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quinta-feira, 24 de julho de 2014

leituras de 2014 - #38 A HISTÓRIA DE BABAR



Historinha simples e ingénua, reflecte bem o que em 1931 se fazia para crianças: um elefantinho foge da floresta, após a mãe ser abatida por caçadores, desembocando em Paris (!), onde é acolhido por uma senhora muito rica que o trata como um menino. O melhor de tudo é mesmo o traço e os tons suaves de Brunhoff, deliciosamente de época.  3***  

ficha:
Autor: Jean de Brunhoff
título: A História de Babar, o Pequeno Elefante
tradução: Heloisa Prieto
editora: Schwarcz
local: São Paulo
ano: 1997
impressão: Prol Editora Gráfica
págs.: 30

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Leituras de 2014 #37 - IMAGENS DA OBRA DO PADRE MANUEL BERNARDES


Esta colectânea, apresentada e organizada por Lucília Gonçalves Pires, destina-se principalmente a estudantes; mas à falta de edições acessíveis decentes (ou mesmo indecentes) dos nossos autores canónicos, acaba por ter o leitor comum interessado como destinatário. E creio que cumpre a função como introdução à obra do Padre Manuel Bernardes (1644-1710), um exímio cultor da língua, passe o lugar-comum.
Porque faz sentido ler Bernardes em 2014? Pela mesma razão que não nos dispensamos de  ver a pintura de Sequeira ou de ouvir as sonatas de Seixas. O grande estilo não prescreve, e, tratando-se prosa edificante e religiosa, é irrelevante o sermos ateus, mesmo que o assunto seja Deus, o Diabo e a Virgem Maria, a salvação ou a condenação, Paraíso ou Inferno. Pelo contrário, se dotada de sincera profundidade, o supremo gozo do leitor é o de assistir à exímia arte da escrita desenrolar-se diante dos olhos, ao sábio dosear dos recursos de estilo, por forma a manipular o leitor ou o ouvinte. Atente-se neste exemplo retirado dos Exercícios Espirituais (1686), em que o autor procura definir Deus, terminando por admitir o aparente fracasso:
«[...] Deus é um supremo Senhor, de infinita majestade e perfeição, de infinita sabedoria, poder e santidade, o qual só de si mesmo é compreendido. É uma luz escuríssima por sua muita claridade, um abismo de perfeições, quanto mais conhecidas mais ignoradas, um ser eterno e incomutável, fonte de todo o ser criado. A Eternidade é o seu século, a Imensidade o seu trono, a Omnipotência o seu ceptro. Dentro de si, mora e vive uma vida felicíssima, sem princípio, sem fim, sem novidade, sem defeito, sem mudança. É Monarca independente, absoluto Senhor, Pai amoroso, de cuja bondade e glória comunicada estão cheios os Céus e a terra. Este é Deus, ou para dizer melhor, este não é Deus, porque Deus não é o que na palavra ou pensamento nem humano nem angélico pode caber. [...]»
Bernardes era também um grande narrador: os seus textos exemplares são construídos para prenderem o leitor/ouvinte, como se se tratasse duma obra de recreação profana e não aquilo que efectivamente pretendem ser: instrumentos para a salvação da alma.  4****

ficha:
Autor: Pe. Manuel Bernardes
título: Imagens da Obra do Padre Manuel Bernardes
edição: Lucília Gonçalves Pires
colecção: «Textos Literários» [#1]
editora: Seara Nova
local: Lisboa
ano: 1978
impressão: ELO, Mafra
págs.: 145

domingo, 20 de julho de 2014

leituras de 2014 - #36 CASCAES

Capítulo de Sem Passar a Fronteira (1902),  é exemplo acabado de literatura nula, puxada ao pitoresco e ao anedótico. Por alguma razão Pimentel (1849-1925), polígrafo de dezenas de títulos, jaz justamente na vala comum dos escritores dispensáveis, lembrado apenas (e bem) para arqueologia camiliana, que da privança com o autor do Amor de Perdição nos deu alguns livros, incluindo uma das primeiras biografias do génio de Seide, e pouco mais.
Neste capítulo, dividido em quatro partes, apenas se aproveita uma curiosa descrição da antiga Calçada da Assunção (actual rua Marques Leal Pancada), a passagem pela porta do castelo, a evocação do 1.º marquês de Cascais e uma anotações importantes sobre a doçaria do sítio (que por acaso é a minha terra). O resto é penoso de tão inane.  1*

