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terça-feira, 11 de agosto de 2015

ver de baixo

3. Ao segundo dia de seminário, o estranhamento e o sofrimento persistem. As impressões visuais e auditivas inscrevem-se na memória do narrador, para sempre: «[...] perto do Seminário, ressoavam as pancadas de um tanoeiro que nunca mais esqueci.» 
O espaço, os objectos, os vultos são, aos olhos daquela criança, exponencialmente ampliados em face da própria pequenez da infância; os condiscípulos, rudes e toscos, como um espelho que o reflecte: 

«Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. Empenados, talhados à podoa, recozidos das soalheiras através das gerações, trazíamos na face negra a nossa condenação. Havia-os baixos, cheirando a terra, com dois pulsos grossos como dois eixos de carro. Havia-os altos, ossudos, com o peito largo encovado. Uns tinham a bola grande do crânio integralmente rapada. Outros, com duras repas de cabelos a enchumaçar-lhes o pescoço, abriam o seu pasmo cavernoso e lento de bichos. De olhar assustado e ferino, de olhar morto de boi, infelizes e inocentes, eu olhava-os como irmãos do fundo do meu sofrer.»

O recolhimento, ao fim do dia, a criança desprotegida, a sós com o seu medo e a sua fragilidade, entrega-se à noite -- «Chorei quanto pude até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.» -- único território de liberdade, que permite a António transportar-se para a memória dos seus entes e dos seus lugares. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

4 ou 5 págs.: O SEGREDO

Uma recordação de infância de Castelao, autor-narrador deste retalho (retrinco), escrito em Santiago de Compostela, em 1909. O pai manda-o chamar, com a mãe, para o pé de si, emigrado galego estabelecido na pampa argentina, e ambos estranham aquele lugar inóspito, quase terra de ninguém, onde funciona o seu entreposto comercial: uma espécie de centro do mundo (daquele mundo), atraindo quantos por lá passam, incluindo os indesejáveis.
Quando, certa noite, um gaucho ricamente ataviado chega ao estabelecimento que era também morada, cães ladrando e cavalos relinchando nervosamente, dá-se um drama inesperado, o da morte desse estranho, caindo redondo mal franqueara a porta. Acodem os homens da casa, depondo o cadáver sobre uma mesa de bilhar. O pai, de saída para contacatar as autoridades, recomenda ao pequeno que guarde segredo, que a mãe não podia saber de nada -- pesada exigência para uma criança que acabara de viver um episódio inusitado. O resto da noite foi de terror, até o pai perguntar se ele queria dormir na cama com os progenitores. No quarto, a mãe, apercebendo-se de luzes e movimento inabitual, interroga o marido que, disfarçadamente, mofa da mulher.
O segredo, nessa noite, pesou à criança como chumbo. Mas enquanto viveram naquele sertão, revelou o narrador-autor, a mãe nunca soube nem teve a evidência de que se alguém ali morresse, ali ficaria, "soterrado com un can."

O incipit: «Tiña eu once anos cando meu pai, que estaba na Arxentina, nos chamou cabo de si; e alá fomos embarcados, a miña nai e mais eu, nun paquete alemán.»

Um parágrafo: «Eu doíame de durmir enriba do mostrador, em compaña do outro dependente. Miña nai, a probe, choraba de verse antre xentes sen relixión. E os dous, feridos de saudade, botábamos de menos a probeza limpa dos meus avós, que xá se tornara azul diante da moura fartura do presente; e no filo en que os nosos ollos se avistaban, desbalsábanse en bágoas.»

Alfonso R. Castelao, Retrincos / un Ollo de Vidro, edição de Manuel Rosales, 2.ª ed., Vigo, Editorial Galaxia, 2002, pp. 49-56.


sexta-feira, 14 de março de 2014

não do frio do vento, não do frio da chuva

«Aquela era uma noite diferente e angustiante. Sim, porque os homens tinham um ar de desassossego e o marinheiro que bebia solitário no Farol das Estrelas correu para o seu navio como se o fosse salvar de um desastre irremediável. E a mulher, que no pequeno cais do mercado esperava o saveiro onde vinha o seu amor, começou a tremer, não do frio do vento, não do frio da chuva, mas de um frio que vinha do coração amante cheio de maus presságios da noite que se estendia repentinamente.»

Jorge Amado, Mar Morto (1936).

domingo, 2 de março de 2014

com os olhos espichados em direcção à cidade

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«Porém de noite não havia brinquedo que o arrancasse da contemplação das luzes que se acendiam na cidade tão próxima e tão longínqua. Se sentava naquele mesmo barranco à hora do crepúsculo e esperava com ansiedade de amante que as luzes se acendessem. Tinha uma volúpia aquela espera, parecia um homem esperando a fêmea. Antônio Balduíno ficava com os olhos espichados em direção à cidade, esperando. Seu coração batia com mais força enquanto a escuridão da noite invadia o casario, cobria as ruas, a ladeira, e fazia subir da cidade um rumor estranho de gente que se recolhe ao lar, de homens que comentam os negócios do dia e o crime da noite passada.»
Jorge Amado, Jubiabá [1935]

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A Noite é uma apavorada

«[...] A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.
Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direcção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga. É necessário soprar as brasas consumidas ao passar da Noite, obter uma primeira, vacilante chama, mantê-la viva até crescer em fogaréu. Sozinha, a Manhã levaria horas para iluminar o Sol, mas quase sempre o Vento, soprador de fama, vem ajudá-la. Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso, quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado? Quem não se dá conta da secreta paixão do Vento pela Manhã? Secreta? Anda na boca do mundo.»

Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá -- Uma História de Amor ([1948] 1976).

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

asas

«Nas estações, nos povoados, acendiam-se as luzes. Ela olhava os focos luminosos surgirem da penumbra do anoitecer como se fossem lampadários postados para ela, só para ela, para iluminarem a sua ressurreição. Em que asas se erguia? Sentia-as na alma, «mas que tenho eu hoje?», tão viçosas e frescas que não ousava tocar-lhes.»

Maria Archer, Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

como se fora nada

«Saberão qualquer coisa sobre o meu fim? Um vestido perfurado por balas, manchado de sangue, um nome riscado nos registos do campo: foi assim que soubemos qual fora o destino de outras desaparecidas na noite.»

Geneviève de Gaulle Anthonioz, A Travessia da Noite (1998)
tradução: Artur Lopes Cardoso

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

à noite

Às vezes, o que se dava sempre durante a noite, quando o bosque invisível, sacudido pelo vento soltava lastimosos gemidos, um ou outro doente, tomado duma angústia mortal, começava a gritar. Acudiam-lhe, geralmente, com rapidez para que ele acalmasse; mas havia ocasiões em que o terror e a angústia eram tão fortes que tornavam ineficazes todos os sedativos -- e o enfermo continuava a gritar. Então a angústia contagiava todos os habitantes da clínica, e os doentes, semelhantes a bonecos mecânicos a que se tivesse dado corda, punham-se a percorrer, cheios de nervosismo, os seus aposentos, ao mesmo tempo que esbracejavam e proferiam coisas estúpidas, ininteligíveis. Todos, incluindo os doentes menos agitados, batiam violentamente nas portas e pediam que os libertassem.

Leonid Andreiev, Os Espectros (1904)
tradutor anónimo