Oliveira MARQUES, Correspondência Política de Afonso Costa -- 1896-1910 (Estampa)
Graça Pina de MORAIS, A Origem (Antígona)
Helder Moura PEREIRA, Nem por Sombras (Afrontamento)
Helder Moura PEREIRA, Se as Coisas Não Fossem o que São (Assírio & Alvim)
Alberto Oliveira PINTO, Eu, à Sombra da Figueira da Índia (Afrontamento)

terça-feira, 24 de maio de 2016

microleituras

Conferência proferida por Joaquim Paço d'Arcos no Instituto Britânico, em Lisboa, a 30 de Novembro de 1954, data em que o estadista inglês completava oitenta anos.
O texto é esplêndido de informação, concisão e empatia do romancista português (um dos mais importantes da primeira metade do século XX) e essa figura titânica no imaginário contemporâneo, galardoada no ano anterior com o Prémio Nobel de Literatura, pelo conjunto da obra, em especial The Second World War, só então concluída. Galardão que, de resto, suscitou, desde então, várias perplexidades. Só que não seria o primeiro nem o último Nobel literário entregue a um não ficcionista: o historiador alemão Theodore Mommsen recebeu-o em 1903, e ainda no ano passado, a jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich seria também distinguida.
A conferência, propriamente dita, é a resenha de um admirador português, escritor, conservador e colonialista no sentido histórico do termo, pontos de identidade com o homenageado.

início:
«MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES: / Convidado há muito pelo Instituto Britânico para pronunciar uma conferência nas suas salas hospitaleiras, só agora a minha vida pesada me permitiu retribuir, com a desvaliosa moeda da minha palavra, todas as atenções de que nesta casa tenho sido alvo.»

ficha:
Autor: Joaquim Paço d'Arcos
título: Churchill -- O Estadista e o Escritor
edição: Separata da revista 'Ocidente', vol. XLVIII
local: Lisboa
ano:s.d.
impressão: Editorial Império
págs.; 32

sábado, 21 de maio de 2016

Garrett no "Dicionário Perdigão"

Uma síntese de Henrique Perdigão, na 2.ª edição do seu insano Dicionário Universal de Literatura (1940): simples, acessível, eficaz, faltando, no excerto, as Folhas Caídas, talvez a única obra poética de Garrett que sobreviveu ao tempo:

«[...] Garrett, como poeta, cantou especialmente o amor da Pátria e da liberdade; este inspirou-lhe o Catão [...]; aquele inspirou-lhe o Camões, o melhor, talvez, dos seus trabalhos e a primeira manifestação  da poesia romântica em Portugal [...] Como dramaturgo, só, também, de assuntos nacionais se ocupou, criando com Um Auto de Gil Vicente, Frei Luís de Sousa e outras peças a verdadeira escola dramática. Como prosador, bastariam as páginas que deixou no Arco de Sant'Ana e nas Viagens na Minha Terra para que o seu nome se impusesse à admiração unânime do País, onde não foi só o grande reformador das letras, mas o fundador do teatro nacional. [...]»

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pub.



Acaba de sair a 2.ª edição do meu Viajar com Ferreira de Castro,
uma iniciativa da Direcção-Geral da Cultura do Norte,
agora em colaboração com a editora Opera Omnia

sexta-feira, 13 de maio de 2016

microleituras

Expulso da universidade pela repressão do salazarismo, antes de exilar-se no Brasil -- onde foi professor do bom embaixador José Aparecido de Oliveira, o pai da transviada CPLP --, Agostinho da Silva promoveu a edição de de livros e folhetos de difusão de um vastíssimo saber. Uma dessas iniciativas foi esta colecção «Antologia -- Introdução aos Grandes Autores», pouco mais do que folhetos na sua dimensão física, de periodicidade quinzenal, e cujo número avulso custava 1$20...
Fénelon (1651-1715 -- cuja ano de nascimento é o mesmo do nosso grande diplomata, historiador e memorialista José da Cunha Brochado), bispo de Cambrai, foi uma das mais notáveis figuras da Igreja no período barroco, numa França ainda exangue das Guerras de Religião e da Fronda. Ele próprio não fica imune à complicada heterodoxia religiosa do tempo, jansenismo, quietismo, tendo abraçado este último desvio, e posteriormente forçado a retractar-se, sendo desterrado por Luís XIV.
Deste Diálogo dos Mortos (1712), colóquios de ética política, dir-se-ia que ad usum delphini, em que são convocadas figuras mitológicas e históricas da Antiguidade, sobressai o escopo de de exaltação do bom governo do soberano, limitado pela lei e pelo bem-comum, ao arrepio do qual todo o poder se torna injusto, redundando em tirania. Muito apropriado nesses anos de chumbo em que Agostinho da Silva, idealisticamente, exercia a sua pedagogia.