ficha:
Autor: Alberto Pimentel
título: Cascaes
colecção: «Memória de Cascais» #8
editora: Câmara Municipal de Cascais
local: Cascais
ano: 2000
impressão: Gráfica Europam, Mem Martins
págs.: 51

sexta-feira, 18 de julho de 2014

leituras de 2014 - #35 NOTAS DE RODAPÉ

O autor não é apenas professor de Literatura (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), como tem a particularidade de gostar dela, a Literatura -- o que nem sempre sucede --, e, o que é mais, sabe transmitir pedagogicamente essa paixão.
Estas Notas de Rodapé serão tal, na sua designação humilde, se nos reportarmos ao seu objecto: a grande literatura -- brasileira, principalmente, mas também portuguesa e de além-língua. Borges, Calvino e Eco, por exemplo, são abundantemente citados ao longo do livro, muitas vezes em epígrafes. Acontece que estas crónicas, publicadas na imprensa, foram escritas com o gosto de comunicar com os alunos e todos quantos pretendem aventurar-se no bosque da ficção. E, nesse aspecto, é excelente para aqueles leitores menos experientes, perdidos nos labirintos do mercado, nivelando ou soterrando os clássicos de ontem e de hoje na avalanche da subliteratura parida a esmo pela indústria editorial.
"Devaneios de um leitor solitário", subtitula Tôrres Freire o seu livro, desta forma despretensiosa e aparentemente leve, fazendo pontes para a História ou o Cinema, conduzindo sabiamente e dando ferramentas ao leitor interessado em distinguir o trigo do joio. Quase todos os Grandes brasileiros estão lá; e enquanto leitor português apreciei os textos consagrados a Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, José Saramago e António Lobo Antunes.  4****

ficha:
Autor: José Alonso Tôrres Freire
título: Notas de Rodapé
subtítulo: Devaneios de um Leitor Solitário
apresentação: Rosana Cristina Zanelatto Santos
editora: Editora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
local: Campo Grande
ano: 2014
impressão: PROPP/UFMS
capa: ilustração de Liana Valle
págs.: 170

quinta-feira, 10 de julho de 2014

leituras de 2014 - #34 BLACKSAD

Lembremos as sombras de Alack Sinner e a virulência de Torpedo 1936. Vamos encontrá-las em Blacksad, com a particularidade de os episódios de violência, sexo & outros vícios serem protagonizadas por personagens antropomorfizadas, saídas do lápis de um desenhador da Disney -- e Guarnido foi-o, em tempos. Do meu conhecimento, havia  Canardo, que já entrara por aí; mas o pato era uma espécie de Columbo de penas, um pouco mais ébrio e atrevido. Claro, que o autor que mais longe levou o antropomorfismo na 9.ª arte adulta foi Art Spiegelman, mas estamos a falar doutro universo e doutro patamar.
Esta co-edição Público / Asa inclui os dois primeiros álbuns da série, Algures Entre as Sombras  (2002) e Arctic-Nation (2003): a primeira, passada em Nova Iorque, trata de um crime de assassínio de uma (eu ia escrever mulher...) fêmea de arromba, actriz que em tempos tivera um caso com o próprio Blacksad, seguindo a preceito os clichés do policial negro norte-americano. A Grande Maçã como uma Patópolis de ganância, desvio e luxúria. A segunda narrativa, é uma incursão muito conseguida no asfixiante universo das subterrâneas organizações racistas.   4****

ficha:

Autores: Guarnido & Dáz Canales
título: Blacksad -- Algures Entre as Sombras / Arctic-Nation
prefácio: Régis Loisel
apresentação: Carlos Pessoa
tradução: João Figueiredo Silva
colecção: «Grandes Autores de banda Desenhada» #3
editores: Público e Edições Asa
local: Porto
ano: 2008
impressão: SOCTIP
págs.: 104


domingo, 6 de julho de 2014

leituras de 2014 - #33 AS VIAGENS DE FILINTO

Testemunho romanceado da vida de seminarista que o autor conheceu na juventude. A meu ver, a leitura fará mais sentido encarada como relato memorialístico do que como ficção, apesar de existirem elementos ficcionais (e até de fantástico, como um viajante no tempo sob o qual a narrativa se estrutura). O subtítulo, Memórias de uma Estranha Primavera, é, aliás, bastante claro.  
Um aspecto interessante do livro é o da não coincidência com outros textos de temática idêntica sobre a vida nos seminários, habitualmente mais negros. Não que o trauma não esteja presente -- nada mais natural num universo disciplinador vivido durante a adolescência; porém, a narrativa é destituída dos episódios escabrosos que à partida aguardamos, quando se trata de seminários ou internatos. (Preconceito, ou sorte de quem viveu esta história concreta?) Há passagens particularmente interessantes, entre as quais destaco as que giram em torno do afastamento da casa e da família, das saudades lancinantes, que afloram como a mais dolorosa provação de Filinto, ou seja, o autor.   3***

