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sábado, 13 de maio de 2017

Abel Botelho, António Lobo Antunes, António Alçada Baptista, Filomena Marona Beja

Fica-se mais fatigado a ler o incipit  de Abel Botelho (aliás, um romance importante) do que o de António Lobo Antunes, uns furos abaixo do livro de estreia. António Alçada Baptista com um livro interessante, por uma vez (comparar este início com os anteriores). O vento de Filomena Marona Beja tresanda a Antiguidade.

O título: O Eléctrico 16.

1901: «-- Essa ceia está pronta? -- perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, rendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.» Abel Botelho, Amanhã

1979: «O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:» António Lobo Antunes, Memória de Elefante

1989: «Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

2013: «Ali, o vento emprenhava as éguas.» Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

microleituras

Um clássico da literatura tradicional trabalhada por vários autores, de Ana de Castro Osório (a única que, até agora, lera) a António Sérgio, passando pela grande escritora brasileira para a infância Lúcia Pimentel Góes. Neste livrinho, é Filomena Marona Beja quem decide recontá-la, retirando-lhe o peso machista da época, que hoje seria inaceitável e acintoso: os misteriosos dez anõezinhos vieram ajudar  a dona de casa cujo desmazelo transtornara o marido, e esse auxílio pretado pelas dez criaturinhas acabaram por restabelecer a paz no lar. Donas e donos  de casa, nos nossos dias, só por opção ou desemprego. Assim, nova moral da história: «o trabalho de cada um valoriza-se por si e pelo dos outros.»
Trata-se de uma edição artesanal, com imagens produzidas pela oficina de ilustração da Casa da Achada, que publicou a obra.

Incipit: «Eram novos e viviam juntos havia pouco tempo.»

ficha:
Autora: Filomena Marona Beja
título: Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-Água
ilustrações: Marta Caldas, Felisbela Fonseca e elementos da oficina de ilustraçao da CA
edição: Casa da Achada - Centro Mário Dionísio
local: Lisboa
ano: 2014
capa: Eduarda Dionísio + oficina de paginação
impressão: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio
págs.: 36  

quinta-feira, 10 de abril de 2014

leituras de 2014 - #19 O ELÉCTRICO 16



Narrativa habilmente entretecida entre passado e presente, fluindo à medida dessa Helena comedida, mas de ideias firmes, oriunda da pequena burguesia lisboeta. O tempo é o dos últimos sessenta anos, da opressão à libertação, da PIDE ao Facebook, da carência à abundância para a qual, dizem, não tínhamos possibilidades. Opressão e libertação, não apenas da cidadania, mas da própria condição da mulher portuguesa, cidadã de terceira num universo de preconceito e tabus, ontem; emancipada, em boa medida, hoje -- inclusivamente na sexualidade, de que a filha, Yolanda, é exemplo; ou, ainda, o mundo novo da net, protagonizada por Joana, em paternalista interacção com a avó.
Na noite de mediocridade e pobreza (também moral) que foi o Estado Novo, Delgado foi o fogo-fátuo que a iluminou brevemente, para desaparecer de imediato -- excepto na memória de todos quantos viveram aquele período de ilusão.
O Eléctrico 16 é igualmente um relato dos amores possíveis, os que se efectivaram, uns na carne, no espírito, outros, sabendo-se que os vários homens e mulheres que existem dentro de nós nunca se conformam com a domesticação que a (des)razão e a civilidade impõem. 3***

Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16, Lisboa, Divina Comédia, 2013.