primeiro diálogo:

«REMO -- Eis-te, enfim, meu irmão, no mesmo estado em que me encontro; para isto, não valia a pena teres-me matado. Acabaram os poucos anos em que reinaste; deles nada resta: e muito melhor os terias passado se tivesses vivido em paz, se comigo tivesses partilhado o poder.
RÓMULO -- Se tivesse tido essa moderação, não teria fundado a poderosa cidade que estabeleci, nem feito as conquistas que me imortalizaram.»

ficha:
Autor: François de Salignac de la Motte Fénelon
título: Diálogos dos Mortos
tradução: Agostinho da Silva
colecção: «Antologia -- Introdução aos Grandes Autores» 6.ª série
editor: Agostinho da Silva
local: lisboa
ano: 1942
impressão: Grandes Oficinas Gráficas «Minerva», Famalicão
págs.: 21

terça-feira, 10 de maio de 2016

microleituras

Maravilhoso livrinho da maravilhosa Maria Keil, história e ilustrações, lindas, sobre uma família de gatos que vê construir um prédio nos seus domínios.Querem ver o pau de fileira, coisa que, naturalmente, não sucede. Inteligentemente didáctico no louvor da cooperação, da tolerância e, sendo progressista, na defesa das tradições válidas. E com um tom muito Maria Keil, que quem a conheceu não deixa de identificar.

o princípio: «Era uma vez um terreno sem nada, no cruzamento de duas ruas.»



ficha:
Autora: Maria Keil
título: O Pau de Fileira
colecção:«Pássaro Livre»
editora: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano: 1976
impressão: Litografia Amorim
págs.: 32

domingo, 8 de maio de 2016

um dom

«Como a poesia, a crítica é um dom. Nasce-se com aptidão interpretativa e judicativa, como se nasce com aptidão criadora e expressiva.» Manuel Antunes, «Da crítica literária» [1960], Legómena (1987).

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Romancistas portugueses - Augusto Abelaira segundo David Mourão-Ferreira (1963)

Uma dúzia de linhas no volume I da enciclopédia Verbo. Abelaira publicara apenas dois romances e duas peças. David Mourão-Ferreira qualifica a obra como «inconsistente, reflectindo embora, de maneira fiel, certa desorientação de alguns sectores da adolescência contemporânea.»
Inconsistência, foi isso que senti ao ler A Cidade das Flores (1959), que no entanto causou um grande efeito no público leitor de então -- a acção decorre em Itália, no tempo do fascismo. A transposição para cá era óbvia.
Li, há muitos anos, O Bosque Harmonioso, que hei-de reler. Como cronista fui (e continuo a ser, nos recortes que tenho espalhados pelkos meus livros, as suas crónicas esplêndidas de Ao Pé das Letras, no JL, e o Escrever na Água -- grande título para a espuma dos dias da actualidade política, de grande lucidez e humor.   

segunda-feira, 2 de maio de 2016

microleituras

Seis composições outonais: meia dúzia de poemetos meus -- o mais antigo de 1985, de 2001 o mais recente--, em torno de temas inevitáveis como a infância e a morte. Esta tornando-se-me menos obsidiante, à medida que se aproxima; aquela, cada vez mais presente, na inversa proporção do tempo que a afasta inexoravelmente.






1 poema:

MUNDO DE AVENTURAS

Uma pequena aldeia na planície arménia
nevoeiro matinal no porto de Dieppe.
O silvar agudo nos cimos dos Cárpatos,
um castelo solitário num lago escocês.