ficha:
Autor: Fernando Faria
título: As Viagens de Filinto
subtítulo: Memórias de uma Estranha Primavera
colecção: «Viagens na Ficção»
editora: Chiado Editora
local: s.l.
ano: 2012
impressão: Break Print
ilustrações: Jorge Larguito e Salanga Ricardo
capa: Prasad Silva
págs.:233

quinta-feira, 3 de julho de 2014

leituras de 2014 - #32 LAZARILHO DE TORMES

Livro anónimo do século XVI, Lazarilho de Tormes  inaugura uma das marcas distintivas da literatura espanhola, a novela picaresca.
Lázaro, um habilidoso mal-nascido, sustenta-se como criado de diversas figuras-tipo, normalmente mais malandras do que ele, e que se vão sucedendo: um cego, um clérigo, um escudeiro, um frade, um proclamador de bulas, um capelão e um aguazil. Com excepção do escudeiro, pobre fidalgote que tudo faz para ocultar a miséria do seu estado, os outros sevandijas exploravam Lázaro, sem piedade. Mas, para velhaco, velhaco e meio, acabando, no final, o anti-herói por levar a melhor, ou quase, conseguindo uma colocação como pregoeiro em Toledo.
Livro subversivo, satirizando clero, nobreza e o funcionalismo emergente, não é de estranhar que o autor tenha querido usar de prudente reserva de identidade, nesse ano de 1554.
Impressionou-me sobremaneira o tema obsidiante da fome, que perpassa pela quase totalidade da novela: a fome que exaspera sempre Lazarilho, e também alguns dos seus amos. Desventuras de um esfomeado seria um subtítulo apropriado.
Há, ainda, um prefácio de Gregorio Marañon, que detestava a novela picaresca, não por ser má literatura, mas pelo que, no entender do ensaísta, deformava, não apenas a alma  espanhola -- pela amoralidade e apologia do comportamento desviante --, como também pela imagem distorcida que dos espanhóis passava além-fronteiras.  3***

ficha:
Autor: Anónimo
título: Lazarilho de Tormes
prefácio: Gregorio Marañon
tradutor: Ricardo Alberty
colecção: «Livros RTP» / «Biblioteca Básica Verbo» #44
editora: Editorial Verbo
local: Lisboa
ano: 1971
impressão: Gris Impressores, Lisboa
págs.: 148

segunda-feira, 30 de junho de 2014

leituras de 2014 - #31 A HISTÓRIA DO PEDRITO COELHO

Só em adulto conheci o famoso Peter Rabitt, e creio que através do merchandising, em primeiro lugar. Foi quando comprei os primeiros livrinhos para a minha filha mais velha que entrei no mundo encantado de Beatrix Potter, autor completa que ilustrava o que escrevia, com desenhos que evocam uma englishness ainda vitoriana.
Do Pedrito Coelho, ficamos a saber que é um traquina. A mãe mandara os filhos apanhar amoras, recomendando que se afastassem do quintal do senhor Gregório -- o mesmo que apanhara o pai, transformando-o em empadão. Está-se mesmo a ver que foi precisamente para aí, e ao contrário dos irmãos obedientes, que o làparozito se dirigiu... Das peripécias que se seguiram, extraiu-se, no fim, uma moral com exemplo: enquanto à noite os irmãos comiam pão, leite e amoras, o coelhinho rebelde dormia exausto por uma jornada atribulada quer certamente não quis repetir.
O texto do editor, na badana, assegura que "Estes livrinhos deviam figurar entre os primeiros que qualquer criança possui [...]." O editor tem razão.   5*****

