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segunda-feira, 1 de maio de 2017

A SELVA (1930): luta de classes e maniqueísmo

A passagem em itálico não consta da edição inicial. Embora uma certa crítica tivesse papagueado que nos livros de Ferreira de Castro não havia luta de classes, entre outros disparates, Castro terá achado por bem, em edições posteriores, explicitar melhor a natureza das relações económicas do circuito trabalhador-patrão-intermediário. Daqui resulta algum aligeirar do peso da carga predatória do patrão, dado, apesar de tudo como uma peça da engrenagem. Não por acaso. Em Castro é difícil encontrar maniqueísmo. No capítulo anterior, a propósito do famigerado Juca Tristão, concede-lhe um natural estatuto de humanidade, com as suas claridades e as suas sombras: «Era certos que os homens são bons ou maus conforme a posição em que se encontram perante nós e nós perante eles; e falso o indivíduo-bloco, o indivíduo sem nenhum contradição, sempre, sempre igual no seu procedimento.» (Cap. XIV, 32ª ed., pp. 258-259). Esta posição, que é explorada noutros romances, como A Lã e a Neve (1947), faz com que a visão do mundo dada por Ferreira de Castro através dos seus livros fuja ao esquematismo dogmático, intolerante, prisioneiro de uma doutrina determinada e, por conseguinte, não-livre.

«"[...] E se Juca descobrisse? Se descobrisse que fora ele quem fornecera a lima?"
[...] "E se descobrisse?" Os nervos entumeceram-se-lhe numa súbita coragem. "Fizera muito bem! Fizera muito bem!" -- repetiu a si próprio. -- "Aqueles homens já não deviam nada. Há muito tempo que tinham pago, quatro ou cinco vezes mais do que o seu justo valor, tudo quanto haviam consumido. Era uma exploração em cadeia. A casa aviadora explorava Juca, ele, por sua vez, explorava os seringueiros, que eram, no fim, os únicos explorados. Mas Juca podia, ao menos, protestar, enquanto que aos seringueiros nem sequer isso seria permitido."» Cap. XV, 32ª ed., p. 263.(18 de Julho de 2005)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

marginálias

«Apresentando-se como o reverso de uma feminilidade assisada e maternal, provocam atracção e repulsa. Na grande maioria oriundas de famílias operárias e artesãs, fizeram do próprio corpo seu instrumento de trabalho. Algumas foram obrigadas a vender-se para poderem muito simplesmente continuar vivas. As histórias de mulheres sós e abandonadas, com filhos pequenos a morrer de frio e miséria em quartos gelados, que, para sobreviverem, se lançam nas ruas "a fazer a vida" não são meras ficções de folhetinistas. Numa altura em que as classes sociais ganham forma, sem estarem definitivamente cristalizadas, numa altura em que como tão bem demonstrou Louis Chevalier*, as classes trabalhadoras se tornam classes perigosas tendo por fundo uma burguesia que entesoira e começa a querer esbanjar para obter prazer, como sabia fazer, pensa ela, a aristocracia, as prostitutas vêm baralhar as pistas, atropelam as classes sociais, inflamam o imaginário dos homens e fazem recuar as fronteiras do pudor e da respeitabilidade.»

*Classes Labourieuses et Classes Dangereuses à Paris Pendant la Première Moitié du XIXe. Siècle (Paris, 1958).

Laure Adler, A Vida nos Bordéis de França -- 1830-1930 (1990)
(tradução: Maria Assunção Santos)