Um junco chinês no mar do Japão,
um trilho de camelos na Rota da Seda.
Um catre vazio no mosteiro da Arrábida
uma via romana na serra do Gerês.

Uma mesa de cozinha e odores de Outono,
um eucaliptal onde brinco com o Avô.
O último número da revista tão esperada,
despojos da infância que se me acabou.
Sintra, 21 de Março de 2001
 
ficha:
Autor: Ricardo António Alves
título: Seis Composições Outonais
separata de Vária Escrita #8
local: Sintra
edição: Câmara Municipal de Sintra
ano: 2001
págs.: [6]

sábado, 30 de abril de 2016

microleituras

Uma lógica semelhante aqui, com texto do mesmo Tronhdheim, e idênticos resultados.







Vinheta 1:



ficha:
Autor: Lewis Trondheim 
título: Imbróglio
tradução: Pedro Cleto
colecção: «Quadradinho» #5
editor: Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto
local: Porto
ano: 1997
impressão: Litogaia
págs.: 24

quarta-feira, 27 de abril de 2016

microleituras

Sobre a Censura e a auto-censura. O artiguinho saltou-me há vinte anos, impressionado com a leitura das «Mensagens» de Ferreira de Castro na sessão do MUD (1946) e na campanha de Norton de Matos (1949):  O medo das pessoas falarem livremente umas com as outras, não fossem ser presas, despedidas, interrogadas, torturadas. O país do medo. E, no tempo de Salazar, Ferreira de Castro escrevia isto para ser lido em público:

«[...] Os Portugueses, na sua maioria, vivem numa permanente desconfiança [...] Eles vêem em todo o compatriota que não conhecem um possível inimigo -- um homem que lhes pode fazer mal. Eles desconfiam de tudo, até dos mendigos, algumas vezes até dos parentes. até da sua própria sombra. Mesmo os homens mais pacíficos, pais de família cuja principal preocupação poderem alimentar os filhos, vivem neste ambiente de suspeição, que produz, tantas vezes, imerecidos juízos sobre pessoas que, afinal, são outras tantas vítimas do medo.»
(«Mensagem de Ferreira de Castro», Campanha Eleitoral da Oposição. Depoimento. 3.ª série, Lisboa, 1949)

O mesmo ano, contra a mediocridade instaurada pelo medo, com os surrealistas a erguerem-se. E, por falar em surrealistas, cruzo na temática do medo, poemas de Alexandre O'Neill, Natália Correia, mas também de Manuel da Fonseca e Manuel Alegre. E foi o que me veio à memória, quando pensava no que escrever sobre esta separata. Lembrei-me do parazer em pegar nos textos, aqui e ali, misturá-los, cozinhá-los. Sempre gostei de fazê-lo. E não apenas com a literatura, mas também com a pintura, a música...

incipit - «Uma ideia que tem feito carreira com sucesso é a da inexistência de grande obras reveladas após o 25 de Abril, dessas que aguardaram publicação durante anos nas gavteas dos seus autores.»

Ficha
Autor: Ricardo António Alves
título: Ferreira de Castro: Um Escritor no País do Medo
separata: Taíra - Revue du Centre de Recherche et d'Etudes Lusophones et Intertropicales #9
edição: Université Stendhal
local: Grenoble
ano: 1997
págs. 10

segunda-feira, 25 de abril de 2016

filósofos e mulheres -- ou grande estilo de apresentar um tratado

«Admitindo que a verdade seja mulher, não será justificado que todos os filósofos, conquanto dogmáticos, pouco percebiam de mulheres? Que o sério trágico, a inoportuna falta de tacto que até agora têm empregado para atingir a verdade, eram meios demasiado desastrados e inconvenientes para conquistar o coração de uma mulher? Certo é que ela não se deixou conquistar; e toda a espécie de dogmática toma hoje uma atitude triste e desencorajada, se é que ainda toma alguma atitude.» 
Friedrich Nietzsche, do «Prefácio» de  Para Além do Bem e do Mal (1866)

domingo, 24 de abril de 2016

o início de A CIDADE DAS FLORES, de Augusto Abelaira (1959)

