Mostrar mensagens com a etiqueta Augusto Abelaira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Augusto Abelaira. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de maio de 2017

João Pedro de Andrade, António Lobo Antunes, Augusto Abelaira, António Alçada Baptista, Miguel Barbosa

Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçadoAugusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa)Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Guedes de Amorim, Augusto Abelaira, Ruben A., João Aguiar, Bruno Vieira Amaral

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? Talvez não.

1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Romancistas portugueses - Augusto Abelaira segundo David Mourão-Ferreira (1963)

Uma dúzia de linhas no volume I da enciclopédia Verbo. Abelaira publicara apenas dois romances e duas peças. David Mourão-Ferreira qualifica a obra como «inconsistente, reflectindo embora, de maneira fiel, certa desorientação de alguns sectores da adolescência contemporânea.»
Inconsistência, foi isso que senti ao ler A Cidade das Flores (1959), que no entanto causou um grande efeito no público leitor de então -- a acção decorre em Itália, no tempo do fascismo. A transposição para cá era óbvia.
Li, há muitos anos, O Bosque Harmonioso, que hei-de reler. Como cronista fui (e continuo a ser, nos recortes que tenho espalhados pelkos meus livros, as suas crónicas esplêndidas de Ao Pé das Letras, no JL, e o Escrever na Água -- grande título para a espuma dos dias da actualidade política, de grande lucidez e humor.   

domingo, 24 de abril de 2016

o início de A CIDADE DAS FLORES, de Augusto Abelaira (1959)

«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

medindo o peso com que caía

«Ele ficou a ouvir a água a escorrer e, medindo o peso com que caía, umas vezes mais forte, outras mais branda, imaginava o corpo assim reluzente -- e um grande calor lhe acudiu às partes vergonhosas. Quando Tareja voltou, enfeitada com ricos atavios, cheirando a rosmaninho, disse ela:»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982).