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terça-feira, 14 de julho de 2015

provocar o burguês

1. Narrativa de alteridade, A Confissão de Lúcio expõe os  fantasmas de Sá-Carneiro, o fraco autoconceito e o desfasamento sexual. Lúcio Vaz, seu alter ego, encontra-se em Paris, nos idos de 1895, a estudar (ou a fazer que estuda). 
O primeiro interlocutor é um vago conhecimento de Lisboa, o escultor Gervásio Vila-Nova, figura excêntrica, sempre à la page com as últimas tendências artísticas,  e de sexualidade equívoca, por quem Lúcio se deixa inicialmente fascinar.  Vila-Nova será uma figuração de uma grande amizade de Sá-Carneiro tivera em Lisboa, Tomás Cabreira Júnior, cujo fim suicidário é imitado por aquela personagem. («Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.»)
Deambula-se pelos boulevards e casas de chá, discutem-se modas artísticas, cultua-se a blague, provoca-se o burguês, com ditos, com as vestes, com a atitude -- provoca-se o leitor burguês de 1914 com descrições de exibições e cometimentos de um erotismo fora da norma, insinuada ou explicitamente homossexuais. 
Uma americana "bizarra", acompanhada de duas jovens "sáficas" tem opiniões (todos aqui, artistas, emitem juízos peremptórios sobre a arte): a arte é voluptuosidade e decide demonstrá-lo numa soirée, para a qual convida Lúcio e Vila-Nova, e  onde o primeiro encontrará o poeta Ricardo de Loureiro. 
Essa soirée, «orgia de carne espiritualizada em ouro!», encenará, com toda a lubricidade para transe colectivo dos circunstantes, as ideias estéticas da perturbante americana, que sensualmente se entrega aos transportes de «uma música penetrante» vestida por jogos de luz -- «eléctrica, evidentemente» --, que faz sensação, mesmo para aqueles «requintados de ultracivilização e arte» como Lúcio, Gervásio e o recém-entrado na narrativa Ricardo de Loureiro. Um parágrafo, quase ao acaso: 

«Quimérico e nu, o seu corpo subtilizado, erguia-se litúrgico entre mil cintilações irreais. Como os lábios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados -- num ouro pálido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismo escarlate a querer dar-se ao fogo.»

Para mim é claro que esta cena da «Orgia de Fogo», como lhe chamou Ricardo de Loureiro, traz os ecos da então esquipática Sagração da Primavera, do Stravinsky, que Diaghilev levara à cena no ano anterior com os seus «Ballets Russes».
Paris será sempre Paris, e em 1895 Oscar Wilde, supremo provocador, ainda estava na cadeia. Não é de admirar que a avidez pequeno-burguesa pelo escabroso se lançasse sobre o livrinho, que parece ter tido alguma saída, como, de resto já acontecera com o Barão de Lavos, de Abel Botelho.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

viver habitualmente, antes da catástrofe

Carlos Malheiro Dias, em poucas páginas, dá-nos ambiente de cândida inconsciência e de nefasta irresponsabilidade e alheamento do perigo que se aproximava. Sepúlveda era dos poucos que o percebia.

O envelhecimento do pai de Maria do Céu: do brigão da juventude ao pré-ancião, virado para as coisas do espírito e a avisada administração dos bens: «O seu grande corpo flectia um pouco. Os ombros abaulavam. Mas no seu porte envelhecido acrescera a majestade. [...] a sua vida era quieta e sóbria, como a de um guerreiro arrependido que fez votos.»

A nobreza provincial lembra a que, volvido mais de meio século, vamos encontrar em Agustina, salvo algum desbragamento da moda feminina, da França imperial àqueles recantos de Trás-os-Montes: «As mulheres ataram as mão sobre o penteado francês, desceram-nas, atarantadas, até ao seio impudicamente desabrochado no decote, à moda luxuriosa do Império, e suplicaram aos céus que contivesse ao longe os matadores de Maria Antonieta e da princesa de Lamballe.»

O retrato do regente D. João: na ameaça de uma invasão francesa, Sepúlveda não tinha ilusões. Observa o narrador, fazendo-se eco do íntimo de Sepúlveda: «[...] o que havia a esperar de um príncipe educado entre frades, em coros de convento e sacristias de igreja, e a quem causava náuseas uma hemorragia de nariz [?]» 

