terça-feira, 31 de dezembro de 2013

asas

«Nas estações, nos povoados, acendiam-se as luzes. Ela olhava os focos luminosos surgirem da penumbra do anoitecer como se fossem lampadários postados para ela, só para ela, para iluminarem a sua ressurreição. Em que asas se erguia? Sentia-as na alma, «mas que tenho eu hoje?», tão viçosas e frescas que não ousava tocar-lhes.»

Maria Archer, Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938)

como num poema

«Nas vertentes cavadas em socalco crescia a vinha. Era ali a terra pobre donde nasce o bom vinho. Quanto mais pobre é a terra, mais rico é o vinho. O vinho onde, como num poema, ficam guardados o sabor das flores e da terra, o gelo do Inverno, a doçura da Primavera e o fogo dos Estios. E dizia-se que o vinho daquelas encostas, como um bom poema, nunca envelhecia.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O Jantar do Bispo», Contos Exemplares (1958)

domingo, 29 de dezembro de 2013

de Baudelaire

Fogachos. Sugestões. -- Quando um homem cai à cama, quase todos os seus amigos têm um secreto desejo de vê-lo morrer; uns para verificarem que ele tinha uma saúde inferior à deles; os outros, na esperança desinteressada de estudar uma agonia.

O Meu Coração a Nu precedido de Fogachos (1887)

sábado, 28 de dezembro de 2013

estátua: a de cima, a permanente, a sem estilo

«Vou começar pela estátua: a de cima, a permanente, a sem estilo, a que chora lágrimas de cobre, a que lega à posteridade a imagem circunspecta de um homem com um laço desajeitado, colete quadrado, calças largas como sacos, bigode em desalinho. Flaubert não corresponde ao olhar. Olha fixamente para Sul, da place des Carmes em direcção à Catedral, por sobre a cidade que desprezou, e que, por sua vez, o ignorou largamente. A cabeça está a uma altura proibitiva: só os pombos podem ver a extensão total da calvície do escritor.»

Juçian Barnes, O Papagaio de Flaubert (1984)
tradução: Ana Maria Amador

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

um sorriso de inescrutável contentamento

«O corpo foi exposto, em caixão aberto, na capela. O Rev.º Heathcote ajoelhou ao lado, a rezar. Amphillis e eu fomos trazidos para o ver. O tio estava branco como o marfim, mas não mais pálido do que fora em vida. Havia um sorriso de inescrutável contentamento no seu rosto, e parecia dormir feliz, como alguém de posse de um precioso segredo, que confiadamente aguarda um auspicioso acontecimento.»

Maurice Baring, O Trono e o Altar (1930)
tradução: Jorge de Sena

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

pretos reforçados

«Éramos quatro ou cinco, em torno da pequena mesa de ferro, no bar do parque. Alegre véspera de Natal! As mulatas iam e vinham, com requebros, sorrindo dengosamente para os soldados do Regimento de Cavalaria. No caramanchão, outras dançavam maxixe com pretos reforçados, enquanto um cabra gordo, de melenas, fazia a vitrola funcionar.»

Cyro dos Anjos, O Amanuense Belmiro (1937)

domingo, 22 de dezembro de 2013

flagelo em forma humana

«Mané Frajelo fora um apelido posto na cidade. Pegou. Um flagelo, de fato, aquele homem gordo, de setenta anos, que falava com uma voz arrastada e vestia miseravelmente. Manoel Misael de Souza Telles era o seu verdadeiro nome.»

Jorge Amado, Cacau (1933)

um bolero no rádio

«Aranhiços de barcos corriam sobre o Tejo. Um bolero no rádio enxotou-me aos pulinhos dançados para a porta: agarrei-me ao armário para não ser levado numa enxurrada de bemóis.»

António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

da empatia

«De manhã, quando acordo melancólico e mal disposto, uma simples viagem no metro apinhado é quanto me basta para me recompor. À minha volta, apenas rostos boçais que, mal se sentem observados, se fazem manhosos ou fugidios.»
Raymond Abellio, Os Olhos de Ezequiel Estão Abertos (1949)
tradução: Rafael Gomes Filipe


como se fora nada

«Saberão qualquer coisa sobre o meu fim? Um vestido perfurado por balas, manchado de sangue, um nome riscado nos registos do campo: foi assim que soubemos qual fora o destino de outras desaparecidas na noite.»

Geneviève de Gaulle Anthonioz, A Travessia da Noite (1998)
tradução: Artur Lopes Cardoso

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

à noite

Às vezes, o que se dava sempre durante a noite, quando o bosque invisível, sacudido pelo vento soltava lastimosos gemidos, um ou outro doente, tomado duma angústia mortal, começava a gritar. Acudiam-lhe, geralmente, com rapidez para que ele acalmasse; mas havia ocasiões em que o terror e a angústia eram tão fortes que tornavam ineficazes todos os sedativos -- e o enfermo continuava a gritar. Então a angústia contagiava todos os habitantes da clínica, e os doentes, semelhantes a bonecos mecânicos a que se tivesse dado corda, punham-se a percorrer, cheios de nervosismo, os seus aposentos, ao mesmo tempo que esbracejavam e proferiam coisas estúpidas, ininteligíveis. Todos, incluindo os doentes menos agitados, batiam violentamente nas portas e pediam que os libertassem.