Ficha:
Autora: Beatrix Potter
título: A História do Pedrito Coelho
tradução: Maria Isabel de Mendonça Soares
"Colecção Pedrito Coelho" #1
editora: Verbo
local: Lisboa
ano: s.d.
impressão: omisso (Grã Bretanha)
págs.: 59  

sábado, 28 de junho de 2014

Leituras de 2014 - #30 O MARSUPILAMI NEGRO

O Marsupilami é uma das mais geniais criações da BD, em qualquer latitude. Congeminado por André Franquin, em 1952, para a série Spirou, dela o retirou quando deixou de trabalhar nas aventuras do jovem groom  belga. Franquin, autor também, e entre outros, do único e inimitável Gaston Lagaffe e da série de humor lúgubre Ideias Negras, avançou com uma série autónoma desta criatura magnífica, originária da selva da Palômbia, república sul-americana ficcional.   
O Marsupilami fez muita falta às histórias de Spirou e Fantásio, pois tornara-se numa importante personagem secundária, coadjuvante deste émulo de Tintin. A série independente tornou-se mais infantil, porventura assumidamente. Nesse aspecto, O Marsupilami Negro (Mars le Noir, 1989) é altamente recomendável para iniciar os mais novos num universo que nunca mais deixa sair quem lá alguma vez logrou entrar.  3***

Ficha:
Autores: Franquin, Batem e Yann
título: O Marsupliami Negro
tradução: Catarina Labey
colecção: «Marsupilami» #3
editora: Edições Asa
local: Porto 
ano: 2004
impressão: Grafiasa, Rio Tinto
págs.: 48

terça-feira, 24 de junho de 2014

leituras de 2014 - #29 GENTE FELIZ COM LÁGRIMAS


Quando é que percebemos que um romance é um grande romance? Quando ao fim das primeiras vinte ou trinta páginas verificamos duas coisas: o autor dando muito (ou tudo...) de si, dádiva que recebemos por vezes até com algum pudor; e quando o estilo é um profundo e honesto trabalho sobre a escrita, muitas vezes na corda bamba, pois a literatura com L tem de estar sempre  nesse patamar elevado em que o autor a si próprio se desafia. 
Vem isto a propósito do romance de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988), saga (ou anti-saga) duma família açoriana. Irmãos com infâncias fechadas e trabalhosas, tiranizadas pelas idiossincrasias paternas; a saída da ilha (uma fuga, no fundo), seminário e convento, guerra em África, emigração para a América, desenraizamento. Alguns triunfos com amargos de boca, na escrita ou na vida. A narrativa flui a várias vozes, a personagem principal, Nuno, seminarista expulso, depois professor e escritor; mas também alguns irmãos, cada um dando a sua perspectiva ao leitor; Nuno e Marta, depois, (ex-)marido e (ex-)mulher; e Nuno e o seu duplo, Rui Zinho, pseudónimo com que assina a obra literária.
É um dos grandes romances portugueses do século XX, de extrema poeticidade, elaborando sobre a passagem do tempo, onde, apesar das lágrimas, se vai à procura de alguma felicidade imaginada, construída para além dos traumas. 5*****

Ficha:
Autor: João de Melo
título: Gente Feliz com Lágrimas
colecção: «Mil Folhas» #29
editora: Público
local: Porto
ano: 2002
impressão: Printer, Barcelona
págs.: 415


terça-feira, 10 de junho de 2014

leitura de 2014 - #28 HAVIA

Conjunto de narrativas breves, todas começadas pelo pretérito imperfeito do verbo haver. A capa desafia logo o leitor, seguindo-se a apresentação da autora («Havia uma escritora de contos curtos onde não cabiam narrativas compridas.») Por aqui se nota o ludismo, o brincar com as palavras e os conceitos, a inventiva que atravessa todo o livro, o jogo com o absurdo -- aliás, o primeiro conto começa assim: «Havia um absurdo que não ouvia nada bem» Por vezes, quando tudo parece resolvido e com final feliz ou edificante, dá-se uma reviravolta na página seguinte, com remate ora irónico, ora malicioso, por vezes sardónico... como sucede com aquela cidade desconhecida: «Havia uma cidade que ninguém conhecia porque permanecia anónima. Um dia um paparazzo apanhou-a nua, num barco de férias, ao lado do presidente da câmara da cidade rival. Ficou logo famosa.» (p. 34)   4****

ficha:
Autora: Joana Bértholo
título: Havia
subtítulo: Histórias de Coisas que Havia e de Outras que Vai Havendo
local: Lisboa
editora: Caminho
ano: 2012
impressão: Mirandela - Artes Gráfica
ilustrações: Daniel Melim
capa: Rui Garrido
págs.: 168
tiragem: 1000