«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


terça-feira, 19 de abril de 2016

microleituras

Quem quiser conhecer a forma e o fundo da chamada literatura de cordel tem à mão este livrinho do velho Camilo, objecto de muitas edições ao longo dos tempos desde a edição princeps, sem nome do autor, publicada em 1848 (data que a presente edição nem se dá ao trabalho de informar).
A literatura de cordel, com as suas historietas mirabolantes, os seus relatos de crimes horrendos, fazia as vezes dos jornais tablóides e das estações de televisão, cuja luta entre si, à procura de sangue para a turba das audiências, é pelo menos tão miseranda quanto os crimes nefandos escarrapachados nestes folhetos, vendidos por esse país adentro, nas feiras, nos mercados, nos lugares de ajuntamento, a um público analfabeto que ouvia a leitura em grupo.
A história verídica que nos conta Camilo -- o matricídio de Matilde do Rosário da Luz pela sua filha Maria José -- é um (in)vulgar crime venal que a miséria humana conhece desde que se conhece. O que é giro neste folheto é a técnica espertalhona de Camilo de captar e impressionar o ouvinte do anúncio do conteúdo, no exórdio dirigido AOS PAIS DE FAMÍLIA!, de forma a ficarem logo agarrados ao triste caso, sinal claro de «que o fim do mundo está chegado» -- e abrirem os cordões à bolsa, é claro, que era o que interessava ao futuro autor do Amor de Perdição

o inicio: «Em Lisboa, na travessa das Freiras n.º 17 havia um homem chamado Agostinho José casado com Matilde de Rosário da Luz.»

ficha: 
Autor: Camilo Casrelo Branco
título: Maria! Não Me Mates que Sou Tua Mãe!
editora: Edições Nova Ática
local: Lisboa
ano: 2001
impressão: Stória
págs.; 16

quinta-feira, 14 de abril de 2016

livros que me apetecem

A Crisálida, de Rui Nunes (Relógio d'Água)
Letra Aberta, de Herberto Helder (Porto Editora)
Minha Formação, de Joaquim Nabuco (ABL e Glaciar)
Não de Pode Morar nos Olhos de um Gato, de Ana Margarida de Carvalho (Teorema)
Vil -- A Tragédia de Diogo Alves, de André Oliveira e Xico Santos (Kingpin Books)
Volta, de André Oliveira e André Caetano (Polvo)








segunda-feira, 11 de abril de 2016

microleituras

Uma estesia alumiada pelo imaginário transtagano, claridades e planuras do sul que pediam mais rarefacção duma certa mitologia e lugares-comuns correspondentes.

1 poema









NEM SÓ O SUL

Nem só o sul O'Neill nem só o sol
por debaixo da sombra há outras sombras
no interior da casa talvez na cama
sob os lençóis
no desejo reprimido na violência contida
no ancestral orgulho masculino
no grito abafado das mulheres
há outras noites outras sombras outras portas fechadas
outros domínios proibidos
outras coutadas.

ficha:
Autor: Manuel Alegre
título: Alentejo e Ninguém
editora: Caminho
edição: 3.ª
local: Lisboa
ano: 1998
impressão: Tipografia Lousanense
capa: José Serrão
págs.: 43
tiragem: 2000

sexta-feira, 8 de abril de 2016

microleituras

Esplêndida bd de Rui Lacas, destreza narrativa, filactera a filactera, argumento simples, eficaz, ternurento e surpreendente. Um boneco com potencialidade de herói: o Padre Fortunato. Não há mais estórias com ele?









