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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

leituras de 2014 - #40 A PONTE SOBRE O DRINA

A categoria "romance histórico" está de tal modo gasta e desacreditada, que classificar como tal A Ponte Sobre o Drina (1945), de Ivo Andrić, constituiria um afunilar sem sentido de um grande romance -- um daqueles livros que enformam a cultura europeia e a civilização ocidental.  "Como, ocidental?", perguntarão os mais apressados que saibam do que se trata, "como, se o pano de fundo é a Bósnia, durante séculos otomana, tornada austríaca já muito dentro do século XIX, iugoslava, finalmente, após a Grande Guerra?"
"Ocidental, pois", digo eu, porque se desenrola numa zona de fronteira, em que se entrecruzam e convivem as três religiões do Livro, e porque desde o conceito do limes romano a Europa sempre se construiu no confronto-entendimento com o outro tornado próprio (os chamados bárbaros germânicos são disso a melhor ilustração).
Existe essa ponte (hoje, património da Unesco), mandada construir por Mehemed-Paxá, um antigo janízaro (tropa de elite de infantaria do sultão, recrutada coercivamente por entre as crianças cristãs); um sérvio que se alcandorou a grão-vizir (primeiro-ministro) do Império Otomano, cargo que ocupou durante catorze anos (1565-1579), até à sua morte, e durante a época de ouro imperial turca. Mehemed-Paxá era natural duma aldeia nas cercanias de Višegrad (hoje integrante da República Sérvia da Bósnia), e a ponte edificada torna-se via obrigatória de circulação entre Oriente e Ocidente. Sob a sua égide se desenrola este romance, abrangendo cerca de quatro séculos e uma multiplicidade de histórias de vida: «Muitos, muitíssimos de nós sentámo-nos ali, pousados sobre esta pedra bem talhada e polida, e, perante eternos jogos de luz nas montanhas e das nuvens do céu, desenredámos os fios dos anónimos destinos das gentes da cidade, eternamente os mesmos, mas eternamente emaranhados de uma nova maneira.»  
 A Ponte Sobre o Drina, ao longo da suas 380 páginas, faz-nos reflectir também sobre a acção do tempo, tão corrosiva no que respeita a sistemas de governo e a ideologias e tão lenta no transformar da essência humana, sabiamente reflectida naquilo que o escritor nos dá como «a filosofia inconsciente da cidade: a vida é um milagre incompreensível, porque se consome e dilui sem cessar, todavia continua rija e sólida "como a ponte sobre o Drina".» Andrić (Prémio Nobel de 1961) é um escritor fino, inteligente e brilhante;    5*****

Ficha:
Autor: Ivo Andrić
títuto: A Ponte Sobre o Drina
tradução: Lucia e Dejan Stanković
edição: 3.ª
editora: Cavalo de Ferro
local: Lisboa 
ano: 2013
impressão: não referido
págs.: 384

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

12X25

«pedregosas. Esta tarefa era, na sua maior parte, feita por trabalho forçado. Assim continuou até aos finais do Outono, altura em que foram interrompidos temporariamente os trabalhos e se deu por concluída a primeira fase da construção.
     Tudo isto foi realizado sob a supervisão de Abidagá e do seu longo bordão verde, que entrou no imaginário popular. Quem quer que ele apontasse com o seu bordão, por ter reparado que mandriava ou não trabalhava como devia, era apanhado pelos guardas, que o espancavam no próprio local, e depois, ensanguentado e inconsciente, atiravam-lhe com água fria e ordenavam-lhe que regressasse ao trabalho. Quando, nos finais do Outono, abandonou a cidade, Abidagá mandou convocar nova-»

Ivo Andrić, A Ponte Sobre o Drina [1945], traduçãon de Lúcia e Dejan Stancović, 3.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, 2013, p. 25, ls. 1-12.