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terça-feira, 11 de agosto de 2015

ver de baixo

3. Ao segundo dia de seminário, o estranhamento e o sofrimento persistem. As impressões visuais e auditivas inscrevem-se na memória do narrador, para sempre: «[...] perto do Seminário, ressoavam as pancadas de um tanoeiro que nunca mais esqueci.» 
O espaço, os objectos, os vultos são, aos olhos daquela criança, exponencialmente ampliados em face da própria pequenez da infância; os condiscípulos, rudes e toscos, como um espelho que o reflecte: 

«Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. Empenados, talhados à podoa, recozidos das soalheiras através das gerações, trazíamos na face negra a nossa condenação. Havia-os baixos, cheirando a terra, com dois pulsos grossos como dois eixos de carro. Havia-os altos, ossudos, com o peito largo encovado. Uns tinham a bola grande do crânio integralmente rapada. Outros, com duras repas de cabelos a enchumaçar-lhes o pescoço, abriam o seu pasmo cavernoso e lento de bichos. De olhar assustado e ferino, de olhar morto de boi, infelizes e inocentes, eu olhava-os como irmãos do fundo do meu sofrer.»

O recolhimento, ao fim do dia, a criança desprotegida, a sós com o seu medo e a sua fragilidade, entrega-se à noite -- «Chorei quanto pude até que a noite foi minha irmã e eu fui irmão da noite, um diante do outro, calados e de mãos dadas.» -- único território de liberdade, que permite a António transportar-se para a memória dos seus entes e dos seus lugares. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Gineto, grande Gineto

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941) - 1.3


As mulheres da Feira também se vendem: a Rosette e as colegas, as do "Restaurante das Andorinhas". A Rosete, «de olhos esquisitos como o seu nome», com «a voz mais suave que o canto dos pintassilgos nos valados» embasbacando o sanguíneo Gineto, tão «valentão, como o Tom Mix», apesar da sua pouca idade.
A Feira como libertação fugaz da desesperança quotidiana, como pórtico do sonho. No carrossel, à desfilada, 
                «Gineto fizera-se Tom Mix em pensamento e crava esporas no cavalo, a que chamou Malacara. Dentes cerrados e o lenço ondulando ao vento, cingia nos braços a pálida Rosete, arrebatada aos bandidos. O cavalo saltava muros e esteiros, sem parar. E o Malesso, o Sagui e todos os companheiros do telhal acenavam ao longe, muito ao longe...»
Gineto, o grande Gineto, que paga a volta ao Gaitinhas e rouba uma gaita de beiços para dar ao amigo sem dinheiro. Todos roubam: é o Malesso que rouba, e o Gineto também; são os feirantes que são roubados, pobres como o são os miúdos, num círculo vicioso de carência e chumbo.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

entra Madalena, entra Gaitinhas, entram Maquineta, Arturinho e até o Sr. César, por detrás do seu charuto

Esteiros (1941) - 1.2.
Madalena, ex-tecedeira, tuberculosa irreparável, melancólica e triste pela doença, pela pobreza, pelo afastamento forçado do seu Pedro, ex-empregado de escritório, idealista que perdeu emprego, trabalhando agora longe da família. Madalena angustiada por não ter dinheiro para que o filho continue a estudar, nem para um par de botas ou material escolar -- para João, o Gaitinhas, miúdo sensível, sonhador (sairá ao pai?), feito para um lar feliz que a vida lhe roubaria -- «Manda o nosso filho para a escola. Sem instrução, será um escravo ou um vadio...» -- recomenda Pedro a Madalena, triste mulher do Beco do Mirante, pelo filho que queria ser doutor
Gaitinhas, pois, assim chamado pelo costume de imitar instrumentos musicais; tal como Maquineta (de sua graça, Manuel), pouco esperto mas de uma habilidade de mãos sem igual.
Arturinho, o menino rico que brinca com João; e o pai, o Sr. Castro, ricaço, patrão, capitalista, terratenente, para já previsivel e esquemático por detrás do seu charuto e da sua pouca paciência.
Gaitnhas, da escola para a Fábrica Grande, o mais comovente:
«Amava a vila como ninguém. E, no entanto, a sua infância flutuou entre o beco e o Mirante. Depois é que conheceu as ruas que o levaram à escola. Os outros rapazinhos brincavam lá em baixo, brincavam. Mas ele não deixava o seu castelo de sonho, onde nada lhe faltava, como ao príncipe da história linda que sua mãe contava à beira da enxerga...»

quarta-feira, 1 de julho de 2015

como O Grito

«Tomei o comboio na estação de Castanheira, depois que o Calhau deixou de me abraçar.» Vergílio Ferreira, Manhã Submersa (1954)