Leonid Andreiev, Os Espectros (1904)
tradutor anónimo

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

medindo o peso com que caía

«Ele ficou a ouvir a água a escorrer e, medindo o peso com que caía, umas vezes mais forte, outras mais branda, imaginava o corpo assim reluzente -- e um grande calor lhe acudiu às partes vergonhosas. Quando Tareja voltou, enfeitada com ricos atavios, cheirando a rosmaninho, disse ela:»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982).

domingo, 15 de dezembro de 2013

príncipes e sapos

«--É no falar que se revelam os príncipes e no coaxar que os sapos se denunciam -- dissera Trony, para logo acrescentar --, pelo que ao meu amigo lhe aconselho a mais severa abstinência verbal. Não abra a boca que não seja para engolir as moscas.»
José Eduardo Agualusa, A Conjura» (1989).

sábado, 7 de dezembro de 2013

bem escrito


«[...] Em Robben Island, nos anos 70, os homens do ANC recitavam Shakespeare, e liam-no através de um exemplar das "Obras Completas" que pertencia a um dos militantes, Sonny Venkatrathnam. Venkatrathnam disfarçou a capa do livro, um capa dura, com ilustrações de divindades hindus, e disse que era um livro de textos sagrados. Com a espessura típica dos burocratas, os carcereiros nunca espreitaram para dentro das páginas. Na verdade, não se tratava de uma mentira. O livro era, para os encarcerados, um texto sagrado. [...] 
Clara Ferreira Alves, «O grande Mandela», Expresso, 7.XII.2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Literatura implacável

Arundhati Roy sabe muito bem que sem estilo nem oficina, isto é, sem arte, não há literatura; e por isso adapta a crueldade de que a vida se entranha a uma estética que não alivia nem carrega: o desconcerto do Mundo é suficiente para que nos seja relatado com realismo, com implacável realismo. O resto é mestria da escritora na ordenação do caos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado.


Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam. Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e morrem, inchadas e aturdidas pelo sol.

Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas [1997], tradução de Teresa Casal, Lisboa, Biblioteca Sábado, 2010.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

WORDS, WORDS...

Ao Guedes Teixeira

Contam que em pequenino costumava,
Ao ver-me num cristal reproduzido,
Beijar a própria boca, em que julgava
Ver a boca de alguém desconhecido

Cresci. Amei-a. E tão alheio andava,
No sonho por seus olhos promovido,
Que em vez de cartas que ela me enviava,
Eu lia o que trazia no sentido...

Rodou o tempo. Estou doente e velho...
Agora, se me acerco dum espelho...
Oh meus cabelos, noto que alvejais...

E as cartas dela, se as releio agora,
Só vejo por aquelas linhas fora
Palavras e palavras... Nada mais!

Augusto Gil, Versos  [1898], Lisboa, Ulmeiro, 1981.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

P&R -- Amos Oz

Pode a escrita ser um fardo?  Totalmente. É um trabalho duro. Se escrevo um romance com 55 mil palavras, tenho o mesmo número de decisões a tomar. Cada palavra é uma luta.
Entrevista a Luciana Leiderfarb, Expresso / Actual #2143, 23.XI.2013

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

P&R (pergunta e resposta) - Valter Hugo Mãe

No momento em que está a escrever pensa nos leitores?  Não posso pensar. Os meus leitores são muito diversos. Há gente que me diz: «Os meus autores favoritos são você e o Lobo Antunes», ou «você e o Saramago», ou «você e o Dostoiévski», ou mesmo «você e o Paulo Coelho». Houve uma senhora que me escreveu, amorosa, a dizer: «Os melhores livros que li são o seu e um da Margarida Rebelo Pinto.» Aquilo que são os leitores é absolutamente indpendente do que sou eu, não posso escrever para eles. A oficina da literatura tem de ser independente do que nos dizem e do que esperam de nós. Já fui convidado para fazer textos para programas de televisão de sketches por cauda d'O Apocalipse dos Trabalhadores. Sei que tenho essa dimensão, porque gosto de me divertir, rio-me com as coisas que podem ter piada. Mas depois d'O Apocalipse escrevi A Máquina de Fazer Espanhóis que talvez seja o meu livro mais espesso na tristeza. É importante saber regressar a um lugar de solidão. Hoje sinto-me acompanhado. Mas a escrita é um processo demasiado interior, intuitivo, para que permitamos que os outros participem de forma decisiva.
Entrevista a Ana Sousa Dias, Ler #128, Outubro 2013.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

um parágrafo de Raul Brandão - HÚMUS #2

Vi não sei onde, num jardim abandonado -- Inverno e folhas secas -- entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos...

Húmus (1917)

o que salva Abel Botelho? - AMANHÃ #8

Abel Botelho por António Ramalho
Deixo o Serafim e o Esticado, oManaio e o Silvério por essas ruas desertas pela noite, armazéns, fábricas, bairros. O encontro com Lourenço, o homem iluminado, o sindicalista, o revolucionário, que irão ouvir, fica para o segundo capítulo.
Para já, pergunto-me: o que salva Abel Botelho? Executor observante do programa naturalista, o que livra Amanhã de ser um relatório minucioso, com pormenores e alusões mais ou menos escabrosos, ou mera "reportagem" de suposta objectividade? O que faz do livro um testemunho, por certo datado, de arte literária?  Sem dúvida, a linguagem, o vocabulário rico e criterioso, as imagens, por vezes opulentas, mas sempre certeiras em face do panorama de destituição social que Botelho pretendeu transmitir

...não é para jovens - AMANHÃ, de Abel Botelho #7

Serafim e o Esticado vão recolhendo os companheiros para a reunião nocturna. Miséria material, miséria moral: não apenas a rapariga aindanúbil, esgalgada, anémica,o cabelo raro e sem brilho, em casa do Manaio, gasta e avelhentada; ou as três mulheres do Silvério, todas com ar de família, que se disputam indecorosamente pelas sobras que este lhes dará para sustento dos seus filhos, seis criancitas, todas quase da mesma idade, que refocilavam nuas, no abandono e na fome; -- mas Ventura, que, ao encontro, prefere ir ao assalto a uma menina dos fósforos:
«[...] hoje tenho lá coisa... daqui! -- Premia lascarinamente o lóbulo da orelha, e explicava, a seguir: -- Uma petizita dos Fósforos... em primeira mão, dizem... Anda a meter-se-me à cara, mesmo perdidinha por mim! / Não te dói a consciência, meu traste? / --Então! Se há-de ser outro... / -- O diabo te dê o que te falta! -- resmoneou o Manaio, enfadado. / -- Ah, por enquanto, não falta, não... graças a Deus!»

