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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Camilo Castelo Branco, Eduardo Frias, Ferreira de Castro e Paul Castilho

O Camilo é o Camilo, e o começo de Eusébio Macário é precioso, pela simplicidade, contrastando com o glit muito anos vinte e desinteressantemente "loucos" de Frias & Castro, mesmo que o romance tenha o seu quê para lá do ouropel, e com o malaise do protagonista de Castilho, aliás um nome seguro. Por isso, viva Camilo.

1879: «Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

1924: «Quem o diria, Berenice?...» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge 



1989: «Se quisesse definir a invisível peste que o acordar me toldava a existência, a palavra seria bruma.» Paulo Castilho, Fora de Horas

domingo, 11 de junho de 2017

Camilo Castelo Branco, Raul Brandão, Sérgio Luís de Carvalho

Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1866 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

domingo, 30 de abril de 2017

Eça e Camilo


Resultado de imagem para eça de queirós, a capital!
A Capital! depois de Doze Casamentos Felizes, e ocorre-me: «Como seriam as vozes de Camilo e Eça? Como soariam?» Suponho a de Eça ligeiramente nasalada e aguda, como que a deixar-nos à-vontade -- talvez (passe o cliché naturalista) para melhor nos estudar. Quanto à de Camilo, sinto-a mais áspera e grave, a pôr-nos em guarda -- ela, que ao soltar-se já estaria de sobreaviso... (20 de Junho de 2015)

segunda-feira, 20 de março de 2017

microleituras

Digamos que uma iniciativa como esta, uma Antologia do Conto Português, a acompanhar um jornal de grande tiragem como o Correio da Manhã (não me lembro se os livrinhos eram gratuitos) é sempre uma boa e louvável ideia. Mesmo se a escolha dos autores passe pela bitola baixa daqueles cujos direitos estavam já em domínio público, como é o caso do Camilo e dos outros escritores contemplados. Já custa mais a engolir a edição paupérrima (embora co-editada por um banco), só se aproveitando o grafismo das capas, com alguma originalidade. Nem falo do mau papel, mas da total ausência de critério na escolha dos textos e, consequentemente, da inexistência de um mínimo de aparato editorial: porquê estes e não outros textos?; quem os escolheu?; de onde foram extraídos?;  quem redigiu as escassas notas de rodapé? (Eu até acho que sei quem foi, e cheira-me que estas narrativas breves foram pirateadas às obras completas da Parceria A. M. Pereira).
Dos três textos antologiados, um, o do meio, não é conto, mas a primeira narrativa publicada por Camilo, sem o nome na capa, Maria! Não Me Mates que Sou Tua Mãe! (1848), uma lamentável mixórdia de cordel, de que só se continua a falar por o autor ser quem é.
Quanto às restantes, já o caso fia mais fino. Embora participem da categoria da literatura comestível, coisinhas que o Camilo fazia para ganhar uns trocos, pois da escrita vivia, sempre são dois camilos, e os camilos degustam-se. Trata-se de «Como ela o amava!», das Noites de Lamego (1863) e «Beatriz de Vilalva», das Noites de Insónia (1874), fiquei a sabê-lo graças ao Google, que, se não existisse, ainda teria à mão o meu Alexandre Cabral para informar -- instrumentos que ou não existiam à data da edição ou que, no caso do Dicionário de Camilo Castelo Branco não se encontraria na generalidade dos lares.
Duas historinhas de amores contrariados em habitat camiliano, o Norte, uma com final trágico, outra semi-feliz. É o que menos interessa: são títeres de Camilo, bonecos esquemáticos, sem espessura. O que importa é, sempre, o bravo e grande estilo, o seu humor cáustico e desapiedado, como fica exposto logo no primeiro parágrafo de «Como ela o amava!»:

«Aos 24 de Agosto, na povoação chamada Cavez, cuja ponte, sobre o Tâmega, extrema pelo norte as duas províncias do Minho e Trás-os-Montes, celebra-se a festa de S. Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás. Vêm aqui, de muitas léguas em volta, dezenas de criaturas obsessas. É para notar que raro homem que ali vá incubado de demónio. As mulheres é que, por cima de muitas outras penas, sofrem o dissabor de serem visitadas pelos espíritos infernais, caso único, a meu ver, em que os sobreditos espíritos se mostram espirituosos.» («Como ela o amava!»)

ficha:
Autor: Camilo Castelo Branco
título: Antologia do Conto Português
colecção: «Antologia do Conto Português» #4
editores: Correio da Manhã e Banco Nacional Ultramarino
local: Lisboa
data: [1991]
impressão: Mirandela - Artes Gráficas
págs. 45

quarta-feira, 8 de março de 2017

Júlio Dinis, algumas aparas

Que penso eu do Júlio Dinis?
Um extraordinário talento de novelista, notável encenador de ambientes e situações.
A segunda metade do século XIX na novelística portuguesa é Camilo-Júlio Dinis-Eça. O resto é secundário. Por alguma razão ele sobreviveu, ao contrário doutros autores estimáveis, mas cujo desempenho não chegava aos calcanhares do criador d'A Morgadinha dos Canaviais.
Não o conheço a fundo: li três dos seus quatro romances e um ou outro conto ou disperso; falta-me a juvenília, para a qual não estou muito virado, e o paraliterário (correspondência, etc.), mas, homem do Porto e mão inglesa, suponho-o um liberal distante da politiquice e do caciquismo.
Detractores, teve e ainda terá uma quantidade deles. Entre nós, o apoucamento de grandes escritores deve-se a pelo menos uma de três desrazões: ressentimento despeitado dos contemporâneos, sectarismo ideológico, o deslumbramento basbaque, Os primeiros, os mais tristes; os últimos, tristemente risíveis. Por isso, ainda corre que por aí que o Júlio Dinis é autor de romances cor-de-rosa, país desgraçado.
Júlio Dinis (Joaquim Guilherme Gomes Coelho, Porto, 1839-1871), é um dos meus escritores.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Camilo Castelo Branco, algumas aparas

Que penso eu do Camilo?
Costumo dizer que ele vale por toda uma literatura. Está no mesmo patamar da poesia trovadoresca, do Camões, do Padre António Vieira, entre outros poucos. Isto é: podia a literatura portuguesa contar apenas com o CCB, e já poderíamos dar-nos por felizes.
Execrável criatura, imoral, porventura amoral, porém fisicamente corajosa. Demolidoramente sarcástico, violento até à bengalada.
Ideologicamente instável, menos reaccionário do que se supõe, oportunista no que fosse preciso.
Detractores, não creio que os tenha hoje, mesmo entre os que preferem o Eça. Já é um clássico.
Conheço-lhe a obra deficientemente (uns quinze títulos ou pouco mais), na proporção incomensurável que logrou alcançar, o suficiente, porém, para um juízo não muito erróneo.
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, freguesia dos Mártires, Lisboa, 16 de Março de 1925 -- São Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, 1 de Junho de 1890), é um dos meus escritores.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

microleituras

Um dos primeiros livros publicados por Camilo Castelo Branco participa desta literatura, com «Maria. não Me Mates que Sou Tua Mãe!» (1848), como é referido pelo autor desta síntese notável de enquadramento e análise dum género tão peculiar, caído em desuso não há muito. Literatura de cordel, literatura de cego, vendido por feiras e mercados deste país, histórias fabulosas, relatos de viagem, episódios do ciclo arturiano, do último feito notável ou do último crime cometido, verso,drama e prosa de proveito e exemplo que leitores e ouvintes (não esquecer o analfabetismo endémico), consumiam gulosamente. Que o dissesse Ferreira de Castro, ainda criança, com a História do João Soldado -- um must da literatura de cordel.

incipit: «A designação "literatura de cordel" recobre, no uso dos especialistas,, um conjunto imenso e instável de obras que eram penduradas para exposição e venda em cordéis distendido entre dois suportes, presos por pregos ou alfinetes, em paredes de madeira ou na rua, podendo também pender dos braços da da cintura de vendedores ambulantes.»  

