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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

12x25


«Havia já quem esperasse sem sobressalto a chegada do exército da Gironda. A princípio, vozes correram, anunciando que a divisão de Junot iniciara a marcha de Baiona. Espalhara-se depois que o exército se estava concentrando para uma campanha na Áustria... As colheitas principiaram. Serenamente, deitavam-se contas ao tempo das vindimas. Em paris, Napoleão mobilizava exércitos, imaginando aterrorizar Portugal. A esse tempo, em toda a terra portuguesa, secava o milho e rezavam-se as coroas»


Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902), 3.ª ed., Lisboa, Portugal-Brasil Sociedade Editora, s.d., p. 25, ls. 1-12.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

breve reflexão sobre uma passagem martiniana de Carlos Malheiro Dias

Entre a doce inconsciência de peraltas e sécias da guerra que lá vem e comezainas da criadagem (com a expressiva personagem do cocheiro Xavier (ou Mestre) Estoqueta), prefiro dar atenção a um eco de Oliveira Martins na prosa de Carlos Malheiro Dias: 

«E o nobre Ataíde, com essa familiaridade com que sempre os fidalgos portugueses se aconchegaram ao povo, agradecia aos bolieiros e eguariços, erguendo da cabeça o chapéu de bico largo.»

Esta pretensa comunhão entre nobreza e povo, passando por cima da burguesia, foi tema muito explorado por Oliveira Martins e outros no seu encalço. A verdade é que este wishful thinking, como agora se diz, prende-se, sociologicamente, com o triunfo da burguesia (argentária, sem princípio nem passado) e correspondente decadência da aristocracia, que em muitos casos se tentou consorciar com os arrivistas. Fazer disso uma base para uma teoria política que desembocaria no cesarismo, como o fez Oliveira Martins, é uma fantasia sem ponta de plausibilidade.

Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902), cap. II

quarta-feira, 22 de julho de 2015

a grande prosa de Carlos Malheiro Dias

(Paixão de Maria do Céu (1902) -- 1.1.)

O tempo é de pré-invasão das tropas napoleónicas. Os gabinetes fervilham e enrugam-se, mas o Verão persiste, as vindimas aproximam-se -- o mesmo com a festa dos vinte anos da heroína. As ralações podem esperar, ou, mais popularmente: enquanto o pau vai e vem, folgam as costas -- isto mesmo escreve CMD, em grande estilo e bom asserto de psicologia colectiva:

     «Entretanto, Agosto acabava, abundante e fecundo, farto de messes e de vinho. À medida que se aproximava a guerra, ia decrescendo o pânico ateado na província pela nova da invasão. Só o inesperado é terrível. Por isso o inferno não basta para conter as almas na virtude.»

Humor ("mesuras e curveteios"):
     «Por uma tarde, ao voltar das herdades do Adro, Sepúlveda topara de longe, na estrada, com um cavaleiro às mesuras e curveteios, que logo descobriu ser o morgadinho de Barbosa.»

O velho militar Sepúlveda, como que alienado, é dos poucos que se preparam, dentro de si, para o que aí vem:
     «A sua mania soldadesca exacerbou-se subitamente. Até altas horas ficava debruçado sobre os mapas, gisando marchas vitoriosas desde Cidade Rodrigo até Abrantes, ou afundando imaginários exércitos de escantilhão, em gargantas e desfiladeiros de serras agrestes.»


segunda-feira, 6 de julho de 2015

viver habitualmente, antes da catástrofe

Carlos Malheiro Dias, em poucas páginas, dá-nos ambiente de cândida inconsciência e de nefasta irresponsabilidade e alheamento do perigo que se aproximava. Sepúlveda era dos poucos que o percebia.

O envelhecimento do pai de Maria do Céu: do brigão da juventude ao pré-ancião, virado para as coisas do espírito e a avisada administração dos bens: «O seu grande corpo flectia um pouco. Os ombros abaulavam. Mas no seu porte envelhecido acrescera a majestade. [...] a sua vida era quieta e sóbria, como a de um guerreiro arrependido que fez votos.»

A nobreza provincial lembra a que, volvido mais de meio século, vamos encontrar em Agustina, salvo algum desbragamento da moda feminina, da França imperial àqueles recantos de Trás-os-Montes: «As mulheres ataram as mão sobre o penteado francês, desceram-nas, atarantadas, até ao seio impudicamente desabrochado no decote, à moda luxuriosa do Império, e suplicaram aos céus que contivesse ao longe os matadores de Maria Antonieta e da princesa de Lamballe.»

O retrato do regente D. João: na ameaça de uma invasão francesa, Sepúlveda não tinha ilusões. Observa o narrador, fazendo-se eco do íntimo de Sepúlveda: «[...] o que havia a esperar de um príncipe educado entre frades, em coros de convento e sacristias de igreja, e a quem causava náuseas uma hemorragia de nariz [?]» 

Entre uma rainha louca e um regente fraco de ânimo, os padres oravam, os políticos intrigavam, os governantes locupletavam-se, «Lisboa permancecia a mesma cidade, a um tempo pomposa e imunda, empavezada de monumentos e maculada de esterqueiras atravessada por procissões quotidianas e toda tlitante dos carrilhões dos lausperenes.»

quinta-feira, 2 de julho de 2015

um mundo em agonia

O ano é 1807, com recuo de algumas décadas, ao fim do ciclo político de Pombal. O cenário no tempo da narrativa é o distrito de Vila real, senhorios do Corgo e da Torgueda, de que é titular D. António Sepúlveda de Vasconcelos e Meneses, pai de Maria do Céu, que completava vinte anos nesse Outubro, e também a capital do Império.
Carlos Malheiro Dias foi também um cultor da História, logrando situar a acção com grande mestria, sem didactismos ou erudições excessivas. Isto só se consegue quando se é um escritor de mão-cheia, como ele o foi.
Há, neste capítulo inicial, vários grandes momentos. Encontramo-los na caracterização psicológica do belicoso morgado, militarão cujo temperamento o casamento e a paternidade aligeiraram, até à viuvez precoce e as urgências da ameaça napoleónica que se antevia; na deliciosa narração da sociabilidade nobreza da província em ocasiões festivas; no retrato da corte, do bizarro regente D. João, príncipe do Brasil, à nobreza ociosa e à padraria e fradaria parasitária que lotavam Lisboa -- cidade que «vivia entre o rosário e o lupanar.»
Disso vou continuar a falar.

domingo, 14 de junho de 2015

o princípio em 1902: «D. António Sepúlveda de Vasconcelos e Meneses, senhor do morgadio do Corgo, festejava nesse dia soalheiro de Outubro, em 1807, os vinte anos viçosos da linda Maria do Céu.»

Uma entrada de sabor camiliano, num romance histórico da alvorada do século passado. Carlos Malheiro Dias (1875-1941), um dos grandes do seu tempo, integra a multidão dos escritores importantes que o país desconhece. País sem elites, descamba neste miséria. A capa, dum academismo glorioso, é de Alfredo Morais.