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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

o percurso de Tomé


Órfão sem apelido, nascido no sertão angolano e órfão de mãe aos dois anos; acolhido como um bonequinho pela filha de um comerciante; fiel de armazém quando deixou de ter a graça do pretinho, revolta-se contra a exploração e os maus tratos; saltimbanco; emigrante nessa América racista que lhe dá a conhecer os ritmos do jazz; a bailarino no Roma Clube, descoberto pelo Veiga jornalista; amante de Odette.. 

O tema do racismo, provavelmente novidade entre nós, acaba por ser desperdiçado pelo estilo ligeiro de Mário Domingues. É pena.

(um parágrafo, cap. V)

«Estonteado pelo infernal ruído e pela luz mórbida que pairava no ambiente, o seu cérebro não raciocinava, mal tinha tempo de registar mil e uma impressões díspares, que lhe doíam como mil e uma picadas impiedosas. As notas graves, prolongadas, do saxofone despertavam-lhe na alma ecos gemebundos e doloridos. O movimento vertiginoso do bailado provocava-lhe estranhas ilusões de óptica e via então, obliquadas em sentidos opostos, as linhas perpendiculares da sala, ao mesmo tempo que a horizontalidade das mesas balanceava confusamente, como se o clube fosse um salão de transatlântico que ondas tempestuosas agitassem.»

Mário Domingues, O Preto do «Charleston» (1930)


terça-feira, 21 de julho de 2015

no Roma Clube

Mário Domingues, visto por
seu filho, António Domingues
Capítulo III, breve, ficamos a saber que a mãe de César, D. Leonor, é respeitabilíssima viúva de um juiz, de hábitos austeros e moral condizente. E no seguinte, uma panorama da fauna do Roma Clube: grupo de desabafos e má-língua, com o «delicado poeta» Acácio Gentil, acompanhado pelo indefectível Cândido Gomes, à conversa com Laura e Rosette -- todos homossexuais; o círculo boémio do romancista Carlos Valongo, o desenhista, pintor e decorador Mariano Lopes e o também pintor, estrangeirado, Armando Cunha, todos parecendo personagens à clef. No meio, o visionário Pedro Fernandes, sentindo o seu cabaret como desígnio e missão civilizadora:
     «Era um apóstolo da sua ideia e dela fazia uma propaganda forte e dispendiosa nas colunas dos jornais. O seu corpo franzino era um poço inesgotável de energias lentamente consumidas naquela obra gigantesca, que considerava patriótica  e que, no dizer de Mariano, realizada no estrangeiro, em França, por exemplo granjear-lhe-ia pelo menos a roseta da Legião de Honra. Adorava o seu "cabaret" com fervoroso misticismo. Trocaria todos os prazeres, até o das mulheres, malcriadas e ordinárias que eram o seu fraco, por ver a sua obra completa. Tinha uma vaidade enorme no seu clube, a cuja prosperidade, nos momentos de entusiasmo arrebatador, ligava tão intimamente a sorte da nação que, por vezes, no seu cérebro, o dancing  e o país se confundiam duma maneira absoluta.»

Mário Domingues, O Preto do "Charleston" (1930), cap. IV.
(imagem)

segunda-feira, 20 de julho de 2015

como farrapo abandonado ao vendaval

Um night club lisboeta, lugar de música & evasão, bailarinos, espanholas ("Carmencita, Paca e Lola...) & transgressão. César faz-se encontrar por Odette. Ele, engenheiro, desportista, cuidador da sua saúde, o habitual "bom rapaz", parece; ela, a costumeira perversa, a "elegante" que vive à custa dos homens, que vive o dia de hoje, que acrescenta pó de coca à ponta dos seus «Abdulas» (marca de cigarros), que experimenta «todos os gozos, até os proibidos, principalmente os proibidos...» 
Até aqui, nada de extraordinário, mesmo num romance de 1930: o bom público pequeno-burguês e/ou provinciano já tinha acesso -- talvez de forma menos explícita --, por via das revistas do tempo (A.B.C., Civilização, Europa, Ilustração), a este mundo pouco conforme ao seu temperamento e à sua bolsa.  
Interessantes são as alusões ao jazz e às suas raízes, às danças contemporâneas e a esse enigmático Tomé:
«Não tardou que Tomé, o preto dançarino, executasse os seu primeiro "charleston" dessa noite, ante o olhar atento e assombrado de alguns mirones que tentavam apreender por que artes mágicas ao tan-tan rítmico do jazz, ele conseguia, sem uma falha na cadência, movimentar as suas pernas bambas, as pernas de trapo, conjugando-as com o balancear desconexo dos braços de pêndula. Era um boneco desarticulado que, movido por um maquinismo oculto, adquiria a flexibilidade de um farrapo abandonado ao vendaval impetuoso daquelas músicas de sertão africano, que floresceram por estranha afirmação de raça nessa Norte América intransigente e severa para com os seus negros.» 
Mário Domingues, O Preto do "Charleston", 1930 (cap. II)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

uma certa Lisboa dos anos vinte

imagem
«No "Cabeleireiro da moda", em pleno Chiado, trava-se conhecimento com duas elegantes» -- título do capítulo inicial de O Preto do «Charleston», de Mário Domingues, publicado em 1930.

