Mostrar mensagens com a etiqueta «explicit». Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta «explicit». Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A SELVA (1930): fogo e cinza, destruição e regeneração


Última fala do negro Tiago, uma das personagens-chave de A Selva. Antigo escravo, velho coxo a quem os seringueiros tratavam por «Estica», de propósito para ouvi-lo praguejar dolorosamente, a todos proibia a alcunha excepto ao patrão, Juca Tristão, a quem tudo permitia, o que não impediu que o matasse. É Tiago quem lança fogo ao seringal após o aprisionamento de seringueiros fugitivos, de quem Alberto fora cúmplice na fuga, um deles o caboclo Firmino. Capturados por outros seringueiros -- episódio que suscita a Ferreira de Castro um extraordinário trecho --, são amarrados e açoitados no tronco, tal como sucedia, no tempo da escravatura, àqueles que eram apanhados. A passagem acima citada começa com a resposta a um dos seringueiros libertos pela acção de Tiago, um dos que lhe chamava «Estica» e queria agora, muito humanamente, agradecer-lhe o gesto . Um clic tinha-se produzido no velho e submisso Tiago, que se insurge da forma mais extrema. É esta insurreição, a destruição pelo fogo do algoz, que termina o calvário daqueles pobres diabos. A primeira leitura é óbvia: em situações extremas, justifica-se a eliminação do opressor. O que viria a seguir, Ferreira de Castro não nos diz, porque sabemos que a mesma exploração iria continuar, exercida por outrém sobre aqueles trabalhadores. A esperança reside num amanhã redentor, longínquo, mas que há-de vir. Em Novembro de 1929, o escritor terminava assim o seu romance: «O clarão perdia terreno: já não se via o bananal, apagavam-se ao longe os contornos da selva, o rio fundira-se na noite e os troncos cinzentos das palmeiras começavam a vestir-se de luto. Quando chegasse a manhã, derramando da sua inesgotável cornucópia a luz dos trópicos, haveria ali apenas um montão de cinzas, que o vento, em breve, dispersaria...» (Cap. XV, 1ª ed., p. 333)
O vento varre as cinzas dos escombros e limpa o terreiro para o que a seguir virá.

«--Me deixa sua peste! Me deixa já! Não foi por ti nem pelos outros como tu que perdi a minha alma e vou para o inferno! Foi porque seu Juca te fez escravo e aos outros safados que te acompanham. Se estivesse no tronco, como tu, o feitor que me batia lá no Maranhão, eu também matava a seu Juca. Negro é livre! O homem é livre!
[...]
-- Me mande matar, se quiser, branco. Eu já sou muito velho e não preciso de viver mais...» Cap. XV, 32ª ed., p.287. (18 de Julho de 2005)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

curso?

     Afinal, digam-me os senhores com suas luzes e sua experiência, onde está a verdade, a completa verdade? Qual a moral a extrair desta história por vezes salafrária e chula? Está a verdade naquilo que sucede todos os dias, nos quotidianos acontecimentos, na mesquinhez e chatice da vida da imdensa maioria dos homens ou reside a verdade no sonho que nos é dado sonhar para fugir de nossa triste condição? Como se elevou o homem em sua caminhada pelo mundo: através do dia a dia de misérias e futricas, ou pelo livre sonho, sem fronteiras nem limitações? Quem levou Vasco da Gama e Colombo aos convés das caravelas? Quem dirige as mãos dos sábios a mover as alavancas na partida dos sputniks, criando novas estrelas e uma lua nova no céu desse subúrbio do universo? Onde está a verdade, respondam-me por favor: na pequena realidade de cada um ou no imenso sonho humano? Quem a conduz pelo mundo afora, iluminando o caminho do homem? O Meretíssimo Juiz ou o paupérrimo poeta? Chico Pacheco, com sua integridade, ou o comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso?

Final de Os Velhos Marinheiros (1961), de Jorge Amado, Lisboa, publicações Europa-América, 1962.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

vento.

Há coisas, dentro das histórias, que nunca chegam a ser descobertas e decifradas e que passam de uns séculos para os outros no galope dos cavaleiros do vento.

Final de O Cavaleiro do Vento, de José Jorge Letria, Porto, Edinter, 1991.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

...universal.

Os homens com os seus desastres e as suas derrocadas, se souberem realmente lutar e ser sublimes, serão sempre, em todas as circunstâncias, dignos de curiosidade universal.

Final do ensaio de José Bacelar, Da Viabilidade do Romance Português de Interesse Universal, Lisboa, Seara Nova, 1939, p. 123. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

dar.

Volto-me para as minhas listas na esperança de que os sobreviventes literários descubram nelas alguns autores e alguns livros com que se não tenham ainda confrontado, e que recolham as recompensas que só a literatura canónica pode dar.

O fim de O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, trad. Manuel Frias Martins, Lisboa, Temas & Debates, 1997, p. 474.