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quinta-feira, 30 de julho de 2015

cenas batidas

1.3. Um tom de tragédia, muito neo-realista e muito alentejano. Num registo quase cómico, Agapito Mourato, comerciante e agricultor, discute com Crispim Barradas, seareiro, as vantagens das debulhadoras que tem para venda, ao que o segundo contrapõe com os custos da eliminação de braços no trabalho agrícola que ela representa. O que será pretexto para a evocação de situações de miséria, como a daquela mãe que se atira ao poço com quase todos os filhos, por não ter com que sustentá-los.
A cena é forte e bem descrita, e é verdade que em 1960 a fome e a miséria grassavam ainda por esse Alentejo. No entanto, quer a pobreza extrema, com o seu cortejo de desgraças, quer os problemas levantados pela evolução técnica já haviam sido tratados há muito no romance português, pelo que há aqui alguma mastigação que -- podendo, embora, dar-lhe mais consistência -- não me parece, por enquanto, acrescente muito à economia da narrativa.

(um parágrafo)
«Crispim Barradas, frente ao homem de Moura, sente que o não deve poupar. Aquilo não pode ficar assim. A miséria é muita, os cuidados dobrados. Mas as maganas das palavras, que é delas? Puxava pela cabeça, matuta que matuta, e nada escorria de dentro. As máquinas são precisas, mas numa terra abandonado como a dele, como a de todos os alentejanos, enchiam as algibeiras dos  ricos e tiravam o pão aos homens e a fome alastrava como as margaças e o cizirão, ervas ruins dos campos.»

Antunes da Silva, Suão (1963)

terça-feira, 14 de julho de 2015

um sorriso sem cor


1.2 A angústia e o medo de Simplício; a mágoa depois da raiva de Olímpia. A incomunicabilidade.


«A mulher, passo após passo, vem à porta despedir-se do marido. O rosto abre-se-lhe num sorriso sem cor e os lábios pousam-lhe um beijo quente na testa. Era um adeus, ou um convite... Ele deu-lhe outro beijo... recuando o busto.»

Antunes da Silva, Suão (1960)

sábado, 20 de junho de 2015

"Dá-lhe dois murros bem puxados"

imagem
Ainda sobre a abulia de Simplício Varandas: o carácter fraco e pacífico mal visto no seio de uma vila alentejana, dobrada já a metade do século passado:

«Lembra-se dos conselhos do seu compadre Crispim: "Dá-lhe dois murros bem puxados, bem tesos, Simplício. Há mulheres que só assim é que se vergam à vontade da gente. Casca-lhe uma sova com um pau de marmeleiro, que ela tem bom corpo para aguentar pancada. Fica descansado que o génio há-de arrefecer-lhe."»

Mas Simplício não era homem para bater em mulheres; queria o amor da sua, e escapava-lhe a razão de tanto azedume da parte de Olímpia. Por isso, quando a loba com a carne em desassossego o chama para si, os brios pedem-lhe desforço:

«Nunca mais seriam capazes de contar-lhe histórias de mentiras... Mas amanhã, quando o Crispim viesse com a mesma lamúria: "ouve, Simplício, anda para aí uma corja a rosnar isto e aquilo...", ele lhe diria, muito simplesmente: "Era melhor que te metesses na tua vida, compadre! Não te admito, ouviste?!" E voltava-lhe as costas, ou então, punha-se direito, com o punho cerrado e lá vai obra, batia-lhe, cansava-se a bater-lhe mesmo!» 

Isto era uma analepse do narrador, pois nós, leitores, sabemos que Olímpia entretanto saíra de casa.

Antunes da Silva, Suão (1960)


terça-feira, 9 de junho de 2015

uma loba no cio

Um quadro opressivo da infelicidade conjugal: Olímpia desgostava do marido e desgostava-se; mas o desejo por vezes era mais forte. Ela era forte, e como uma loba no cio, chama-o para si. ("Loba" lhe chama o narrador.) Quanto a ele... 

