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sexta-feira, 31 de julho de 2015

O JANTAR DO BISPO

1. Uma obra-prima de Sophia de Mello Breyner Andresen, abre os Contos Exemplares (1962).

início: «A casa era grande, branca e antiga.»

Os primeiros períodos caracterizam a casa a sua situação e, indirectamente, a condição social, abastada, dos seus proprietários, contrastando com as «pequenas casas dos pobres», nas cercanias.

Pelo meio, uma poética verdadeiramente telúrica, geológica, que, pela orografia, indica situar-se a acção no Norte do país:

«Nas vertentes cavadas em socalcos crescia a vinha. Quanto mais pobre é a terra, mais rico é o vinho. O vinho onde, como num poema, ficam guardados o sabor das flores e da terra, o gelo do Inverno, a doçura da Primavera e o fogo dos Estios. E dizia-se que o vinho daquelas encostas, como um bom poema, nunca envelhecia. [...]»

28-VII-2015 (continua)

2. O nó deste conto é um padre, pároco de Varzim, a quem não é alheia a sorte dos paroquianos desfavorecidos, e nessa perspectiva desempenha o seu múnus sacerdotal. O que desagrada acerbamente ao "Dono da Casa", cabeça senhorial e herdeiro de várias gerações de donos da terra, servidos por essa gleba que está no centro da preocupações do vigário. A designação deste é uma evidente homenagem de Sophia ao Padre Abel Varzim, homem da Igreja que vindo do círculo do Estado Novo, dele se afastou, com os consequentes agravos e perseguições que viria a sofrer.
Este pôr-se do lado dos mais pobres é sentido como ameaça pelo Dono da Casa -- ameaça ao statu quo, à própria autoridade. Num diálogo discordante entre ambos, o padre replica ao senhor de forma exemplar:
     «[...] O problema que estamos a discutir é meu, é do mundo, é um problema material e prético.
     Da nossa própria fome -- respondeu o Padre de Varzim -- podemos dizer que é um problema materia e prético. A fome dos outros é um problema moral.»
     Como não encará-lo como ameaça, como «semente de guerra»? O Bispo é, pois, covidado a jantar pelo Dono da Casa.

31-VII-2015 (continua)

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do bispo», Contos Exemplares [1962], 3.ª ed., Lisboa, Portugália, 1970, pp. 5-78.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

leituras de 2014 - #43 80 Poemas de Emily Dickinson

Versão de Jorge de Sena, creditada às suas «Obras», com uma magistral «Introdução», apanágio dos trabalhos críticos e ensaísticos do grande escritor.
A poesia de Emily Dickinson (1830-1866) é breve, por vezes quase aforística, e essencial, lembrando, em certas ocasiões -- e embora mais negra -- a de Sophia de Mello Breyner Andresen.
A biografia de Emily Dickinson pouco mais regista além da vivência sem história ("Great Streets of silence led away / To Neighbourhoods of Pause", c.1870)  numa pequena cidade da Nova Inglaterra, ao contrário duma tumultuosa inquietação interior, que surge a cada passo ("This is my letter to the World / That never wrote to Me", c.1862) : as interpelações descrentes a Deus ("Heavenly Father [...] / We apologize to thee / For thine own Duplicity --" c.1879); a incómoda rasura da diferença ("Assent -- and you are sane -- / Demur -- you're straightway dangerous -- / And handled with a chain -- ", c.1862); a ausência do amor ("Wild Nights -- Wild Nights! / Were I with thee / Wild Nights should be / Our luxury!", c.1861)."Your thoughts don't have words everyday", escreveu num apontamento, por volta de 1861, reflectindo esse acontecer do(s) poema(s) por entre a verdejante calma aparente numa casa de família em Amherst, Massachusetts, em que viveu praticamente na obscuridade e ignorada dos seus contemporâneos. 
Há mais mundo na cabeça dum grande poeta do que em qualquer grand tour que um medíocre de ontem e de hoje possa fazer.   5*****