Estamos diante de um retrato de uma certa Lisboa dos anos vinte, boémia e quase clandestina. A Lisboa de mulheres emancipadas (algumas) ou em vias disso (ainda poucas), dos clubes nocturnos, da idade do jazz-band exaltada por António Ferro, da banalização do modernismo de que lemos aqui banal tradução, das mulheres de cabelo curto, à rapaz, do irromper de sexualidades proibidas e ainda reprimidas, do bulício do Chiado como montra de vaidades -- neste particular, prosseguindo uma característica das décadas precedentes.
A primeira "elegante", Odette, afirmando-se livre -- mas cuja liberdade consiste, em boa medida, na livre escolha dos amantes, à custa de quem vive. 
Estamos longe, portanto duma mulher emancipada, na acepção límpida da palavra, nem o narrador no-la quer mostrar enquanto tal; para já, temos o estereótipo de uma mulher que revela, a um tempo, carácter oportunista e audacioso. Audacioso não apenas por se tratar duma "elegante de profissão" (a fronteira com a prostituição é pouco menos que ténue), oriunda de família tradicional, alguém que frequenta por prazer e caça o Roma Clube; audaciosa ainda pela afirmação da sua liberdade sexual. O diálogo com Ilda Fonseca -- a outra elegante com modo de vida quase idêntico, porém sem pisar demasiado o risco das convenções -- na sala de espera do cabeleireiro é revelador pelo à-vontade e desdém com que se refere a Tomé, o preto do charleston, um bailarino negro com quem mantivera uma breve relação: «-- O preto do "charleston"é um homem banal, como os outros homens. Tive-o por amante, como poderia ter um cão de raça exótica... Mas aborreceu-me depressa. É insuportável o seu sentimentalismo de sertão. [...] Tomé [...] não foi um amante, foi um capricho, um bizarro capricho que me tentou, que te tentaria a ti Ilda, se não fosses tão burguezinha e se tivesses, como eu, um temperamento insaciável de inéditos prazeres e de raras sensações.»
Como se vê pela foto junta, Mário Domingues (1899-1977), nascido numa roça de São Tomé, filho duma "contratada" angolana, herdara a tez escura e os traços fisionómicos da mãe, de quem foi separado ainda muito novo, tendo vindo para Lisboa, onde viveu e foi educado pela avó paterna. Jornalista brilhante, vindo das fileiras do anarco-sindicalismo de A Batalha, atravessou boa parte do século passado como free lancer, sendo autor prolífico não apenas das ficções assinadas com o seu nome civil, mas também de muito livro policial, recorrendo a pseudónimos anglo-saxónicos. O reconhecimento como escritor para o grande público viria nas últimas décadas de vida, com as narrativas historiográficas e biografias de reis e  personagens marcantes da história de Portugal.
O meu principal interesse nO Preto do Charleston reside no tratamento da personagem Tomé: até que ponto haverá ou não um reflexo de auto-imagem nessa Lisboa de entre-guerras. 

sábado, 13 de junho de 2015

o princípio em 1930: «-- Tem que esperar um bocadinho, 'mademoiselle' Odette -- disse Clara, a gentil empregada do "Cabeleireiro da Moda", muito elegante na sua bata e sorridente na face agarotada, a que un cabelos curtos, impossivelmente louros, oxigenados, davam um vago aspecto de costureira parisiense.»

Sobre O Preto do «Charleston» e Mário Domingues há muitos motivos de interesse. Foi um autor prolífico, com o seu próprio nome e sob uma panóplia de pseudónimos, alguns em língua inglesa, com que assinava os policiais, respondendo ao preconceito anglo-americano que o público impunha; foi jornalista freelancer, sendo um dos nomes importantes do anarco-sindicalista A Batalha; obteve enorme audiência com os seus trabalhos de divulgação histórica, editados na década de 1960 pela Romano Torres (e agora relançados pela Principia). 
Mário Domingues era negro, de São Tomé, desde criança a viver em Lisboa, onde estudou, sendo colega de escola do futuro célebre Repórter X (Reinaldo Ferreira). Imagina-se o que não seria os constantes desafios de inventiva entre estas duas mentes ágeis e inquietas...
O Preto do Charleston, pois: escrito por um negro, e publicado em 1930 (quantos homens de letras negros -- não me refiro a mulatos ou mestiços -- haveria então na ronceira Lisboa?); o charleston, assimilado ao jazz (música de pretos, pois então...); e as mulheres que durante essa década se emancipavam, com maior ou menor sucesso: lembro-me de Florbela Espanca, Diana de Liz, Maria Lamas, Judith Teixeira...
Quando o li pela primeira vez, fiquei decepcionado. Pareceu-me que ele se deixara inebriar pelos pelos vapores etíílicos e pelo fumo de Abdulas no ambiente concorrido e deletério dos clubes e cabarés com que Lisboa procurava disfarçava a tal ronceirice . Mas talvez mereça outra oportunidade.