segunda-feira, 9 de junho de 2014

leituras de 2014 - #27 RESISTÊNCIA DA POESIA

Resistência a quê? À banalização, à grandiloquência, ao onanismo autocomiserativo, à prostituição da palavra e do sentido. A poesia basta-se na sua precisão e comunica-se apenas disso. Para Nancy, a poesia, degradada de sobresignificação, «pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia.» Um curto ensaio, «Fazer, a poesia», esplêndido, e uma entrevista, «Contar com a poesia».
O melhor de tudo: «"Poesia" não tem exactamente um sentido, mas antes o sentido do acesso a um sentido a cada momento ausente, e transferido para longe. O sentido de "poesia" é um sentido sempre por fazer.»  4****

ficha:
Autor: Jean-Luc Nancy
título: Resistência da Poesia
tradução: Bruno Duarte
local: omisso
editora: Vendaval
ano: 2005
impressão: Tipografia Guerra, Viseu
págs.: 44

leituras de 2014 - #26 A REDENÇÃO DAS ÁGUAS


Os últimos anos de D. João V, em deslocações regulares às Caldas da Rainha (de onde o autor é natural), para enfrentar um mal que o deixara semiparalizado, talvez um avc. Um bom pretexto para falar-se do lugar, a que se junta uma história de amor entre Pedro Fontes, escudeiro do infante D. Manuel, irmão mais novo do rei e Sara, uma filha ilegítima d'o Magnânimo -- o episódio mais eminentemente ficcional do livro, pois trata-se de romance histórico.
Neste aspecto, a pesquisa parece-me ter sido muito conseguida, não faltando o episódio de conspiração (ou alucinação visionária de um certo Pedro de Rates Henequim, personagem verídica, sentenciada pela Inquisição), que procurara fazer do infante D. Manuel um futuro imperador do Brasil, como forma de instaurar o V Império bandarro-vieirino.
O mais interessante da narrativa é a solidão do rei absoluto diante da doença e da aproximação da morte. Menos interessante, para mim, a história de amor, central, prejudicando, talvez, alguns aspectos que gostaria de ter visto mais desenvolvidos. 3***

ficha:
autor: Carlos Querido
título: A Redenção das Águas
subtítulo: As Peregrinações de D. João V à Vila das Caldas
edição: Arranha-céus
local: Lisboa
ano: 2013
capa: Elisabete Gomes / Silva Designers
impressão: Europress, Lisboa
págs.: 219
titagem: 1000

sexta-feira, 9 de maio de 2014

leituras de 2014 - #24 BARRANCO DE CEGOS


Barranco de Cegos (1961) conta o fim de um tempo, entre o Ultimato inglês (1890) e o pós-5 de Outubro de 1910, e revela-nos uma família de grandes lavradores ribatejanos, cujo chefe é uma personagem inesquecível: Diogo Relvas, homem excessivo, cruel e reaccionário, fiel a uma tradição agrária que vê na terra as virtudes ancestrais duma nação, e no desenvolvimento industrial a condenação da pátria, motivada pela cupidez e pela ambição de poder de uma elite cega -- cegos conduzindo cegos, uns e outros na iminência de caírem num barranco, de onde dificilmente se sairá. Relvas carrega consigo o peso dos antepassados, regendo-se por uma ética abstracta, inflexível quanto ao essencial -- a manutenção do poder: simbólico, através dos cerimoniais do mando, e de facto,  pela posse efectiva do agro; inflexível no essencial, moderadamente maleável quanto a questões mais prosaicas. As restantes personagens, em especial os filhos, órfãos de mãe, débeis, volúveis -- um deles esmagado pelo peso excessivo do progenitor --, as duas filhas, Milai e Maria do Pilar, fortes e marcadas, complexas no lidar com o patriarca, dão profundidade ao romance. Outras personagens secundárias, em especial as populares, são também fundamentais; mas esta é uma história de senhores, homens senhores doutros homens.
No prefácio que escreveu em 1964, Mário Dionísio, que não era de elogio fácil e se afastara já do PCP, não hesita em classificar o livro como "um dos grandes romances de toda a nossa história literária".
Barranco de Cegos é, com efeito, literatura da boa, da que conta, da que interessa, da que constrói identidade, da que dá substrato à comunidade de que emana -- e também da que experimenta, da que burila, da que arrisca. Para além de todas as classificações que cada vez fazem menos sentido, a não ser numa abordagem historiográfica, trata-se de neo-realismo, e do melhor -- isto é: não evidenciando a vulgata que simplifica e sectariza, é suficientemente amplo para ser subscrito por todos quanto comungam de preocupações afins, sem que com isso o autor traia (e se traia) o escopo ideológico que lhe subjaz. O final do romance, magistral, traz-nos uma atmosfera que dir-se-ia paralela à do realismo mágico, que o recém-falecido Gabriel García Márquez consagraria anos mais tarde.
Redol é, sempre foi -- mesmo no inaugural Gaibéus (1939) -- um romancista de raça, um criador de mundos, de atmosferas, de personagens de carne e osso. Barranco de Cegos evidencia-o de tal forma que -- para desgosto de alguns cadáveres -- se inscreve duradouramente no nosso cânone literário.   5*****