Abel Botelho, Amanhã (1901) #7
Porto, Lello & Irmão, 1982, pp. 26-32.

geografias da pobreza: AMANHÃ, de Abel Botelho #6

Os topónimos dos bairros populares e operários, a Lisboa Oriental, cujo eco proletário chegou ainda até nós e persiste como património remanescente duma realidade moderna, as vilas(e também ilhas, que eu, por ignorância, julgava serem exclusivas do Porto, para onde decaíram a "Menina Olímpia e a sua criada Belarmina", de Régio; ou, em continuidade de pobreza, viveu essa brava Leonor de Servidão, o grande romance de Assis Esperança...); agora bairros e guetos sociais, classe média-alta ou festivais de música: Bela Vista, morada de Serafim-Clara e Esticado-Ana, o vale de Chelas, Rua de Marvila, Xabregas, Braço de Prata...
foto: http://musgueirasul.wordpress.com/2013/03/27/origem-da-habitacao-social-1900-ate-1960/

Como a abjecção da pobreza, a miséria,  nessa ilha do Grilo: "Ao longo de toda a 'ilha' alastrava a mesma grossa e vaga escuridão do campo. Apenas, a intervalos irregulares, algumas raras janelas, como vazias órbitas de espectros, radiavam lívidos luaceiros na absorvente espessidão da sombra. O piso, talhado no terreno natural, era um misto traiçoeiro e imundo de restos de comida, objectos de toda a sorte, cacos, barro, cisco, cascalho e lama. Na grande vala longitudinal fermentavam acidamente as podridões. Havia um cheiro acre e nauseabundo, cumulativamente a hospício, a curral e a cemitério. E dessa sórdida promiscuidade animal, dessa fruste aglomeração de miseráveis, subia para a frialdade inerte do ar, dançando nas infectas emanações de caneiro insalubres harmonias, um como surdo verrumar de febre, um atormentado e bárbaro concerto, feito ao mesmo tempo de pragas, risos, lamentações, balidos de cabras, mugidos de vacas, grunhidos de porcos, latidos de cães e choros de crianças."

consciência de si: AMANHÃ, de Abel Botelho #5

A intervenção benfazeja de Ana, que põe termo à desavença do tanoeiro (ficamos a saber o mester) e a mulher, cedendo-lhe do seu vinho, coincide com o desencadear duma borrasca e a entrada do Esticado, o homem de Ana. O contraste entre ambos os casais é total: ao desrespeito, a delicadeza; à brutalidade alcoólatra, cuidado viril, mas atencioso; à sujidade, o asseio ["Acusava bem o soalho, na sua cor açafroada e macia, o uso constante da potassa."], duas filhas para criar, uma ainda de peito. 
Mas o Esticado  tem outra coisa dentro de si: o sentimento de injustiça da sua condição social e da sua pobreza: nem trocar a roupa encharcada lhe é permitido, o casaco de ver a Deus no prego; e nem as paredes da casa impedem que o vento entre agreste pelas frinchas, "Raio de casa!" E até nos filhos, os ricos têm sorte ("Quantos [...] a nadarem em dinheiro e sem filho nenhum!" -- ou azar, eles, a ralé:  "Cada cavadela, cada minhoca!" E isso que oEsticado tem dentro de si, vai partilhá-lo, na companhia de Serafim, fora de casa: nessa noite haverá encontro de trabalhadores.
Abel Botelho, Amanhã (1901) #5
Porto, Lello & Irmão, 1982, pp.13-20.

ainda a nutritiva dieta do operário lisbonense, seguindo-se inevitável episódio de violência doméstica: AMANHÃ #4

Após a aguadilha, está o leitor guardado para um pitéu, que aguardava sobre um número de O Século, com vívida caracterização: "meia dúzia de carapaus fritos. Espalmados, moles, tinham um aspecto repugnante, escabiosos de purulências brancas, nadando numa suja e crassa oleosidade, que repassava o papel em aréolas negras."
Faltava, porém, o flagelo das classes laboriosas, o vinho, que desgraçava indivíduos e famílias, a tal ponto que as publicações destinadas aos trabalhadores -- tantas vezes lidas em grupo, pois a maioria era analfabeta -- empreendiam uma profilaxia de conselhos úteis, visando afastar os homens das tabernas. (A Taberna de Zola...) O Serafim de Amanhã, pede vinho à mulher, que primeiro se faz desentendida, gracejando; informando, depois, que não há, quando percebe que seria escusado o esconde-esconde, até que, brutal, o homem a agarra pelos pulsos, insiste e esbofeteia-a. Clara, que queria protegê-lo, e proteger-se, do alcoolismo -- "Deixaste esse vício tomar-te posse do corpo" --, reage com doestos e lamentos. 
Alertada pelo chinfrim, irrompe outra mulher, magra e adoentada, porém afável, conciliadora, "uma bondade escampe água-tintada na garça translucidez dos olhos." Chama-se Ana.

Abel Botelho, Amanhã (1901) #4
Porto, Lello & Irmão, 1982, pp. 11-13

não são sãos: AMANHÃ, de Abel Botelho #3

...e os operários também não são sãos. Serafim, fisicamente comprido e corrompido, derreado e esverdeado: "o longo dorso alcachinado, onde, escorchadas com anatómico rigor, as omoplatas cavavam esqueléticas sombras"; Clara resistindo à decadência física, ("os seus olhos lutando ainda contra a consumpção, cujo triunfante estrago se anunciava já"), mas irremediavelmente condenada.
Repasto frugal, evoco Picasso, mas é em Van Gogh e n'Os Comedores de Batatas que penso, ao percorrer as linhas desta traparia humana, deparando-me com as palavras soturnas na pouca luz da cena, que um frio húmido a anunciar chuva ainda mais deprime: "A luz titubeante da candeia estirava num realce cruel todos estes sinais patentes de ruína".