ficha:
Autor: Carlos Nogueira.
título: Literatura de Cordel: História, Teoria e Interpretação
edição: 2.ª
colecção: «À mão de respigar» #5
editora: Apenas Livros
local: Lisboa
ano: 2003

domingo, 19 de junho de 2016

microleituras

Cartas de Camilo, apresentação de Vasco Graça Moura, edição de José da Cruz Santos, gravuras de Alberto Péssimo, direcção gráfica de Armando Alves -- tudo para ser uma grande edição, e é-o.
E o é, pelo humor sardónico de Camilo, que, em quatro cartas, datadas de 1886, trata, com o destinatário delas, Adelino António das Neves e Melo, Filho, ex-comissário de polícia em Coimbra, e velho amigo, que este lhe arranje um burro, para passeio (recomendação médica).
O título, certamente de Graça Moura, é um achado, à altura da verve camiliana, sempre maldosa. Mas como no melhor pano cai a nódoa, a edição a respeito de questões editoriais essenciais, mesmo atendendo a este tipo de publicação, em que o objecto-livro é (boa) finalidade. A saber: trata-se de uma primeira transcrição?; e por quem?. Se não, de onde foram extraídas?... 

excerto duma carta:

«Meu presado Am.º
[...]
Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo. /  Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam-me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns q ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos. [...]»


ficha:
Autor: Camilo Castelo Branco
título: Um Animal de Quatro Cartas
prefácio: Vasco Graça Moura
ilustrações: Alberto Péssimo
edição: Edições Asa
local: Porto
ano: 2000
impressão: Edilções Asa, Rio Tinto
págs.:
tiragem: 1350
págs.: 26

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pub.



Acaba de sair a 2.ª edição do meu Viajar com Ferreira de Castro,
uma iniciativa da Direcção-Geral da Cultura do Norte,
agora em colaboração com a editora Opera Omnia

terça-feira, 19 de abril de 2016

microleituras

Quem quiser conhecer a forma e o fundo da chamada literatura de cordel tem à mão este livrinho do velho Camilo, objecto de muitas edições ao longo dos tempos desde a edição princeps, sem nome do autor, publicada em 1848 (data que a presente edição nem se dá ao trabalho de informar).
A literatura de cordel, com as suas historietas mirabolantes, os seus relatos de crimes horrendos, fazia as vezes dos jornais tablóides e das estações de televisão, cuja luta entre si, à procura de sangue para a turba das audiências, é pelo menos tão miseranda quanto os crimes nefandos escarrapachados nestes folhetos, vendidos por esse país adentro, nas feiras, nos mercados, nos lugares de ajuntamento, a um público analfabeto que ouvia a leitura em grupo.
A história verídica que nos conta Camilo -- o matricídio de Matilde do Rosário da Luz pela sua filha Maria José -- é um (in)vulgar crime venal que a miséria humana conhece desde que se conhece. O que é giro neste folheto é a técnica espertalhona de Camilo de captar e impressionar o ouvinte do anúncio do conteúdo, no exórdio dirigido AOS PAIS DE FAMÍLIA!, de forma a ficarem logo agarrados ao triste caso, sinal claro de «que o fim do mundo está chegado» -- e abrirem os cordões à bolsa, é claro, que era o que interessava ao futuro autor do Amor de Perdição

o inicio: «Em Lisboa, na travessa das Freiras n.º 17 havia um homem chamado Agostinho José casado com Matilde de Rosário da Luz.»

ficha: 
Autor: Camilo Casrelo Branco
título: Maria! Não Me Mates que Sou Tua Mãe!
editora: Edições Nova Ática
local: Lisboa
ano: 2001
impressão: Stória
págs.; 16

