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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

frente a frente


3. Num dialogo duro entre André -- «Está arrependido do compromisso que tomou? Ganhou medo? Ou quer mais dinheiro?» -- e Lambaça, o retrato psicológico do dúbio passador vai-se adensando:


«Um e outro devoraram a travessa de bacalhau com grão. Esquentado pela correria, André bebeu vários copos de água, e o Lambaça outros tantos de vinho. Estava já visivelmente tocado pelo álcool e os olhitos avermelhados riam provocantes cada vez que o companheiro levava à boca o copo de água. Sem tirar o chapéu, despira o casaco preto, acomodando no bolso, bem à vista de André, um enorme revólver prateado. Os suspensórios demasiado esticados arrepelavam-lhe a camisa, deixando perceber uns ombros musculados. Só no fim da refeição quebrou o silêncio, a voz já empastada pelo vinho, mas ainda mais chocarreira e arrogante.»

Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975)

segunda-feira, 27 de julho de 2015

a caminho do exílio

2. Cidade, vila, aldeia, comboio, camioneta, intervalos por tabernas, André e Lambaça continuam o seu percurso de desconfiança e incomunicabilidade a caminho da fronteira. Um posto da guarda, conhecido do segundo e onde se costuma pedir documentos aos viajantes, implica manobra arrojada de temeridade a André, instruído por Lambaça: passar-lhes rente, a pé, como quem nada tem a temer, retomando a carreira pastelona um par de quilómetros adiante. A desconfiança do jovem militante diante duma possível armadilha aguça-se, mas o homem é um passador experiente...

(um parágrafo):

«Ali tomaram a camioneta, e esta seguiu, ronceira e aos solavancos por uma estrada poeirenta e esburacada, parando aqui e acolá em aldeias pacatas e tristonhas, onde subiam e desciam camponeses de poucas falas. André, que nascera e sempre vivera em Lisboa, olhava curioso a paisagem e a gente, apreciava as moças, ajudava a baixar cestas, e, ao fitar um e outro, lia-se-lhe nos olhos honestos a vontade mal refreada de falar e de conviver. A seu lado, direito e rígido, o Lambaça fumava cigarro atrás de cigarro, sem nada dizer.»

Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites (1975).

quinta-feira, 9 de julho de 2015

encontram-se André e Lambaça

1. Noite na estação de Campanhã, o momento do encontro entre dois estranhos: o muito jovem, talvez ainda ingénuo, mas determinado, André (19 anos), e o Lambaça (40/50 anos), um marginal (um homem das margems), fisicamente maciço e idiossincraticamente difícil e arrogante. O narrador refere-se a uma emigração forçada do protagonista, mas fica a ideia de tratar-se de um exílio político. Uma terceira personagem sem nome é vária vezes assinalado como "camarada". André será, portanto, um militante clandestino do PCP, cujo salto na fronteira se impôs.
O estilo de Manuel Tiago é directo, limpo essencial; diálogos de frases curtas, próprio de personagens que não se conhecem e desconfiam do outro.   

(um parágrafo):
                      «André apertou na sua uma mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto anguloso e moreno.»

Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites, 2.ª ed., Lisboa, Editorial Avante!, 1994

quarta-feira, 17 de junho de 2015

o princípio revelado em 1975: «Com 19 anos incompletos, André viu-se forçado a emigrar.»

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Não sei em que década foi redigida esta novela preciosa de Cunhal, talves ainda no exílio, talvez logo depois do 25 de Abril. É o segundo título de Manuel Tiago, que, com o romance Até Amanhã Camaradas alimentou o mito do romancista na clandestinidade, entretanto desaparecido. Será com A Estrela de Seis Pontas (1994) que Cunhal se revelará como ficcionista. 
Tive muito boa impressão na primeira leitura. Ainda não calhou ver o filme de Fonseca e Costa.