Amanhã, de Abel Botelho (1901) #3
Porto, Lello & Irmão, 1982, p. 11.

sopa de pobres: AMANHÃ, de Abel Botelho #2

Temos um homem que chega a casa, a reclamar pela ceia. Chama-se Serafim, "figura esgalgada e curva". Responde-lhe uma "mulherita atarracada e bruna", com rispidez, como se estivesse farta de esperar. Serafim ordena-lhe que o sirva e estira-se sobre um mocho, "projectando o chapéu com arremesso." É um operário, e deve estar cansado dum dia de trabalho. Lesta, candeia pela mão, ela põe-lhe o tacho "sobre a gorduragem gretada das tábuas ressequidas" da mesa.
O quadro é neutralmente popular, ou quase, embora já com indícios de pobreza e desmazelo, até à pergunta da mulher, Clara, saberemos a seguir: "Estás com gana hoje?"; pretexto para olhares enviesados  e malévolos, semblantes patibulares, até à implicação animalesca, que termina com o domínio imperioso do macho, "Senta-te!", desferindo ameaças de lhe chegar a roupa ao pêlo, mais pelo hábito da ameaça que por real vontade de a agredir. Esta, por sua vez, não deixa também de largar a sua imprecação, entre o medo e o desafio que, contudo, não impedirá mais gestos e palavras que possam retomar este ordinário ritual amoroso
São assim, os rituais do amor entre o povo, brutais como o povo é -- modos e comportamento de que a pequena, média e grande burguesias alfacinhas estão arredadas -- como, de resto "o Autor" prevenira em carta-antelóqiuo do romance, dirigida " À Ex.ma Senhora D.M.D. e S.C.C." São assim, vírgula, porque o povo não se faz só destes serafins e destas claras que o narrador nos apresenta.
Para já, deixêmo-los -- depois do pão e das azeitonas -- a cear, com cinco linhas de Botelho (na minha edição), para descrever essa "negra e triste aguadilha, mosqueada de olhitos de azeite, condensando na frialdade do ambiente um vapor nauseabundo, e de cuja dessorada fluidez a quando e quando emergia a ironia cortical dum feijão, ou a coriácea insipidez dalguma couve saloia."

Amanhã, de Abel Botelho (1901) #2
edição Justino Mendes de Almeida, Porto, Lelo & Irmão, 1982, pp. 7-8.

um parágrafo de Agustina Bessa Luís: A SIBILA #2

«Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como conteúdo de todo um passado, elemento onde reviviam as cavalgadas das gerações, onde a contradança das afinidades vibrava uma vez mais, aptidões, gostos, formas que, como um recado, se transmitem, se perdem, se desencontram, surgem de novo, idênticos à versão de outrora.»

sinestesia minhota: A TORRE DA BARBELA #4

E depois há o estilo, preciso, límpido e contido do paisagista Ruben A., como neste parágrafo magistral, em que o narrador se posta ao cimo da torre triangular, pondo-nos diante dos olhos um horizonte minhoto, e cuja sinestesia passámos a compartilhar com os turistas domésticos:

«Respirava-se um ar vivaz que nos poros mais fechados entrava, descarado, à procura de infiltrações para uma dilatação alegre. Defronte, a serra de Arga desdobrava-se em matizes que deixavam ver lugarejos a deitar fumos pelas frinchas de telhados com remendos, e raro em raro, navegava um barquito de viagem a Ponte de Lima e aos Arcos, ajoujado de pipas, sacos de batatas, caixotes de sabão em barra e vassouras empalhadas.» (p. 11)

Um estilo que, neste particular, me lembra muito o de Ferreira de Castro.

edição: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988

entre digestões e Salazar: A TORRE DA BARBEL #3

Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988

uma epígrafe de Sá de Miranda n'A TORRE DE BARBELA, de Ruben A.

«Logo os meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus não val aqui, / perigoso imigo corre!» -- n'A Torre da Barbela, de Ruben A. (1964)

terça-feira, 5 de novembro de 2013

um parágrafo de Júlio Dantas


Subitamente, na calada da noite, o sino do Mosteiro de Santa Cruz tangeu a capítulo. Um vozeiro de povo e um tropear de bestas alarmou o velho burgo. O rei levantou-se, de repelão, bateu no tijolo as balugas de ferro, debruçou-se do janelão enorme que um mainel de pedra geminava, e olhou. Lá baixo, na congosta, galgando em direitura, ao mosteiro, palpitava um clarão de cerofalas acesas, ferrolhavam no lajedo canelos de azêmolas, um bezoar confuso de vozes subia até à alcáçova.


Pátria Portuguesa (1914) / 14 Novelas Históricas Portuguesas -- De D. Afonso Henriques à Batalha de Aljubarrota, Lisboa, Estúdios Cor, 1965

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

outro parágrafo de LUUANDA

Garrido Kam'tuta veio na esquadra porque roubou um papagaio. É verdade mesmo. Mas saber ainda o princípio, o meio, o fim dessa verdade, como é então? Num papagaio nada que se come; um papagaio fala um dono, não pode se vender; um papagaio come muita jinguba e muito milho, um pobre coitado capianguista não gasta o dinheiro que arranja com bicho assim, não dá lucro. Porquê então roubar ainda um pássaro desses?

José Luandino Vieira, «Estória do ladrão e do papagaio», Luuanda [1963], Lisboa, Círculo de Leitores, 1983.


uma epígrafe de Manoel de Barros

«Há histórias que são tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.»

(escolhida por José Eduardo Agualusa para o livro
Fronteiras Perdidas, 1999)




domingo, 27 de outubro de 2013

um parágrafo d'A FADA ORIANA

Cá fora já anoitecia. A fada pôs-se a caminho da torre do Poeta. A torre ficava longe e o caminho era selvagem, cheio de picos e de pedras. Oriana caminhava cortando a cada instante os seus pés. Não se ouvia cantar nenhum pássaro, não se via correr nenhum coelho, não se via aparecer nenhum veado com o seu ar majestoso e os olhos húmidos de doçura. Em toda a floresta pairava o silêncio, o abandono, a solidão. Quando Oriana chegou à torre, era já noite fechada. E ela levava os pés em sangue e o coração pesado.