Entre uma rainha louca e um regente fraco de ânimo, os padres oravam, os políticos intrigavam, os governantes locupletavam-se, «Lisboa permancecia a mesma cidade, a um tempo pomposa e imunda, empavezada de monumentos e maculada de esterqueiras atravessada por procissões quotidianas e toda tlitante dos carrilhões dos lausperenes.»

terça-feira, 9 de junho de 2015

uma loba no cio

Um quadro opressivo da infelicidade conjugal: Olímpia desgostava do marido e desgostava-se; mas o desejo por vezes era mais forte. Ela era forte, e como uma loba no cio, chama-o para si. ("Loba" lhe chama o narrador.) Quanto a ele... 

«Simplício levantou-se, rápido, um sorriso a bailar-lhe nos lábios, os olhos acesos de alegria. Postou-se em frente da mulher, hesitante, taranta. Todo ele era tremuras. Ela, sentada, afagou-lhe as pernas, puxando-lhe, ao de leve, as calças de cotim para cima. O homem vai beijá-la, cheio de glória, como no dia do casamento... Senta-se-lhe no colo, acaricia-lhe os longos cabelos sedosos. A casa está toda enfeitada de silêncio. A noite, lá fora, é um abismo de negrura, não há lua no céu, não se ouve o farfalhar das poucas árvores, na planície. Olímpia, de olhos fechados, parece estar longe dali e morde-lhe suavemente a polpa  de uma orelha e ouve-se a sua respiração opressa, os lábios roçando-lhe a nuca, com o seu bafo moreno e apetecido. De súbito, o braço que tenta enlaçar-lhe o busto, nervoso e precipitado, bate no candeeiro a petróleo que se encontra em cima da mesa. O candeeiro cai em estilhas. O estrondo dos bocados de vidro, a chama bravia da torcida no meio do chão da casa, fazem levantar a mulher da cadeira de palha, assustada e repentinamente rancorosa:
--Estúpido! Desajeitado!...»

Antunes da Silva, Suão (1960):


segunda-feira, 17 de março de 2014

a arte a revelar-se por toda a parte

«Flores das mais odorantes em gigantescos jarrões de esmaltada porcelana; a arte a revelar-se por toda a parte, na moldura dos espelhos, nos painéis, nos tectos dourados; emanações balsâmicas a exalarem-se por esses recintos encantados; ao longe, uma música voluptuosa, não sei de que maestro inspirado; e, sobressaindo a tudo, pares animados de muita vida e muito amor, abandonando-se à efervescência das danças, correndo agora numa iriada mistura de cores, para ligeiros se separarem logo debaixo dos olhos curiosos dos que se contentam em ver, esteiados com certo ar estudado ao mármore das colunatas, ou recostados nas voluptuosas otomanas.»

Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (1868)

domingo, 2 de março de 2014

(sábia)

«a mão passava (sábia) pelos quadris e detinha-se no interior das coxas. Ela retorcia-se de gozo. Noite após noite tinha as carícias dele e não sabia se queria manter-se acordada para que o sono lhas não proporcionasse. "Do it, Sam!"»

Filomena Cabral, Um Homem de Sonho -- Play It, Sam! (1986)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

como uma pastilha

«Estava igualmente nua e, como estava inclinada, a sua posição fazia sobressair um belo cu muito redondo, moreno e aveludado, cuja pele fina estava tão esticada que parecia prestes a estalar. Entre as duas nádegas alongava-se o sulco bem fendido e peludo de morena, onde se distinguia o buraco proibido redondo como uma pastilha.»

Guillaume Apollinaire, As Onze Mil Virgens (1907)
tradução: Maria Manuel Moura

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

medindo o peso com que caía

«Ele ficou a ouvir a água a escorrer e, medindo o peso com que caía, umas vezes mais forte, outras mais branda, imaginava o corpo assim reluzente -- e um grande calor lhe acudiu às partes vergonhosas. Quando Tareja voltou, enfeitada com ricos atavios, cheirando a rosmaninho, disse ela:»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982).