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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Liberto Cruz, Felicidade na Austrália

Um livro de contos transbordante de humor, por vezes felliniano, mas também com uma idiossincrasia muito portuguesa. À memória chegaram-me passagens de O que Diz Molero, de Dinis Machado, e a «Trilogia dos Cafés», de Álvaro Guerra.
Liberto Cruz, mais conhecido como ensaísta e investigador literário (Júlio Dinis, Ruben A., Blaise Cendrars) e poeta, traz para a literatura portuguesa uma nova região literária: não a Austrália -- o título é retirado dum verso do Pessoa/Álvaro de Campos, citado em epígrafe --, não o país dos cangurus, mas o «Estado Independente de Penaferrim», ele próprio um microcosmos do Portugal do tempo do Estado Novo. Liberto Cruz, nascido há oitenta anos na conhecida freguesia sintrense de São Pedro de Penaferrim, ficciona as suas memórias do lugar com um distanciamento nada nostálgico -- ou, se alguma nostalgia puder vislumbrar-se, estará filtrada pelo estranhamento do tempo e da distância, a distância de quem tem mais mundos, outros mundos. (Lisboa, Editorial Estampa, 2014)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

livros que me apetecem

Amálgama, Rubem Fonseca (Sextante)
O Angolano que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço), Kalaf Epalanga (Caminho)
As Avenidas Periféricas, Patrick Modiano (Porto Editora)
Cartas, Visões e Outros Textos do Sr. Pantaleão, Fernando Pessoa (Assírio & Alvim)
Desta Varanda, o Mar, Albano Martins (Simplesmente)
Diários de Viagem, Franz Kafka (Relógio d'Água)
O Livro dos Dias, Diniz Conefrey (Pianola / Quarteto de Jade)
Mar - Enciclopédia da Estória Universal, Afonso Cruz (Alfaguara)
Monte Cativo e Outras Ficções, Jorge de Sena (Guimarães)







sexta-feira, 24 de outubro de 2014

leituras de 2014 - #52 CARTAS DE AMOR À VISCONDESSA DA LUZ

Enquanto houver literatura portuguesa (ou a memória dela), Garrett será sempre um dos nomes cimeiríssimos. E, portanto, nem sequer estou a contemplar a sua dimensão histórica e política, que foi grande. Não é impunemente que se escreve uma obra-prima absoluta (Frei Luís de Sousa), a melhor poesia do romantismo português (Folhas Caídas) ou se inaugura o romance moderno em língua própria (Viagens na Minha Terra). É o primeiro escritor português da primeira metade do século XIX, e só uma pessoa pode com ele ombrear, principalmente graças a monumental e fundadora obra de historiador: Alexandre Herculano.
Vem isto a propósito das Cartas de Amor à Viscondessa da Luz. Sobre Eça de Queirós (outro gigante), Vergílio Ferreira disse qualquer coisa parecida com isto: dele tudo nos interessa, até a conta da lavandaria. Estas cartas são obra paraliterária, não foram escritas para publicação e reflectem um estado emocional alterado. Embora a epistolografia possa ostentar-se os galões de literatura de pleno direito -- vários foram os autores que viram as suas cartas equiparadas à obra mais séria, quando não suplantá-la: estou a lembrar-me de obras-primas como as Cartas do Cárcere, de Gramsci ou da maior parte das missivas do Eça, sempre ele --, não é isso que se passa com estas do punho garretiano.
Não que elas seja excessivamente anódinas, bem pelo contrário; não que a sua publicação não se justificasse. Há nelas muitos elementos úteis para estudo em várias áreas.
São cartas de tal modo pessoais, unívocas, íntimas e obsessivamente repetitivas, que valem por essa expressão extrema de amor ardente e transgressor, penetrando de tal forma na intimidade do escritor que valem por essa verdade desvelada. Felizmente, o Pessoa já nos dera o antídoto para as cartas de amor -- e além do mais, que diabo!, esta paixão deu-nos as Folhas Caídas... 22 cartas que se salvaram, dentre as centenas que foram escritas e trocadas. Um milagre, portanto. É a segunda vez que se publicam, depois da edição de José Bruno Carreiro, que assinalou, em 1954, o centenário da morte de Garrett, um trabalho impecável do investigador brasileiro Sérgio Nazar David.
Em duas palavras: Rosa Montúfar Infante, espanhola lindíssima, mulher do Visconde da Luz, militar e político de destaque, é amante de Almeida Garrett na segunda metade da década de 1840 até ao início do decénio seguinte. de Garrett temos a ideia do escritor quase-dândi, viril e sedutor com as mulheres, o eco do tribuno de voz bem colocada e palavra assertiva, do homem de acção que foi um dos bravos do Mindelo. ler-lhe os delíquios amorosos chega a ser perturbador e incómodo, passados 160 anos da sua morte, de tal modo ele é ainda nosso contemporâneo. As cartas são patéticas -- a paixão é patética (todas as paixões o são). A que leva o número XVIII, em que testemunhamos o seu desengano, a sua ingenuidade, o seu desgosto, essa, então, é dilacerante.
Assim sendo, não estando estas cartas de Garrett nos píncaros da epistolografia portuguesa, são de enorme relevância biográfica. E mais do que isso: iluminam alguns poemas de Folhas Caídas, de um modo que não se suspeitava. Só por isso a sua edição teve toda a razão de ser.   5*****