«Simplício levantou-se, rápido, um sorriso a bailar-lhe nos lábios, os olhos acesos de alegria. Postou-se em frente da mulher, hesitante, taranta. Todo ele era tremuras. Ela, sentada, afagou-lhe as pernas, puxando-lhe, ao de leve, as calças de cotim para cima. O homem vai beijá-la, cheio de glória, como no dia do casamento... Senta-se-lhe no colo, acaricia-lhe os longos cabelos sedosos. A casa está toda enfeitada de silêncio. A noite, lá fora, é um abismo de negrura, não há lua no céu, não se ouve o farfalhar das poucas árvores, na planície. Olímpia, de olhos fechados, parece estar longe dali e morde-lhe suavemente a polpa  de uma orelha e ouve-se a sua respiração opressa, os lábios roçando-lhe a nuca, com o seu bafo moreno e apetecido. De súbito, o braço que tenta enlaçar-lhe o busto, nervoso e precipitado, bate no candeeiro a petróleo que se encontra em cima da mesa. O candeeiro cai em estilhas. O estrondo dos bocados de vidro, a chama bravia da torcida no meio do chão da casa, fazem levantar a mulher da cadeira de palha, assustada e repentinamente rancorosa:
--Estúpido! Desajeitado!...»

Antunes da Silva, Suão (1960):


quinta-feira, 4 de junho de 2015

«Olímpia saíra de manhãzinha, pouco depois do nascer do sol, sem casaco e sem lenço, de corpo bem feito, desprezando as leis da vila.»


Quando Simplício Varandas entra em cena, já Olímpia, a mulher, saíra de casa; e o desenrolar da acção do primeiro capítulo de Suão evoluirá sob as evocações do protagonista.
O espaço e o tempo são relativamente esfumados: uma vila ficcionada no Baixo Alentejo, Sam Jacinto, num período contemporâneo (alusão a comboios, cinema, futebol), mas, por enquanto, sem maiores definições.
As personagens principais, Simplício e Olímpia, são sujeitos de um casamento caracterizado pela incompreensão e pela mágoa. Ele, passivo, apático, melancólico; ela, sanguínea, violenta. Crispim, compadre de Simplício, e o Dr. Maldirro Real, proprietário e arrendatário das terras trabalhadas por Varandas, são personagens coadjuvantes: aos alertas de Crispim para o alegado comportamento da mulher de Simplício, causadora de falatório, contrapões a excepcional benevolência do Dr. Maldirro para com o rendeiro -- excepcional, porque intransigente com os outros rendeiros -- a que seria atribuível uma relação com Olímpia.
Para já, ficamos a saber que havia uma tensão entre ambos tornada insanável, a que Simplício atribui uma diferente origem (ela, filha de ferroviário, habituada a ver mundo, metida ali naquele fim do dito); e, infere o leitor, à sua própria esterilidade, que o diminui como homem e angustia ambos.
Olímpia interessa-me. Em próximo post, pô-la-ei a falar.  

domingo, 31 de maio de 2015

o princípio em 1960: «Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu.»

É este o início do, creio que único, romance de Antunes da Silva, Suão, de 1960. Um bom começo. Do vento, sabe-se que transporta uma vaga de calor sufocante que transtorna as pessoas, mesmo os que o conhecem bem, como sucede com os alentejanos.
O título é excepcional: uma palavra apenas com um feixe de implicações; tal como esplêndida é a capa da minha edição -- da autoria de Octávio Clérigo --, a primeira, saída no óptima colecção de bolso da velha Portugália Editora.
Lembro-me de que gostei da primeira vez que o li, sem que atingisse a poética depurada dos romances de Manuel da Fonseca, provavelmente o maior escritor alentejano do século XX.
Enquanto não me aborrecer, vou andar às voltas com ele e com outros.