Ficha:
Autor: Alves Redol
título: Barranco de Cegos
editora: Edições Avante!
local: Lisboa
ano: 1982
(ano da 1.ª edição: 1961)
impressão: Guide-Artes Gráficas, Lisboa
ilustrações: Jorge Pinheiro
págs.: 414
tiragem: 5000

domingo, 4 de maio de 2014

leituras de 2014 #23 - ALDEIA DAS ÁGUIAS

Tinha alguma expectativa em relação a este livro. Nunca lera nada do autor -- à parte alguns artigos ou contos dispersos --, é talvez o único título seu que não caiu em esquecimento completo, mercê do Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências que lhe foi atribuído em 1939, ano da edição. Andava com ele  há anos na cabeça: Aldeia das Águias, título sugestivo, evocando com a literalidade que nome e capa impunham -- e que veio a verificar-se --, uma narrativa situada numa área semi-isolada, em faldas e escarpas duma província nortenha.
À medida que ia avançando, a desilusão era crescente. Uma oposição cidade-campo já então com barbas, Júlio Dinis entrado pelo século XX adentro, sem o talento, o humor e a mestria do autor d'A Morgadinha dos Canaviais. As personagens são esquemáticas, previsíveis quase caricaturas: irmão mau e irmão bom -- um, velhaco, vaidoso, desprezível, quase psicopata; honrado, generoso e abnegado, o outro; um amigo de infância do primeiro, de estrato social muito abaixo, personagem sacrificial da narrativa, quase um santo, mais do que a criada desonrada pelo "menino", que arrostou com a fúria paterna, vindo, obviamente, mais tarde a ser redimida pelo irmão bom... As cenas de cidade -- Porto -- são pobres e a linguagem é confrangedora e insuportavelmente banal e magazinesca.
Há algumas boas páginas -- melhor fora --, em especial as que são centradas na aldeia de Sedielos (Régua), terra-natal do autor: o quadro de caça às águias, predadoras dos rebanhos, que ciclicamente a aldeia em peso promove, é do melhor que o livro tem. E nem falta o maluquinho de aldeia, o Taranta, a dar a tonalidade trágica de acento camiliano, que narrativas deste género exigiam.
Poderia ser um bom romance em mãos de mestre. Mesmo que em 1939, Ferreira de Castro e José Régio, cada um a seu modo, houvessem já transformado o romance português -- este com o Jogo da Cabra Cega (1934); aquele, a partir de Emigrantes (1928) -- não se seguia forçosamente que um romance mais académico tivesse  de ser por força dispensável (quem desdenha, por exemplo de Rachmaninov por antes dele ter havido Schönberg ou Debussy ou Stravinski? Só um pateta); nem seria preciso que o autor tentasse equiparar-se a Aquilino Ribeiro -- de quem está a anos-luz. Bastaria não ter sido tão acomodatício, previsível, superficial; ou, estilisticamente, afastar-se da vulgaridade da escrita postiça, no seu dar-se ares modernaços, para que pudesse ser algo que se lesse a contento, 75 anos depois. Mas não, já era irrelevante quando saiu dos prelos.   2**

ficha:
Autor: Guedes de Amorim
título: Aldeia das Águias (1939)
colecção: «Minerva de Bolso» #26 
editora: Editorial Minerva
local: Lisboa
ano: 1973
págs.: 199
impressão: Oficinas da Ed. Minerva
capa: Manuel Dias