ficha:
Autor: Almeida Garrett
título: Cartas de Amor à Viscondessa da Luz
edição: Sérgio Nazar David
apresentação: Ofélia Paiva Monteiro
colecção: «Biblioteca Primeiras Pessoa»
editora: Edições Quasi
local: Vila Nova de Famalicão
ano: 2007
impressão: Papelmunde
págs.: 222


sexta-feira, 18 de julho de 2014

leituras de 2014 - #35 NOTAS DE RODAPÉ

O autor não é apenas professor de Literatura (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), como tem a particularidade de gostar dela, a Literatura -- o que nem sempre sucede --, e, o que é mais, sabe transmitir pedagogicamente essa paixão.
Estas Notas de Rodapé serão tal, na sua designação humilde, se nos reportarmos ao seu objecto: a grande literatura -- brasileira, principalmente, mas também portuguesa e de além-língua. Borges, Calvino e Eco, por exemplo, são abundantemente citados ao longo do livro, muitas vezes em epígrafes. Acontece que estas crónicas, publicadas na imprensa, foram escritas com o gosto de comunicar com os alunos e todos quantos pretendem aventurar-se no bosque da ficção. E, nesse aspecto, é excelente para aqueles leitores menos experientes, perdidos nos labirintos do mercado, nivelando ou soterrando os clássicos de ontem e de hoje na avalanche da subliteratura parida a esmo pela indústria editorial.
"Devaneios de um leitor solitário", subtitula Tôrres Freire o seu livro, desta forma despretensiosa e aparentemente leve, fazendo pontes para a História ou o Cinema, conduzindo sabiamente e dando ferramentas ao leitor interessado em distinguir o trigo do joio. Quase todos os Grandes brasileiros estão lá; e enquanto leitor português apreciei os textos consagrados a Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, José Saramago e António Lobo Antunes.  4****

ficha:
Autor: José Alonso Tôrres Freire
título: Notas de Rodapé
subtítulo: Devaneios de um Leitor Solitário
apresentação: Rosana Cristina Zanelatto Santos
editora: Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
local: Campo Grande
ano: 2014
impressão: PROPP/UFMS
capa: ilustração de Liana Valle
págs.: 170

quinta-feira, 3 de abril de 2014

leituras de 2014 - #17 EDOI LELIA DOURA



Quando uma antologia se assume como escolha pessoal, como é o caso desta de Herberto Helder, Edoi Lelia Doura, o antologiador assume uma dimensão autoral e o poemário passará a interessar tanto pelo antologiador como pelos textos seleccionados. Restringe-se, portanto, o seu universo de partida ao da pessoa que os escolheu, que, naquilo que propõe, não se obriga a mais do que a uma coerência interna.
Herberto Helder juntou textos (poemas e outros) que comunicam entre si e ecoaram nele, comunicando-se tão fundamente  quanto o suficiente para serem desarticulados (ou não) do volume, do folheto ou da revista em que primitivamente se encerraram, ganhando, porventura, nova leitura leitura no corpus em que foram reunidos.
São dezoito vozes da "moderna poesia portuguesa" (em 1985) que atravessaram os últimos cem anos, à data desta edição, tendo como legenda um verso de uma excepcional e talvez enigmática cantiga d'amigo de Pedro Eanes Solaz.
A individualidade comum a todos manifesta-se pelo desconforto da existência, entre o estranhamento e a marginalidade, a demência e a pulsão suicidária, o negrume e a vertigem; mas também a procura da liberdade plena, a busca das palavras (im)precisas.
Neste conjunto de dezoito poetas, Fernando Pessoa avulta como um caso absolutamente à parte, sem igual na sua superioridade, como, aliás sabemos; estão-me próximas no gosto as poéticas de António José Forte, Luiza Neto Jorge e Manuel de Castro; e, de forma superlativa, Vitorino Nemésio, uma admiração antiga da minha. Foi também marcante, à época, a revelação da, até então inédita, poesia de António Gancho. 4****

Ficha
Autor / Antologiador: Herberto Helder
título: Edoi Lelia Doura
subtítulo: Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa
autores antologiados: Gomes Leal, Camilo Pessanha, Ângelo de Lima, Teixeira de Pascoais, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, José de Almada Negreiros, Edmundo de Bettencourt, Vitorino Nemésio, Carlos de Oliveira, Natália Correia, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, António José Forte, Manuel de Castro, Ernesto Sampaio, Luiza Neto Jorge e António Gancho.
eitora: Assírio & Alvim
local: Lisboa
ano: 1985
págs.: 314
impressão: Guide-Artes Gráficas, Póvoa de Santo Adrião
capa: Manuel Rosa
tiragem: 3000


sexta-feira, 24 de maio de 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa.
Ferreira de Castro irá, assim, contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil... Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selvaque o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.