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

livros que me apetecem









Crónica do Conde Dom Pedro de Menezes, de Gomes Eanes de Zurara (IN-CM)
Diário Íntimo de Carlos da Maia, de A. Campos Matos (Colibri)
Largo da Mutamba, de Domingos Lobo (Vega)
Os Navios da Noite, de João de Melo (Dom Quixote)
O que Fazem Mulheres, de Camilo Castelo Branco (Guerra & Paz)
A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Porto Editora)
A Tomada de Madrid, de Mário Silva Carvalho (Saída de Emergência)

domingo, 4 de maio de 2014

leituras de 2014 #23 - ALDEIA DAS ÁGUIAS

Tinha alguma expectativa em relação a este livro. Nunca lera nada do autor -- à parte alguns artigos ou contos dispersos --, é talvez o único título seu que não caiu em esquecimento completo, mercê do Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências que lhe foi atribuído em 1939, ano da edição. Andava com ele  há anos na cabeça: Aldeia das Águias, título sugestivo, evocando com a literalidade que nome e capa impunham -- e que veio a verificar-se --, uma narrativa situada numa área semi-isolada, em faldas e escarpas duma província nortenha.
À medida que ia avançando, a desilusão era crescente. Uma oposição cidade-campo já então com barbas, Júlio Dinis entrado pelo século XX adentro, sem o talento, o humor e a mestria do autor d'A Morgadinha dos Canaviais. As personagens são esquemáticas, previsíveis quase caricaturas: irmão mau e irmão bom -- um, velhaco, vaidoso, desprezível, quase psicopata; honrado, generoso e abnegado, o outro; um amigo de infância do primeiro, de estrato social muito abaixo, personagem sacrificial da narrativa, quase um santo, mais do que a criada desonrada pelo "menino", que arrostou com a fúria paterna, vindo, obviamente, mais tarde a ser redimida pelo irmão bom... As cenas de cidade -- Porto -- são pobres e a linguagem é confrangedora e insuportavelmente banal e magazinesca.
Há algumas boas páginas -- melhor fora --, em especial as que são centradas na aldeia de Sedielos (Régua), terra-natal do autor: o quadro de caça às águias, predadoras dos rebanhos, que ciclicamente a aldeia em peso promove, é do melhor que o livro tem. E nem falta o maluquinho de aldeia, o Taranta, a dar a tonalidade trágica de acento camiliano, que narrativas deste género exigiam.
Poderia ser um bom romance em mãos de mestre. Mesmo que em 1939, Ferreira de Castro e José Régio, cada um a seu modo, houvessem já transformado o romance português -- este com o Jogo da Cabra Cega (1934); aquele, a partir de Emigrantes (1928) -- não se seguia forçosamente que um romance mais académico tivesse  de ser por força dispensável (quem desdenha, por exemplo de Rachmaninov por antes dele ter havido Schönberg ou Debussy ou Stravinski? Só um pateta); nem seria preciso que o autor tentasse equiparar-se a Aquilino Ribeiro -- de quem está a anos-luz. Bastaria não ter sido tão acomodatício, previsível, superficial; ou, estilisticamente, afastar-se da vulgaridade da escrita postiça, no seu dar-se ares modernaços, para que pudesse ser algo que se lesse a contento, 75 anos depois. Mas não, já era irrelevante quando saiu dos prelos.   2**

ficha:
Autor: Guedes de Amorim
título: Aldeia das Águias (1939)
colecção: «Minerva de Bolso» #26 
editora: Editorial Minerva
local: Lisboa
ano: 1973
págs.: 199
impressão: Oficinas da Ed. Minerva
capa: Manuel Dias

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

camilógrafos, camilómanos, camilófagos e "camelianistas"

«A confusão estabelecida pelos "entendidos" em camilografia, em geral simples camilómanos, acerca da obra de Camilo Castelo Branco "A Infanta Capelista" é de tal ordem que os não iniciados na vida desse escritor dificilmente encontram o fio da meada, propositadamente enredada pelos camilófagos e "camelianistas". Pertence ao número destes o pavão desasado, cuja plumagem é arrancada no artigo adiante reproduzido.»

Jaime Brasil, O Caso de "A Infanta Capelista" de Camilo Castelo Branco ou Como se Arrancam as Penas a um Empavonado "Camelianista", Porto, Livraria Galaica, 1958.