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segunda-feira, 6 de julho de 2015

viver habitualmente, antes da catástrofe

Carlos Malheiro Dias, em poucas páginas, dá-nos ambiente de cândida inconsciência e de nefasta irresponsabilidade e alheamento do perigo que se aproximava. Sepúlveda era dos poucos que o percebia.

O envelhecimento do pai de Maria do Céu: do brigão da juventude ao pré-ancião, virado para as coisas do espírito e a avisada administração dos bens: «O seu grande corpo flectia um pouco. Os ombros abaulavam. Mas no seu porte envelhecido acrescera a majestade. [...] a sua vida era quieta e sóbria, como a de um guerreiro arrependido que fez votos.»

A nobreza provincial lembra a que, volvido mais de meio século, vamos encontrar em Agustina, salvo algum desbragamento da moda feminina, da França imperial àqueles recantos de Trás-os-Montes: «As mulheres ataram as mão sobre o penteado francês, desceram-nas, atarantadas, até ao seio impudicamente desabrochado no decote, à moda luxuriosa do Império, e suplicaram aos céus que contivesse ao longe os matadores de Maria Antonieta e da princesa de Lamballe.»

O retrato do regente D. João: na ameaça de uma invasão francesa, Sepúlveda não tinha ilusões. Observa o narrador, fazendo-se eco do íntimo de Sepúlveda: «[...] o que havia a esperar de um príncipe educado entre frades, em coros de convento e sacristias de igreja, e a quem causava náuseas uma hemorragia de nariz [?]» 

Entre uma rainha louca e um regente fraco de ânimo, os padres oravam, os políticos intrigavam, os governantes locupletavam-se, «Lisboa permancecia a mesma cidade, a um tempo pomposa e imunda, empavezada de monumentos e maculada de esterqueiras atravessada por procissões quotidianas e toda tlitante dos carrilhões dos lausperenes.»

quinta-feira, 2 de julho de 2015

um mundo em agonia

O ano é 1807, com recuo de algumas décadas, ao fim do ciclo político de Pombal. O cenário no tempo da narrativa é o distrito de Vila real, senhorios do Corgo e da Torgueda, de que é titular D. António Sepúlveda de Vasconcelos e Meneses, pai de Maria do Céu, que completava vinte anos nesse Outubro, e também a capital do Império.
Carlos Malheiro Dias foi também um cultor da História, logrando situar a acção com grande mestria, sem didactismos ou erudições excessivas. Isto só se consegue quando se é um escritor de mão-cheia, como ele o foi.
Há, neste capítulo inicial, vários grandes momentos. Encontramo-los na caracterização psicológica do belicoso morgado, militarão cujo temperamento o casamento e a paternidade aligeiraram, até à viuvez precoce e as urgências da ameaça napoleónica que se antevia; na deliciosa narração da sociabilidade nobreza da província em ocasiões festivas; no retrato da corte, do bizarro regente D. João, príncipe do Brasil, à nobreza ociosa e à padraria e fradaria parasitária que lotavam Lisboa -- cidade que «vivia entre o rosário e o lupanar.»
Disso vou continuar a falar.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

leitura de 2014 #4 -- A CARTA CONSTITUCIONAL


As circunstâncias rocambolescas da Coroa portuguesa depois da morte de D. João VI (1826), com D. Miguel no exílio, regência da infanta Isabel Maria, império de D. Pedro no Brasil, entourage da rainha viúva Carlota Joaquina... uf!, e o povo de Lisboa, bem guardado, mas na expectativa... 
A circunstância de não se fazer hoje historiografia assim, tão colada ao conjuntural, mesmo quando a pequena história possa espoletar os efeitos mais momentosos e inesperados, a verdade é que o acontecimento, o facto -- ou a percepção que dele possamos ter -- não pode nem deve ser ignorado, nem o papel do indivíduo pode ser subestimado, pesem todas a condicionantes.
Rocha Martins é um excelente exemplo. Os grossos volumes sobre o fim da monarquia são interessantíssimos e até essenciais para se comprovar a temperatura política do tempo. Monárquico liberal, opositor activo ao Estado Novo, estes escritos tinham também um objectivo cívico e político. Repare-se no antetítulo, "Liberdade Portuguesa"; tal como o explicit, nada inocente:  «A Liberdade [com maiúscula...] estava implantada. Cabia aos seus adeptos defender o estatuto que D. Pedro IV outorgara, mas praticando as virtudes que exigem as doutrinas dos homens livres: o respeito pela opiniões alheias, dentro da Lei, e sem ofensa das que professamos. / Só assim existirá o verdadeiro equilíbrio do espírito democrático e liberal.»   3***

Ficha:
Autor: Rocha Martins
título: A Carta Constitucional
colecção: "Cadernos Históricos" #6
edição: Edições Excelsior
local: Lisboa
ano: s.d.
impressão: Tip. Mascote, Lisboa
págs.: 32