quinta-feira, 24 de abril de 2014

leituras de 2014 - #22 FUTURISMO


Como obra geral de divulgação, dificilmente poderá haver melhor (e já nem falo do preço acessível e do bom papel): uma introdução competentíssima sobre o contexto histórico-cultural, uma cronologia selectiva, análise de cada obra segundo o mesmo critério, com frequentes confrontos com outros espécimes de correntes contemporâneas, recurso a documentação fotográfica. O único senão, no melhor pano, para a ausência de uma linha sequer sobre a autora.
Independentemente das ideias detestáveis de Marinetti (1876-1944), o Futurismo foi um dos mais influentes movimentos de vanguarda artística de há cem anos. O autor do primeiro Manifesto (1909) foi de tal maneira impetuoso e excessivo -- aqui, no melhor sentido --, que dificilmente poderia o Futurismo permanecer para além dele. Aliás, o Futurismo é filho da ciência e da técnica, do deslumbramento dos homens com a revolução que se estava a processar diante dos seus olhos e durante as suas existências, do automóvel ao aeroplano, das máquinas de guerra às criaturas mecânicas proto-robóticas. Dinamismo é uma das palavras-chave; e alguns dos membros do grupo foram artistas totais: da literatura às artes plásticas, do cinema à fotografia, da música à arquitectura e ao design. Com Marinetti surgem outros autores marcantes, entre outros, Giacomo Balla, Carlo Carrà, Luigi Russolo e, especialmente, a meu ver, Umberto Boccioni.   5*****

Ficha:
Autora: Sylvia Martin
título: Futurismo
tradução: André Macedo
colecção: [sem designação] #6
editora: Taschen / Público
local: Colónia
ano: 2005
impressão: omisso
págs.: 96

terça-feira, 22 de abril de 2014

leituras de 2014 - #21 O PRÍNCIPE NABO

Na Páscoa, acompanhei a minha filha mais nova na leitura desta peça maravilhosa em três actos, obra recomendada para o programa de Português do 5.º ano. Conta-nos a história da princesa Beatriz, mimada e insolente, que rechaça e humilha todos os príncipes pretendentes. De tal forma, que o pai, o Rei do Castelo da Abundância jura entregá-la ao primeiro que passar, fosse príncipe, músico ou pobre de pedir. E assim sucedeu, após a tentativa gorada do Príncipe Austero, crismado pela arrogante Beatriz como "Príncipe Nabo da Nabolândia", inspirando-se no queixo proeminente do pobre candidato: pouco tempo passado, um músico itinerante, António, de seu nome, que cantava de corte em corte, surge no Castelo da Abundância, e o monarca cumpre o prometido, entregando-lhe a mão de sua filha, fazendo orelhas moucas aos protestos, à baba e ao ranho... Uma nova vida de trabalho e privação começará para a agora desafortunada jovem. O que a Princesa não sabe, tal como não o sabem os leitores/espectadores é que António era o Príncipe Austero disfarçado, que ouvira a jura do Rei após o episódio embaraçoso de rejeição que protagonizara. É claro que tudo se irá resolver, a contento de todos e a benefício da moral que Ilse Losa pretendeu extrair do seu texto. Através do trabalho árduo e de várias lições de humildade, o dia em que Beatriz estará madura para conhecer a verdade chegará.   4****

Ficha
Autora: Ilse Losa
título: O Príncipe Nabo
colecção: «Tretas & Letras» #27
editora: Edições Afrontamento
edição: 5.ª
ano: 2014
impressão: Rainho & Neves, Santa Maria da Feira
págs.: 63
ilustrações: Manuela Bacelar   