primeira vinheta:



ficha:
Autor: Rui lacas
título: A Ermida
prólogo: Catarina da Ponte
editora: Polvo
local: Lisboa
amo: 2011
impressão: Europress, Lisboa
págs.: 58 


terça-feira, 5 de abril de 2016

microleituras

O Pe. Martins Capela (1842-1925) foi uma daquelas figuras fascinantes da segunda metade de oitocentos, simultaneamente erudito e abade de aldeia, pedagogo e universitátio, homem de gabinete e místico. Embora a memória eclesial se mantenha na remota aldeia natal de Carvalheira, nas faldas do Gerês, o seu contributo para a cultura portuguesa -- que soube enriquecer com prosa de estilista, da teologia à literatura de viagens, passando pela crónica de imprensa -- reside no trabalho aturado de historiador, arqueólogo e epigrafista, cujo opus magnum é Miliários do Conventus Bracaraugustanos em Portugal (Porto, 1895), obra ainda hoje de referência no que respeita à Epigrafia Latina e ao estudo da civilização romana no nosso território. Desde criança habituado a ver a estrada da Geira, que lhe passava à porta de casa, ao levantamento das inscrições -- hoje emblemas da vila de Terras de Bouro --, dedicou o melhor do seu saber. A tradução desse livro para alemão pelo eminente Emil Hübner, é reveladora dessa valia.
Este livrinho de Ademat Ferreira dos Santos, edição singela e meritória da escola de que é patrono, é uma excelente cronologia sintética, seguida de apêndice com evocações coevas.

incipit: «1842 / Foi no dia consagrado aos Santos Apóstolos Simão e Judas (28 de Outubro) do ano da graça de 1842, que nasceu no lugar do Assento (1) da freguesia de Carvalheira (concelho de Terras de Bouro) uma criança do sexo masculino a quem puseram o nome completo de Manuel José Martins Capella -- Martins Capella, que eram os apelidos do pai (António Joaquim); Manuel José, que eram os nomes próprios do irmão predilecto da mãe (2) (Maria Custódia Rodrigues Salgado e Carneiro).

ficha:
Autor: Ademar Ferreira dos Santos
título: Martins Capela -- Notas Biobibliogtáficas
edição: Escola CS´Maerins Capela
local: Terras de Bouro
ano: 1992
impressão: Barbosa & Xavier, Braga
págs.; 30

terça-feira, 29 de março de 2016

microleituras

Conferência proferida em 15 de Dezembro de 1972 no Museu João de Deus, evocando o filho deste, João de Deus Ramos. Alocução emotiva de alguém que fora amigo de Ferreira de Castro, desaparecido 19 anos antes, e que procurou honrar o nome e a obra do pai, materializando-a através da criação dos Jardins-Escolas João de Deus, pondo em segundo ou terceiro planos a obra própria. A propósito do autor de Campo de Flores, Castro lembra o contacto precoce, através das selectas, com a poética sensível e delicada do vate algarvio e o que representava para si a poesia,  nesses tempos infantis pouco auspiciosos, à partida. Edição sem aparato técnico, fora do mercado, provavelmente de tiragem muito reduzida.

incipit - «Minhas senhoras e meus senhores: / Talvez eu não afronte muito a lógica se vos disser que a minha ternura por esta casa, por esta admirável casa onde nos reunimos hoje, principiou antes mesmo dela existir.»

ficha:
Autor: Ferreira de Castro
título: Chamou-se João de Deus Ramos, Exactamente o Nome Paterno
edição: [Museu João de Deus?; Jardim-Escola João de Deus?]
local: Lisboa
ano: 1972
impressão: omisso
págs.: 12

quarta-feira, 23 de março de 2016

Maria Archer, «A última amante» - A PRIMEIRA VÍTIMA DO DIABO #4

«Os setenta anos do meu amigo José Gomes são duma elegância aprumada de eterno rapaz.» (incipit)

1 parágrafo:
«Uma garota.. Dezasseis, dezassete anos... Eu não seria o primeiro, evidentemente, mas ela ainda ressumava o viço da flor em botão, a graça do objecto por estrear... Cheirava a novo, a fresco, a vida no começo, a vitalidade sem gasto... Eu olhava e embebedava-me dessa graça, dessa frescura, desse lustro de novo, eu olhava-a e sentia-me rapaz, eu entontecia e esquecia que havia, entre nós, meio século de vida a separar-nos... Não a largava... Esperava por ela às horas da saída, na rua, parado, parado pelos portais, pelas esquinas, ridículo, velho ridículo, a julgar que fazia a mesma vista dos rapazes que esperam a saída das raparigas...» (1954)