Sophia de Mello Breyner Andresen, A Fada Oriana [1958], Porto, Livraria Figueirinhas, s.d. ; ilustrações: Natividade Corrêa.

sábado, 26 de outubro de 2013

VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...



Florbela Espanca, Charneca em Flor / Antologia Poética, org. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa, Publicações Dom Quixote.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

um parágrafo de LUUANDA

...Dona Cecília de Bastos Ferreira, sentada na cadeira de bordão, na porta da casa, vê passar o vento fresco das cinco horas, mas as moscas não lhe largam. É Dezembro, calor muito; seu homem, Bastos Ferreira, mulato de antiga família de condenados, saiu já dois quinze dias para negociar no mato perto, acompanhando grande fila de monamgambas, fazendo o caminho a pé com os empregados dele, tipóia não gostava, dizia que homem não anda nas costas de outro.

José Luandino Vieira, «Vavó Xixi e seu neto Zeca Santos», Luuanda [1963], Lisboa, Círculo de Leitores, 1983.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"Sofri demais para poder mentir."

As Memórias da Grande Guerra (1919), de Jaime Cortesão -- obra-prima absoluta pela densidade poética que empresta ao testemunho vivido e sofrido, e pelo altíssimo valor literário. Oficial-médico voluntário na Flandres, tomou parte na sangrenta Batalha do Lys (na qual viria, aliás, a perder os apontamentos para estas memórias, reconstituídas com recurso a cartas e às reminiscência desta experiência-limite). Relato impressionante e inesquecível, apesar de alegremente desconhecido da maior parte dos leitores portugueses, o centenário que se avizinha é um bom pretexto para a reedição; embora não devêssemos necessitar de efemérides para ler, fruir e cultivar o que de melhor a nossa literatura tem.
«Direi apenas o que vi e ouvi. Sofri demais para poder mentir.»

quinta-feira, 25 de julho de 2013

ficheiro: ANTOLOGIA PORTUGUESA E BRASILEIRA

título: Antologia Portuguesa e Brasileira
antologiador: Evaristo Pontes dos Santos
autores: Gonçalves Dias, Tomás Ribeiro; Afonso Celso, Alberto de Oliveira, Antônio Carlos, Artur Azevedo, Augusto de Lima, Bernardino Lopes, Carmen Cinira, Castro Alves, Catulo da Paixão Cearense, Cruz e Sousa, Da Costa e Silva, Gonçalves Crespo, Gregório de Matos, Hermes Fontes, Iracema Nunes de Andrade, Jorge de Lima, Laurindo Rabelo, Lisette Villar de Lucena Tacla, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Manuel Botelho de Oliveira, Olavo Bilac, Olegário Mariano, D. Pedro II, Raimundo Corrêa, Raul de Leoni, Rita de Lara, Rui Barbosa; Afonso Lopes Vieira, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Antero de Quental, António Correia de Oliveira, António Nobre, António Sardinha, Padre António Vieira, Augusto Gil, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Luís de Camões, Cândido Guerreiro, Fernanda de Castro, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, D. Francisco Manuel de Melo, Guerra Junqueiro, João de Deus, José da Silva Dinis, José Duro, Júlio Dantas, Ramiro Guedes de Campos, Anónimo.   
género: Poesia
categorias: Literatura brasileira; Literatura portuguesa
local: Porto
edição: do antologiador
ano: 1974
impressão: Escola Tipográfica da Oficina de S. José, Porto
pags.: 236
capa: autor não identificado

domingo, 21 de julho de 2013

do sentimento trágico da vida

Manuel da Fonseca é, sempre foi, o meu escritor de eleição da geração neo-realista de 40. Os romances, os contos, os poemas surgiram como se não fossem trabalho literário de um iniciante (como, ao tempo, notou João Pedro de Andrade). As suas personagens, os seus ambientes têm os contornos épicos e trágicos que lhes dá não apenas a desgraça da extrema pobreza alentejana, mas também um porte digno de muitos desses desvalidos, que lhes alimenta a propensão para a revolta. Revolta contra o que é mais forte do que eles, revolta, por vezes, nem sabem bem contra quê:
«Seca e breve como uma chicotada, a praga rompe dos lábios azedos da velha: /-- Raios partam este vento!/ Por instantes, as duas mulheres entreolham-se. A velha de punho no ar, a boca ainda aberta pelo grito. [...]» Seara de Vento (1958).

quinta-feira, 11 de julho de 2013

12x25

capa: Roberto Nobre
um automóvel em que o ferido foi transportado, com o máximo cuidado, para o hospital.
     Chegou ali ainda com vida. Verificou-se então que era o Luís de Campos, muito conhecido em tôda a cidade, o qual recebera uma punhalada ou facada, vibrada pelas costas, um pouco abaixo da omoplata do lado direito.
     As autoridades da investigação policial acudiram ràpidamente e puderam ainda ouvir da sua bôca, em palavras já entrecortadas pelos soluços da morte, que, ao passar naquela rua, por onde às vezes seguia em direção a sua casa, na rua de S. Caetano, se sentira

Lourenço Cayolla, Esfinge, Porto, brinde de Civilização #12, s.d., p. 25, ls. 1-12.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

12x25

Abel Manta
[pom]binha bateu as asas. Pois tu não a sentes desarvorada? Vê se lhe espreitas para a alma, a arca cispada que te faz dar o cavaco, e hás-de acabar por encontrá-la cheiinha com o padre. Que asno! Para ti tem ela modos, mas para ela guarda os pensamentos, que são sempre o melhor da festa. A ti faz-te promessas; a ele irão as ternuras. Que esperas?! Não vês que o padre é um figurão, que lhe promete vilas e castelos e tu um labrego, dá-mo pobre, dar-to-ei aborrecido?! Não lhe enxergas as mãos mimosas e fidalgas de todo em comparação com as tuas, cobertas de surro? Entre um e outro, bem tola seria Brízida

Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas [1922], Livraria Bertrand, 1983, p. 25, ls. 1-12.

terça-feira, 18 de junho de 2013

12x25

todos. Estava certo de que, no momento em que o Major Soares lhe pedira misericórdia com o nome da mãe na boca, conseguira por este modo abrandar a fúria do cangaceiro. E era sabido de todo o mundo que todos que procuravam Aparício com a invocação de sua mãe, tinham tudo. O povo dizia mesmo que o rei do sertão só era fraco para as ordens da velha, que ele adorava. Podiam pedir pelo nome de Deus, e ele não dava ouvidos. Aos gritos, porém, dos que se valiam da sua mãe, dava tudo o que podia. Bentinho, no entanto, começou a intrigar-se com aquele ódio de Sinhá Josefina pelo filho mais velho. Sempre fora assim, mesmo quando estavam no Araticum e que Aparício era rapaz novo. Agora a coisa devia ser diferente, pois a força dos

José Lins do Rego, Cangaceiros [1953], Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 25, ls. 1-12.

terça-feira, 11 de junho de 2013

o lugar do estranhamento

Ler Para Sempre (1983), de Vergílio Ferreira é tanto mais compensador quanto melhor pudermos saborear a mestria com que o autor domina a arte de escrever. São precisos muitos anos de escrita, de reescrita (e de vida, também) para que a mão surja tão miraculosamente adestrada, o tempo da narrativa tão sabiamente contido, a reflexão interior tão percucientemente formulada. Os temas recorrentes do fim e da infância são-nos dados nos capítulos iniciais, em que -- a par de  uma primeira referência a Sandra, que percebemos ser alguém determinante e de aparições fantasmáticas de velhas tias -- o protagonista que regressa à «casa», ao lugar do crescimento e de estranhamento inicial; ao tempo e ao espaço em que foi Paulinho, mas não feliz.

cabaz da Feira, em tempo de crise

Decidi este ano que não compraria livros acima de três euros. Se há crise, então Feira do Livro tem de ser sinónimo de pechinchas. Sem referir os dos crianços:

Anna Seghers, O Passeio das Raparigas Mortas (Vega)
António Botto, Os Olhos do Amor e Outros Contos (Minerva)
Arquimedes da Silva Santos, Cantos Cativos (Livros Horizonte)
Gabrielle Giuca, Barco Negro (Egeac / Museu do Fado)
Joaquim Lagoeiro, Viúvas de Vivos (Minerva)
Joel Serrão, Fernando Pessoa, Cidadão do Imaginário (Livros Horizonte)
Pedro Tamen, Os Quarenta e Dois Sonetos (Livros Horizonte)
Reinaldo Ferreira (Repórter X), Memórias de um Chauffeur de Taxi (Livros do Brasil)
Reinaldo Ferreira (filho), Poemas (Vega)
Sidónio Muralha, 26 Sonetos (Livros Horizonte)

sábado, 8 de junho de 2013

uma carta de Alberto d'Oliveira


imagem daqui
Ex.mos Srs.

Com muito prazer me associo à justa homenagem, que VV. tomaram a iniciativa de promover, à memória do nosso ilustre confrade Delfim Guimarães.
A-pesar-de sermos conterrâneos, só tive ocasião de o conhecer pessoalmente há poucos meses; e realizou-se êsse encontro em circunstâncias que não esqueci e que bem assinalam os raros dotes de coração e de carácter que, não menos que os da inteligência, caracterizavam a figura de Delfim Guimarães. Por isso as vou narrar aqui ràpidamente.
Em Outubro do ano passado foram convidados alguns amigos e admiradores de António Feijó a reünir-se no gabinete do Dr. Júlio Dantas, na Biblioteca Nacional, para deliberarem sôbre a realização do monumento que se projectava erigir ao insigne poeta minhoto na sua tão amada vila natal de Ponte do Lima. Estava eu então em Lisboa e, correspondendo ao apelo que me foi dirigido, compareci à reünião. Quasí ao mesmo tempo que eu chegava também, pelo braço do nosso comum amigo Dr. Araujo Lima, um homem de fisionomia atraente, mas parecendo muito doente e exausto de fôrças, que logo depois soube ser Delfim Guimarães. Vinha arquejante de ter subido a longa escadaria do velho convento fransciscano e mal podia falar quando entabolámos conversa.
Referiu-se ao seu estado de saüde com a tristeza de quem lhe conhecia a gravidade: e com efeito, de vê-lo e ouvi-lo. fiquei comovidamente certo de que êle já não tinha senão um fio de vida. Meses depois êsse fio partia-se sem nenhuma surpreza minha.
Mas o que aumentou nesse momento a minha comoção foi ver Delfim Guimarães, que me parecia agonizante, tomar parte tão efectiva e dedicada naquela reünião dos amigos de um poeta morto e valorizar essa adesão não só com a sua presença num lugar de acesso tão penoso e até perigoso para a sua saüde, como pelo oferecimento, que se apressou a fazer com calor, dos seus serviços e préstimos, para que o projecto em discussão não tardasse a converter-se em realidade.
Êsse homem tão vizinho da morte, e sabendo-o, que se esquecia completamente de si para se votar tão afanosa e desinteressadamente ao culto de outro poeta, que já só existia na memória dos que o amaram e admiravam, não era certamente do número daqueles para quem se fez o moto: «Les morts vont vite». Mas, e ainda melhor, também não era daquelas numerosas almas a quem o egoísmo, se as não dominou sempre, acaba por vencer, de tal modo o instinto de conservação é preponderante e quasi legítimo no homem. Aquele poeta sofria de grave doença do coração: mas o seu coração, quasi sem corda, estava moralmente intacto e vigoroso e continuava a bater com a mesma pontualidade e carinho pelos seus amigos vivos ou mortos.
VV. acharão talvez, como eu, que êste singelo facto que lhes ofereço retrata com justeza as feições morais de Delfim Guimarães. Se assim é, queiram incluí-lo no seu In Memoriam e aceitem os mais atenciosos cumprimentos do

                                                De VV. confrade muito de dicado e obrigado

                                                                     Alberto d'Oliveira
Bruxelas, 22 de Agosto de 1933.

