Mostrar mensagens com a etiqueta «do estilo». Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta «do estilo». Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de julho de 2015

da captação do silêncio

É extraordinária a forma como Ferreira de Castro dá a sensação de quietude silenciosa nesta cena inicial de Emigrantes, durante preguiçar de Manuel da Bouça num fim de tarde pastoral e primaveril:

«À esquerda, para lá ainda da falda do outeiro, esbranquiçava, por entre a ramagem estática, o casario da aldeia. Desse lado, certamente de debicar os brincos vermelhos das cerejeiras, um gaio vinha, de quando em quando, esconder no pinhal o cromatismo da sua plumagem. "Chuá! Chua!" E era o único grito que quebrava o silêncio, também volátil, das velhas árvores em êxtase.»

Ferreira de Castro, Emigrantes (1928)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

como quem arregaça as mangas

imagem
«Classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, classe dos mansos perdidos, repetiam os degraus à medida que os subia e a enfermaria se aproximava dele tal um urinol de estação de um comboio em marcha, chefiada por uma vaca sagrada que afim de descompor as subordinadas retirava a dentadura postiça da boca, como quem arregaça as mangas, para aumentar a eficácia dos insultos.»

António Lobo Antunes, Memória de Elefante (1979)