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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

o percurso de Tomé


Órfão sem apelido, nascido no sertão angolano e órfão de mãe aos dois anos; acolhido como um bonequinho pela filha de um comerciante; fiel de armazém quando deixou de ter a graça do pretinho, revolta-se contra a exploração e os maus tratos; saltimbanco; emigrante nessa América racista que lhe dá a conhecer os ritmos do jazz; a bailarino no Roma Clube, descoberto pelo Veiga jornalista; amante de Odette.. 

O tema do racismo, provavelmente novidade entre nós, acaba por ser desperdiçado pelo estilo ligeiro de Mário Domingues. É pena.

(um parágrafo, cap. V)

«Estonteado pelo infernal ruído e pela luz mórbida que pairava no ambiente, o seu cérebro não raciocinava, mal tinha tempo de registar mil e uma impressões díspares, que lhe doíam como mil e uma picadas impiedosas. As notas graves, prolongadas, do saxofone despertavam-lhe na alma ecos gemebundos e doloridos. O movimento vertiginoso do bailado provocava-lhe estranhas ilusões de óptica e via então, obliquadas em sentidos opostos, as linhas perpendiculares da sala, ao mesmo tempo que a horizontalidade das mesas balanceava confusamente, como se o clube fosse um salão de transatlântico que ondas tempestuosas agitassem.»

Mário Domingues, O Preto do «Charleston» (1930)


segunda-feira, 20 de julho de 2015

como farrapo abandonado ao vendaval

Um night club lisboeta, lugar de música & evasão, bailarinos, espanholas ("Carmencita, Paca e Lola...) & transgressão. César faz-se encontrar por Odette. Ele, engenheiro, desportista, cuidador da sua saúde, o habitual "bom rapaz", parece; ela, a costumeira perversa, a "elegante" que vive à custa dos homens, que vive o dia de hoje, que acrescenta pó de coca à ponta dos seus «Abdulas» (marca de cigarros), que experimenta «todos os gozos, até os proibidos, principalmente os proibidos...» 
Até aqui, nada de extraordinário, mesmo num romance de 1930: o bom público pequeno-burguês e/ou provinciano já tinha acesso -- talvez de forma menos explícita --, por via das revistas do tempo (A.B.C., Civilização, Europa, Ilustração), a este mundo pouco conforme ao seu temperamento e à sua bolsa.  
Interessantes são as alusões ao jazz e às suas raízes, às danças contemporâneas e a esse enigmático Tomé:
«Não tardou que Tomé, o preto dançarino, executasse os seu primeiro "charleston" dessa noite, ante o olhar atento e assombrado de alguns mirones que tentavam apreender por que artes mágicas ao tan-tan rítmico do jazz, ele conseguia, sem uma falha na cadência, movimentar as suas pernas bambas, as pernas de trapo, conjugando-as com o balancear desconexo dos braços de pêndula. Era um boneco desarticulado que, movido por um maquinismo oculto, adquiria a flexibilidade de um farrapo abandonado ao vendaval impetuoso daquelas músicas de sertão africano, que floresceram por estranha afirmação de raça nessa Norte América intransigente e severa para com os seus negros.» 
Mário Domingues, O Preto do "Charleston", 1930 (cap. II)

terça-feira, 14 de julho de 2015

provocar o burguês

1. Narrativa de alteridade, A Confissão de Lúcio expõe os  fantasmas de Sá-Carneiro, o fraco autoconceito e o desfasamento sexual. Lúcio Vaz, seu alter ego, encontra-se em Paris, nos idos de 1895, a estudar (ou a fazer que estuda). 
O primeiro interlocutor é um vago conhecimento de Lisboa, o escultor Gervásio Vila-Nova, figura excêntrica, sempre à la page com as últimas tendências artísticas,  e de sexualidade equívoca, por quem Lúcio se deixa inicialmente fascinar.  Vila-Nova será uma figuração de uma grande amizade de Sá-Carneiro tivera em Lisboa, Tomás Cabreira Júnior, cujo fim suicidário é imitado por aquela personagem. («Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.»)
Deambula-se pelos boulevards e casas de chá, discutem-se modas artísticas, cultua-se a blague, provoca-se o burguês, com ditos, com as vestes, com a atitude -- provoca-se o leitor burguês de 1914 com descrições de exibições e cometimentos de um erotismo fora da norma, insinuada ou explicitamente homossexuais. 
Uma americana "bizarra", acompanhada de duas jovens "sáficas" tem opiniões (todos aqui, artistas, emitem juízos peremptórios sobre a arte): a arte é voluptuosidade e decide demonstrá-lo numa soirée, para a qual convida Lúcio e Vila-Nova, e  onde o primeiro encontrará o poeta Ricardo de Loureiro. 
Essa soirée, «orgia de carne espiritualizada em ouro!», encenará, com toda a lubricidade para transe colectivo dos circunstantes, as ideias estéticas da perturbante americana, que sensualmente se entrega aos transportes de «uma música penetrante» vestida por jogos de luz -- «eléctrica, evidentemente» --, que faz sensação, mesmo para aqueles «requintados de ultracivilização e arte» como Lúcio, Gervásio e o recém-entrado na narrativa Ricardo de Loureiro. Um parágrafo, quase ao acaso: 

«Quimérico e nu, o seu corpo subtilizado, erguia-se litúrgico entre mil cintilações irreais. Como os lábios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados -- num ouro pálido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismo escarlate a querer dar-se ao fogo.»

Para mim é claro que esta cena da «Orgia de Fogo», como lhe chamou Ricardo de Loureiro, traz os ecos da então esquipática Sagração da Primavera, do Stravinsky, que Diaghilev levara à cena no ano anterior com os seus «Ballets Russes».
Paris será sempre Paris, e em 1895 Oscar Wilde, supremo provocador, ainda estava na cadeia. Não é de admirar que a avidez pequeno-burguesa pelo escabroso se lançasse sobre o livrinho, que parece ter tido alguma saída, como, de resto já acontecera com o Barão de Lavos, de Abel Botelho.

segunda-feira, 17 de março de 2014

a arte a revelar-se por toda a parte

«Flores das mais odorantes em gigantescos jarrões de esmaltada porcelana; a arte a revelar-se por toda a parte, na moldura dos espelhos, nos painéis, nos tectos dourados; emanações balsâmicas a exalarem-se por esses recintos encantados; ao longe, uma música voluptuosa, não sei de que maestro inspirado; e, sobressaindo a tudo, pares animados de muita vida e muito amor, abandonando-se à efervescência das danças, correndo agora numa iriada mistura de cores, para ligeiros se separarem logo debaixo dos olhos curiosos dos que se contentam em ver, esteiados com certo ar estudado ao mármore das colunatas, ou recostados nas voluptuosas otomanas.»

Álvaro do Carvalhal, Os Canibais (1868)

domingo, 22 de dezembro de 2013

um bolero no rádio

«Aranhiços de barcos corriam sobre o Tejo. Um bolero no rádio enxotou-me aos pulinhos dançados para a porta: agarrei-me ao armário para não ser levado numa enxurrada de bemóis.»

António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)