In Memoriam de Delfim Guimarães -- 1872-1933, organizado por Galino Marques, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1934.

terça-feira, 28 de maio de 2013

cárceres (demasiado) visíveis

Francisco Costa, que se situava ideologicamente numa direita católica e conservadora -- ou mesmo reaccionária --, foi um escritor silenciado no pós-25 de Abril, e hoje é um nome esquecido. É verdade que o seu militantismo religioso é um pouco indigesto para quem como eu considera a religião uma fraqueza e, na sua forma organizada e institucional, um abuso que impende sobre os homens livres e um jugo primitivo sobre todos os outros (independentemente de considerar que o exercício da fé é um direito que assiste a todo o indivíduo, devendo essa liberdade ser respeitada desde que não colida com a liberdade dos ateus, dos agnósticos e até, obviamente, dos que não partilham a crença dominante nas respectivas sociedades). 
Mas, apesar do seu proselitismo, Francisco Costa é um romancista de mão cheia -- tal como foi um interessante poeta e ensaísta e um operoso historiador da sua Sintra natal. Jorge de Sena, que não facilitava, classifica-o como «notável romancista católico», embora Costa preferisse considerar-se um católico que escrevia romances, pormenor importante.
Este Cárcere Invisível (1949), Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, testemunha a grande técnica romanesca do seu autor, muito bebida, de resto e ao contrário da tradição, na literatura anglo-saxónica, da qual era confesso admirador. Para já, ambiente muito pequeno-burguês lisboeta, protagonista (Eduardo Bandeira Bastos, 17 anos, estudante de Medicina), um pouco obcecado pelo valor individual servido por uma inteligência acima da média que contrapõe aos bem-nascidos das suas relações na academia: «nobreza natural: a verdadeira, a única!» Pai, «principal» empregado numa loja do comércio, baço como o são as materialidades; mãe doméstica e autoritária; irmã, Lu (de Lucinda), por enquanto a parvinha romântica e deslumbrada do costume (lê folhetins, na cabeceira Coração Torturado); Dudu, o protagonista, lê Gorki, que pousa no banco do jardim público «com desafio»...
Na dedicatória, Francisco Costa refere-se a «este drama duma vida sem Cristo», e o cárcere, como se irá depreender, é o materialismo, em especial marxista, então na mó de cima (e, felizmente, ainda não recuperado no seu pensamento totalitário do caixote do lixo para onde os povos que lhe sofreram o jugo o atiraram).  Numa nótula prévia, Costa deixa entrever o fascínio que sobre si exerceu a sua criatura, "esse médico invulgar que se fechou por suas mãos". Esta contenda entre criador e criatura, entre outros méritos do romance, aguça o interesse pela leitura -- até para saber quem levará a melhor e, principalmente, comolevará a melhor... 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa.
Ferreira de Castro irá, assim, contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil... Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selvaque o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.

terça-feira, 21 de maio de 2013

ternura e lágrimas


Dizer que o Húmus (1917) é um livro único e ser único Raul Brandão na nossa literatura é uma banalidade que, por sê-lo, não deixa de ser verdadeira. Todos os livros que li dele são enormes, à imagem da grande estatura e da densidade do seu autor.
«A vila», o microcosmos que é o mundo, a vida que se nos escapa por entre as mãos, enquanto vivemos ninharias, enquanto alguns de nós a vêem fugir como numa peneira e a maioria, tendo essa percepção instintiva e animal, nem pensa nisso, entregando a insignificância da sua passagem pela existência à ganância, à convenção, à emulação até à cova de um cemitério.
A vida é demasiado grande e nós incompatíveis com essa grandeza. «Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» E onde estão as Teles e as Sousas, que se odeiam, as Fonsecas e as Albergarias, Donas Engrácia e Biblioteca, Restituta e Procópia, o Elias de Melo e o Melias de Melo, podemos substituir os seus nomes pelos da maior parte de nós. «O nada a espera e a D. Procópia a abrir a boca com sono, como se não tivesse diante de si a eternidade para dormir». E ainda os outros, paisagem como o Gabiru ou adereços como a criada Joana, vivendo a vida dos outros, como se para outra coisa não tivesse vindo ao mundo: «Sempre a comparei à macieira do quintal: é inocente e útil e não ocupa lugar, e não vem Inverno que não dê ternura, nem Inverno sem produzir maçãs.»
O Raul Brandão é isto: ternura e lágrimas.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

o nosso Zola


Escrito em 1895-96, mas só publicado em 1901, eis o naturalismo literário português em toda a sua miséria depatologia social... Botelho é o nosso Zola, sem o talento deste -- mas é o nosso... E, como tal, é preciso lê-lo, tentar resistir ao ínfimo detalhe destes cirurgiões de aleijões sociais e atentar no que tem de bom (porque também o tem). E Abel Botelho, apesar do intrincado da prosa, não deixa de ter vigor, por vezes impiedosamente cru.
Amanhã trata do operariado lisboeta finissecular, do lumpen-proletariado de maus fígados, mau vinho e deficiente nutrição, à beira da miséria -- embora ainda não os mais pobres dos pobres.
Para já, primeiras páginas, apresenta-se-nos Serafim, chegado a casa ao fim duma jornada de trabalho, e Clara, sua mulher ("dois enjeitados da sorte"), a quem é exigido o jantar e o vinho. Surge em seguida Ana, a vizinha, mãe duma rapariguinha "de mal agouradas heptizações na face" (o vocabulário médico-cirúrgico é imprescindível...), cujo pai é o Esticado... Escusado será dizer que a sopa é "uma negra e triste aguadilha" e os purulentos carapaus fritos nadam "numa repugnante e crassa oleosidade". A casa é suja, o mobiliário tosco e, no estuque do tecto "negrejava, por milhares, um constelado planisfério de dejecções de moscas." Inevitável.
Digamos que não é uma leitura leve, mas é imprescindível

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A DENÚNCIA

Estes que aqui vêem
são os delatores. Por três vinténs
vendem seu vizinho.
Que são conhecidos
bem no sabem; mas a gente
lembrar-se-á sempre?
A noite dormem-na mal --
-- muitos dias há
antes do dia final.