Relato da subtracção à terra, às raízes, em direcção ao desconhecido, ao seminário, num misto de excitação e apreensão por parte do pequeno António Santos Lopes, o António 'Borralho', alcunha que será embaraço diante dos novos colegas que vão entrando no comboio, entre Castanheira (Melo?, Gouveia?) e a Torre Branca (Fundão).
Comboio, que representa, ainda no apeadeiro, da terra, o irremediável do não-retorno: 
«Fechei a porta, apanhei ainda o último adeus do Calhau e sentei-me para chorar quanto quisesse. Em verdade, eu não gostaria de chorar. Mas, espoliado abruptamente da minha infância, aturdido de solidão, sentia-me quase quase bem dentro do choro.»
Há dois aspectos, para além da elaboração sobre o trauma infantil, que me interessaram: a solidão e a montanha.
Solidão que o protagonista sente rodeado de gente, na despedida da mãe, no meio dos outros seminaristas em viagem, no destino que lhe está reservado; a montanha ( a Serra da Estrela) elo de ligação à terra perdida, «a sua liberdade espacial, [...] o bafo quente de um amor perdido, a flor original de uma alegria morta.»
Solidão, ainda, diante do intimidante edifício do seminário, a sua morada nos anos que se seguiriam, num desespero munchiano: 
«Quieto um momento, no longo pavor da noite, olhei do fundo da minha solidão a mole enorme do edifício e arranquei para a minha aldeia distante um grito de dor tão profundo que só eu o ouvi.»

sábado, 27 de junho de 2015

a féria e a feira: entra Gineto

Gineto é apresentado: o indomável, o revoltado, o aventureiro -- aquele que, avisa o narrador, irá desembocar na marginalidade.
O quadro social é de pobreza extrema, a dos "homens que nunca foram meninos", a quem Soeiro Pereira Gomes dedica o livro.
O escopo do autor vai-se desenvolvendo ao longo deste capítulo inicial: não apenas com a exposição do desvalimento, mas com referência à ilusória pacificação entre classes em fim de temporada e véspera de festança anunciada para regozijo geral; e ainda com a muito marxista alusão à venda da força de trabalho pelo já anti-herói.
Psicologicamente, revela-se também uma característica importante: o mundo é seu, para ele não há propriedade, as vedações não contam; às terras férteis chama.lhe suas («as suas quintas»), e delas se aproveita quando e quanto lhe aprouver. Agora, a caminho da grande diversão anual, hesita: o melhor já fora apanhado, os caseiros e os cães de guarda já não estavam de atalaia; Gineto hesita mas reencaminha-se para a feira -- como se a provável facilidade da transgressão lhe retirasse todo o gozo dela.  

«Desta vez, porém, foi dominado pela Feira. Queria desforrar-se nos cinco dias festivos, sem os berros do mestre e as pancadas do pai. Iria ver os acrobatas do circo; daria tiros ao canhão e passeios nos cavalinhos. E até havia de estancar o ardor do sangue, dentro das barracas de reposteiros vistosos, onde mulheres pintadas vendiam refrescos e beijos. Seria senhor da Feira e do seu destino; livre como um homem. 
Mas era preciso dinheiro, e então ficara no telhal. E, como um homem, vendeu os braços para que o dinheiro tilintasse no bolso das calças.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

sábado, 12 de abril de 2014

4 ou 5 págs. - ELOGIO DO SUBÚRBIO

Criar um mundo num mínimo de espaço com um máximo de literatura é atributo dos grandes cronistas, e António Lobo Antunes é um deles.
Esta é a primeira do primeiro Livro de Crónicas, e o subúrbio  de que fala é Benfica em finais de 1940 inícios de 1950, um lugar recuado da Lisboa de então, fronteira do que, a partir da década seguinte se tornaria, de facto, o subúrbio, com toda a carga que a palavra ganhou.
E nesse país que é a infância -- como escreveu Saint-Éxupéry --, os vizinhos eram característicos, os comerciantes castiços, os amigos eram filhos desse povo que vivia na periferia. Era aí que se iniciava a camaradagem no desporto (no Futebol Benfica) e se começava a olhar de esguelha para as mulheres, as boas mulheres dos outros, inacessíveis a bicos imberbes; era o tempo da clandestinidade dos cigarros, como dos primeiros versos. 
Um país que agora só existe na memória do cronista, sepultado pelos prédios de habitação, do qual só resta um vestígio vegetal, a acácia da quinta da família, ao pé da qual ele, querendo, continua a ouvia a chamada da mãe para o jantar.

Incipit. «Cresci nos subúrbios de Lisboa, em Benfica, então quintinhas, travessas, casas baixas, a ouvir as mães chamarem ao crepúsculo
     -- Víííííííítor
     num grito que, partido da Rua Ernesto da silva, alcançava as cegonhas no cume das árvores mais altas e afogava os pavões no lago sob os álamos.»
Um parágrafo: «O dono da Farmácia união jogava o pau, a esposa do proprietário da farmácia Marques era uma grega sumptuosa de nádegas de ânfora e pupilas acesas, que me faziam esquecer a mulher de Sandokan ao vê-la aos domingos a caminho da igreja, o sineiro a quem chamavam Zé Martelo e que tocava o papagaio Loiro  na Elevação da missa do meio-dia em vez do A treze de Maio obrigatório, possuía uma agência funerária cujo prospecto-reclame começava «Para que teima Vossa Excelência em viver se por cem escudos pode ter um lindo funeral?», e eu escrevia versos nos intervalos do hóquei, fumava às escondidas, uma das minhas extremidades tocava Jesus Correia e a outra Camões, e era indecentemente feliz.»

António Lobo Antunes, Livro de Crónicas, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1998, pp. 13-15.