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terça-feira, 2 de junho de 2015

o princípio em 1914: «Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos: nada podendo fazer já esperar e coisa alguma desejando -- eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.»

Ao contrário da poesia de Sá-Carneiro, que me comove e/ou entusiasma, a prosa de A Confissão de Lúcio (novela publicada em 1914), é-me quase insuportável, pelos ouropéis e arrebiques -- que, apesar de tudo, estão ausentes deste começo. O estilo envelheceu, envelheceu mal, e cansa-me. Por isso, quando li a novela, fi.-lo com sacrifício. Vou fazer agora mais uma tentativa de passear por ela, acompanhando o infortúnio de Lúcio, acusado de matar o poeta Ricardo de Loureiro (estes nomes, estes nomes!....). E então, o que pretensamente vamos ler será, como diz o narrador-protagonista «um documento», uma confissão, um memorial, um relatório -- expediente bastas vezes utilizado, lembro-me, de repente do Viver!, de Assis Esperança (1921), de O Intervalo, de Ferreira de Castro (póstumo, mas escrito cerca de 1936) e de Manhã Submersa, de Vergílio Ferreira (1954). 
Confesso, por minha vez, que me esforçarei.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

geografias da pobreza: AMANHÃ, de Abel Botelho #6

Os topónimos dos bairros populares e operários, a Lisboa Oriental, cujo eco proletário chegou ainda até nós e persiste como património remanescente duma realidade moderna, as vilas(e também ilhas, que eu, por ignorância, julgava serem exclusivas do Porto, para onde decaíram a "Menina Olímpia e a sua criada Belarmina", de Régio; ou, em continuidade de pobreza, viveu essa brava Leonor de Servidão, o grande romance de Assis Esperança...); agora bairros e guetos sociais, classe média-alta ou festivais de música: Bela Vista, morada de Serafim-Clara e Esticado-Ana, o vale de Chelas, Rua de Marvila, Xabregas, Braço de Prata...
foto: http://musgueirasul.wordpress.com/2013/03/27/origem-da-habitacao-social-1900-ate-1960/

Como a abjecção da pobreza, a miséria,  nessa ilha do Grilo: "Ao longo de toda a 'ilha' alastrava a mesma grossa e vaga escuridão do campo. Apenas, a intervalos irregulares, algumas raras janelas, como vazias órbitas de espectros, radiavam lívidos luaceiros na absorvente espessidão da sombra. O piso, talhado no terreno natural, era um misto traiçoeiro e imundo de restos de comida, objectos de toda a sorte, cacos, barro, cisco, cascalho e lama. Na grande vala longitudinal fermentavam acidamente as podridões. Havia um cheiro acre e nauseabundo, cumulativamente a hospício, a curral e a cemitério. E dessa sórdida promiscuidade animal, dessa fruste aglomeração de miseráveis, subia para a frialdade inerte do ar, dançando nas infectas emanações de caneiro insalubres harmonias, um como surdo verrumar de febre, um atormentado e bárbaro concerto, feito ao mesmo tempo de pragas, risos, lamentações, balidos de cabras, mugidos de vacas, grunhidos de porcos, latidos de cães e choros de crianças."

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

12x25

O senhor Coutinho pretendeu desculpar a esposa. Os negócios corriam mal, e, precisamente nesse dia, fora com muita dificuldade que conseguira juntar os 80 mil reis da despesa diária. Da falta de mercadorias era certo e sabido ressentir-se a «gaveta»...
-- O senhor Morgado não tem querido auxiliar-me... Eu sei agora dum negócio...
-- Lá me obriga novamente o senhor a recomendar-lhe prudência. As hipotecas, não? Deixe-se disso. De resto, o senhor não perde nada em empenhar-se tanto! Eu pouco mais

Assis Esperança, O Dilúvio (1932), 2.ª ed., Lisboa, Guimarães & C.ª, 1947, p. 25, ls. 1-12.