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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gineto, grande Gineto

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - 1.3


As mulheres da Feira também se vendem: a Rosette e as colegas, as do "Restaurante das Andorinhas". A Rosete, «de olhos esquisitos como o seu nome», com «a voz mais suave que o canto dos pintassilgos nos valados» embasbacando o sanguíneo Gineto, tão «valentão, como o Tom Mix», apesar da sua pouca idade.
A Feira como libertação fugaz da desesperança quotidiana, como pórtico do sonho. No carrossel, à desfilada, 
                «Gineto fizera-se Tom Mix em pensamento e crava esporas no cavalo, a que chamou Malacara. Dentes cerrados e o lenço ondulando ao vento, cingia nos braços a pálida Rosete, arrebatada aos bandidos. O cavalo saltava muros e esteiros, sem parar. E o Malesso, o Sagui e todos os companheiros do telhal acenavam ao longe, muito ao longe...»
Gineto, o grande Gineto, que paga a volta ao Gaitinhas e rouba uma gaita de beiços para dar ao amigo sem dinheiro. Todos roubam: é o Malesso que rouba, e o Gineto também; são os feirantes que são roubados, pobres como o são os miúdos, num círculo vicioso de carência e chumbo.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

entra Madalena, entra Gaitinhas, entram Maquineta, Arturinho e até o Sr. César, por detrás do seu charuto

Esteiros (1941) - 1.2.
Madalena, ex-tecedeira, tuberculosa irreparável, melancólica e triste pela doença, pela pobreza, pelo afastamento forçado do seu Pedro, ex-empregado de escritório, idealista que perdeu emprego, trabalhando agora longe da família. Madalena angustiada por não ter dinheiro para que o filho continue a estudar, nem para um par de botas ou material escolar -- para João, o Gaitinhas, miúdo sensível, sonhador (sairá ao pai?), feito para um lar feliz que a vida lhe roubaria -- «Manda o nosso filho para a escola. Sem instrução, será um escravo ou um vadio...» -- recomenda Pedro a Madalena, triste mulher do Beco do Mirante, pelo filho que queria ser doutor
Gaitinhas, pois, assim chamado pelo costume de imitar instrumentos musicais; tal como Maquineta (de sua graça, Manuel), pouco esperto mas de uma habilidade de mãos sem igual.
Arturinho, o menino rico que brinca com João; e o pai, o Sr. Castro, ricaço, patrão, capitalista, terratenente, para já previsivel e esquemático por detrás do seu charuto e da sua pouca paciência.
Gaitnhas, da escola para a Fábrica Grande, o mais comovente:
«Amava a vila como ninguém. E, no entanto, a sua infância flutuou entre o beco e o Mirante. Depois é que conheceu as ruas que o levaram à escola. Os outros rapazinhos brincavam lá em baixo, brincavam. Mas ele não deixava o seu castelo de sonho, onde nada lhe faltava, como ao príncipe da história linda que sua mãe contava à beira da enxerga...»