Ficha:
Autor: Emily Dickinson
título: 80 Poemas de Emily Dickunson
tradução e apresentação: Jorge de Sena
nota preliminar: Mécia de Sena
colecção: «obras de Jorge de Sena»
editora: Edições 70
local: Lisboa
ano: 1970
impressão: Guide-Artes Gráficas, Odivelas
capa: A. Saldanha Coutinho
obs.: edição bilingue
págs.: 211

sábado, 29 de março de 2014

4 ou 5 págs. - VILA D'ARCOS

Breve texto de 1972. Uma vila de província, uma dessas terras fora do tempo e do mundo. Ruas com pouco movimento, casas antigas -- em Sophia "nobres mesmo quando pobres" --, mulheres de negro, vultos à janela, pessoas poucas, automóveis ainda menos. E verde, muito verde, também dos "jardins imprevistos", "docemente abandonados a uma solidão dançada pelas brisas, enquanto um longo sussurro de adeus acena de folha em folha nos ramos mais altos das árvores." Jardins que albergam o sonambulismo da vida, mesmo quando o sono de existir é perturbado por "aparições prodigiosas como o lírio, a águia e o inesquecível rosto amado com paixão"; jardins onde se encara o próprio mistério da existência.

O incipit: Vila d'Arcos fica ao Norte, um pouco para Leste, numa região de montanhas.»
Um parágrafo: «É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.»


1972

Sophia de Mello Breyner Andresen, Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984, pp.113-117.

quarta-feira, 12 de março de 2014

4 ou 5 págs.: RETRATO DE MÓNICA

Retrato desapiedado duma mulher fútil que vive, não para os outros, mas que se alimenta dos outros, do que consegue extrair dos outros em benefício próprio, o que é muito pouco cristão -- ou nada cristão. A história integra os Contos Exemplares (1962), a primeira incursão de Sophia na ficção adulta, prefaciada pelo célebre bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, e está impregnada de ética cristã, de catolicismo social e inconformista.
Para Mónica, tudo está bem como está, cada coisa no seu lugar -- e ela voga no status quo, serve-se dele para brilhar, para ofuscar na sociedade de ouro falso dos interesses, das convenções, dos negócios. E, por isso, tudo (lhe) serve: do casamento (espécie de sociedade) à caridade, que lhe amplifica a bondade, passando pela cumplicidade com o "Príncipe deste Mundo", numa nada velada alusão a Salazar, "um homem austero e casto".

O incipit: «Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultâneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, daitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.»

Um parágrafo: «É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares, 3.ª edição, Lisboa, Portugália, 1970, pp. 113-120.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

como num poema

«Nas vertentes cavadas em socalco crescia a vinha. Era ali a terra pobre donde nasce o bom vinho. Quanto mais pobre é a terra, mais rico é o vinho. O vinho onde, como num poema, ficam guardados o sabor das flores e da terra, o gelo do Inverno, a doçura da Primavera e o fogo dos Estios. E dizia-se que o vinho daquelas encostas, como um bom poema, nunca envelhecia.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O Jantar do Bispo», Contos Exemplares (1958)

domingo, 27 de outubro de 2013

um parágrafo d'A FADA ORIANA

Cá fora já anoitecia. A fada pôs-se a caminho da torre do Poeta. A torre ficava longe e o caminho era selvagem, cheio de picos e de pedras. Oriana caminhava cortando a cada instante os seus pés. Não se ouvia cantar nenhum pássaro, não se via correr nenhum coelho, não se via aparecer nenhum veado com o seu ar majestoso e os olhos húmidos de doçura. Em toda a floresta pairava o silêncio, o abandono, a solidão. Quando Oriana chegou à torre, era já noite fechada. E ela levava os pés em sangue e o coração pesado.

Sophia de Mello Breyner Andresen, A Fada Oriana [1958], Porto, Livraria Figueirinhas, s.d. ; ilustrações: Natividade Corrêa.