Breslau, 1933. Casa pequeno-burguesa. Um homem e uma mulher escutam, de pé, junto à porta. Estão muito pálidos.

A MULHER -- Chegaram lá abaixo. 
O HOMEM -- Ainda não.
A MULHER -- Deram cabo do corrimão. E quando o arrastaram para fora do quarto já vinha inconsciente.
O HOMEM -- Mas eu só disse que a rádio que se ouvia com postos estrangeiros não era a nossa.
A MULHER -- Não foi só isso.
O HOMEM -- Não disse mais nada.
A MULHER -- Não te ponhas a olhar para mim dessa maneira. Se foi só isso que disseste, pronto, foi só isso.
O HOMEM -- É o que eu estou a dizer.
A MULHER -- E porque é que não vais à polícia declarar que eles não tiveram ninguém em casa no sábado?

Pausa

O HOMEM -- À polícia não vou. Aquilo são umas bestas. Não vista a maneira como se atiraram a ele?
A MULHER -- Cada um arranja a cama onde se deita. Para que se meteu ele na política?
O HOMEM -- Mas não precisavam de lhe rasgar o casaco. Um casaco grosso como aquele não temos nós, não.
A MULHER -- O casaco não vem para o caso.
O HOMEM -- Mas não precisavam de lho ter rasgado.

Bertolt Brecht, O Terror e a Miséria no Terceiro Reich, trad. Fiama Hasse Pais Brandão, Lisboa, Portugália Editora, s.d.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

do "espírito de parecer vulgar"


Logo nas primeiras três ou quatro páginas de A Sibila (1954),  temos um universo já delimitado, com várias camadas epocais. Um daqueles milagres de talento, surgido da pena duma jovem escritora, com pouco mais de trinta anos.
Uma das coisas que me agrada em Agustina Bessa Luís é a enorme consistência enquanto autora enraizada na sua matriz histórica e cultural, mas, ao mesmo tempo, plena de mundo e de sofisticação, muito ao contrário do aldeanismo de vários romancistas seus contemporâneos.
Os retratos impressivos das mulheres, interessantes, dramáticas, misteriosas, sensuais: Germa: «Ela tinha o espírito de parecer vulgar. Um dos seus prazeres consistia em analisar-se como o conteúdo de todo um passado [...]» -- como se o narrador falasse da própria Agustina; Quina, o centro de outro tempo, já morta, que será o eixo do romance; Maria da Encarnação, mãe desta, com núpcias pouco ortodoxas com Francisco Teixeira, um "galaró"; Isidra, uma mulher cativante e pouco convencional, amante do dito Teixeira. Muito menos interessantes os homens, do cheio-de-si Teixeira a Bernardo Sanches, burguês aristocratizado por gerações argentárias, suficientemente educado para não deslustrar o ter e o ser, mas demasiadamente plano para Germa(na) -- a tal que tinha «o espírito de parecer vulgar»...
Não é para todos.

domingo, 28 de abril de 2013

um país de mortos-vivos

Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.

sábado, 27 de abril de 2013

ÚLTIMAS PÁGINAS, de Eça de Queirós

Nas «Lendas de Santos» de Eça de Queirós (Últimas Páginas, 1912, edição póstuma organizada por Luís de Magalhães), biografias ficcionadas de santos. «São Cristóvão», aliás o único que o escritor concluiu, é um dos textos queirosianos que prefiro. Numa imprecisa Idade Média francesa, Cristóvão é um ser disforme (um gigante) e simples, cheio de amor para dar; amor forjado no conhecimento da incrível história do Menino-Deus, que por amor virá a morrer na cruz ("Cristóvão", o que tem Cristo em si...). De tal forma Cristóvão é possuído por esse amor ao semelhante, que nunca é abalado pelas inúmeras rasteiras e traições que lhe são infligidas pelos seus irmãos em humanidade; o mesmo amor e coração puro que, não suportando a miséria o leva a chefiar  jacqueries... Eça mantinha bem viva a leitura do seu Proudhon. Da narrativa desprende-se  um ambiente benfazejo e etéreo, no meio de guerra e de opressão do forte em relação ao fraco (a mesma atmosfera que se evola do magnífico «O Suave Milagre», trazendo-me à memória, por essa mesma atmosfera miraculosa do indizível «O Gigante Egoísta», do Oscar Wilde). 
Em Eça sempre adorei a sua paixão pela História e a forma simultaneamente séria e lúdica com que lhe pegava. «Santo Onofre» é um dos padres do deserto, indivíduos que fugiam do mundo para encontrar Deus através da oração e da renúncia, sujeitando-se a todas as solicitações do Demónio, que mais não eram do que alucinações provocadas pela carência física e psicológica de tudo... Talvez o menos conseguido.
«S. Frei Gil», cujo plano da obra chegou até nós, poderia ser uma das grandes narrativas queirosianas, provavelmente abandonada (e isto é um palpite; precisaria de verificar cronologias) pelo felizmente concluído A Cidade e as Serras. Várias vezes me veio à memória a dispersão e a inconsistência do Jacinto de A Cidade e as Serras, ou mesmo de Gonçalo Mendes Ramires. Em todo o caso, ficamos com pena do corte abrupto da narrativa quando o volúvel Gil a caminho de Paris, na companhia do escudeiro Pêro, para estudar Medicina, é desviado do intento por um misterioso cavaleiro...
O segundo bloco desta Últimas Páginas, consiste num conjunto de «Artigos Diversos», textos todos de primeira água, em que avulta o também incompleto «O "Francesismo"», um magnífico ensaio de irónica autobiografia cultural.
Eça é sempre Eça. Imortal.