quinta-feira, 17 de abril de 2014

leituras de 2014 - #20 DISCURSOS VÁRIOS POLÍTICOS


Publicado em 1624, ainda sob a dinastia dos Felipes, os Discursos Vários Políticos do chantre da Sé de Évora Manuel Severim de Faria (1583-1655) são um exemplo brilhante de estilo acutilante e erudição larga da literatura portuguesa de ideias do século XVII. 
O livro é composto por quatro discursos (ensaios), entremeados pelas biografias de João de Barros, Luís de Camões e Diogo do Couto.
«Do muito que importará para a conservação e aumento da monarquia de Espanha, assistir sua majestade com sua Corte em Lisboa.» é um notável sublinhado do valor estratégico da capital portuguesa como cabeça do império dos Habsburgos; 
«Das partes que há-de haver na linguagem para ser perfeita, e como a Portuguesa tem todas e algumas com eminência de outras línguas.» é um saboroso ensaio e louvor ao nosso idioma, à sua riqueza e à preeminência que, segundo o autor, granjeia sobre as outras línguas novilatinas;
O Discurso  seguinte, «Com que condições seja Louvável o Exercício da Caça.» é um breve e divertido apanhado de prós e contras da actividade venatória, concluindo Severim que a caça é lícita se tiver a justificá-la a necessidade; e mesmo enquanto recreio do senhores poderá continuar a sê-lo, se praticada com moderação;
O Discurso Quarto, «Sobre a origem, e grande antiguidade das vestes, que usa por hábito Eclesiástico o Clero de Portugal», realça a velha ligação da Igreja portuguesa a Roma, mais apertadamente observada no trajo e no cerimonial do que acontecia ao tempo na própria Itália. 
Com excepção do discurso sobre a caça, todos estes textos têm, directa ou indirectamente, um escopo de exaltação patriótica -- como, aliás, bem viu Vasco Graça Moura na sua tão curta quanto sólida "Apresentação". Exaltação prudente, embora clara, com louvores ao monarca reinante e, por mais de uma vez, as melhores (e justas) palavras para o grande monarca da dinastia, Felipe II, o Prudente, a quem nunca deixa de, portuguesmente, designar por "D. Felipe I". Portugal é pois claramente tratado como país claramente distinto na Espanha, embora governado por um mesmo soberano.   5*****

Ficha
Autor: Manuel Severim de Faria
título: Discursos Vários Políticos
colecção: «Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa»
direcção: Vasco Graça Moura
editora: Planeta deAgostini
local: Lisboa
ano: 2005
impressão: Cayfosa, Barcelona
págs.: 191

quinta-feira, 10 de abril de 2014

leituras de 2014 - #19 O ELÉCTRICO 16



Narrativa habilmente entretecida entre passado e presente, fluindo à medida dessa Helena comedida, mas de ideias firmes, oriunda da pequena burguesia lisboeta. O tempo é o dos últimos sessenta anos, da opressão à libertação, da PIDE ao Facebook, da carência à abundância para a qual, dizem, não tínhamos possibilidades. Opressão e libertação, não apenas da cidadania, mas da própria condição da mulher portuguesa, cidadã de terceira num universo de preconceito e tabus, ontem; emancipada, em boa medida, hoje -- inclusivamente na sexualidade, de que a filha, Yolanda, é exemplo; ou, ainda, o mundo novo da net, protagonizada por Joana, em paternalista interacção com a avó.
Na noite de mediocridade e pobreza (também moral) que foi o Estado Novo, Delgado foi o fogo-fátuo que a iluminou brevemente, para desaparecer de imediato -- excepto na memória de todos quantos viveram aquele período de ilusão.
O Eléctrico 16 é igualmente um relato dos amores possíveis, os que se efectivaram, uns na carne, no espírito, outros, sabendo-se que os vários homens e mulheres que existem dentro de nós nunca se conformam com a domesticação que a (des)razão e a civilidade impõem. 3***

Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16, Lisboa, Divina Comédia, 2013.

domingo, 6 de abril de 2014

leituras de 2014 - #18 ARMAZÉM CENTRAL, t. 1 - MARIE

Creio que Armazém Central foi a última grande narrativa de BD que descobri -- há uns anos, nas páginas da BoDoï.
Primeiro volume de um trilogia, a acção deste Marie decorre nos anos de 1920, numa aldeia do Quebeque. É a história de uma viúva, Marie, forasteira em Notre Dame des Lacs, narrada pelo  marido recém-falecido, Félix Ducharme, o dono do "Armazém Central". A nova situação da prestativa Marie é o tema de eleição desse microcosmos aldeão, em que todos se conhecem, a que se junta a recém-chegada de um novo vigário, mais aberto e tolerante, mesmo para com os paroquianos desafectos à Igreja. O resto é pura vida: amores e ódios, ciúme e saudade, alegria e tristeza, festividades e funerais -- e até uma épica cena de pancadaria.
Baseada numa ideia de Régis Loisel, Armazém Central regista a dupla parceria deste com Jean-Louis Tripp -- dupla porque ambos assinam argumento e desenho --, valorizada pelas cores muito suaves de François Lapierre.
Se tivesse de escolher no máximo cinco livros de banda desenhada para a ilha deserta, esta seria certamente uma delas. 5*****

Ficha
Autores: Régis Loisel (texto e desenho) e Jean-Louis Tripp (texto e desenho); cor: François Lapierre.
título: Armazém Central
subtítulo: Marie
título original: Magazin Général -- Marie
tradução: Pedro Cleto
editora: Edições Asa
local: Porto
ano: 2007 (2006, ed. original)
impressão: omissa
págs.: 81