«Fui a casa de Lourenção matá-lo.
Pereira estremeceu, o velho ergueu os olhos devagar:
-- Quem dera!
Leandro emborcou o copo, passou as costas da mão pela boca e tornou a afirmar, apontando o cacete ensanguentado:
-- Matei-o!
A voz de Leandro foi firme, os seus olhos estavam coberto de uma névoa de lágrimas. Os outros olharam, o velho cuspiu, dizendo:
-- Não merece a pena chorar.
Pereira ajuntou:
-- Lourenção andava a pedi-las. Aposto que não tem um padre nosso por alma!
O taberneiro foi-se aproximando pra ouvir e o velho pediu:
-- Mais três, Ventura» Carlos de Oliveira, Alcateia (1944)
autobiografia, correspondência, ensaio, história, memórias, panfleto, poesia, polémica, romance, teatro, viagens
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terça-feira, 1 de março de 2016
caracteres móveis: o Lourenção andava a pedi-las
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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado.
Maio em Ayemenem é um mês quente e abafado. Os dias são longos e húmidos. O rio estreita e corvos pretos devoram mangas reluzentes nas árvores imóveis no seu verde-pó. Bananas vermelhas amadurecem. Jacas rebentam. Vespas dissolutas zumbem indolentemente no ar suculento. Depois chocam contra a limpidez das vidraças e morrem, inchadas e aturdidas pelo sol.
Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas [1997], tradução de Teresa Casal, Lisboa, Biblioteca Sábado, 2010.
domingo, 21 de abril de 2013
Senhor Presidente...
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores:
Minhas Senhoras,
Meus Senhores:
Perguntou alguém um dia a Sócrates «porque tinha feito uma casa tão pequena»; e o filósofo respondeu, «que bem quisera vê-la cheia de verdadeiros amigos». Esta sala é bastante grande, a quadra estival vai adiantada, convidando mais ao silêncio dos campos, ou ao bulício das ondas, do que a ouvir importunas prelecção, e por isso eu, embora tão longe de Sócrates em todos os sentidos, não posso deixar dever em V. ex.as, em todos os presentes -- amigos bem verdadeiros. E quando não tenham vindo aqui por cativante bondade para comigo, mas por interesse pelas letras -- sendo amigos das letras, meus amigos também são. muito e muito obrigado.
Início da conferência Através da poesia Inglesa, de Luís Cardim, Porto, Edição da Biblioteca do Clube Fenianos Portugueses, 1939.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Perto da Cidade principal da Lusitânia está uma graciosa Aldeia...
Perto da cidade principal da Lusitânia está uma graciosa Aldeia que com igual distância fica situada à vista do mar Oceano, fresca no Verão, com muitos favores da natureza, e rica no Estio e Inverno com os frutos e comodidades que ajudam a passar a vida saborosamente; porque, com a vizinhança dos portos do mar por uma parte e da outra com a comunicação de uma ribeira que enche os seus vales e outeiros de arvoredo e verdura, tem em todos os tempos do ano o que em diferentes lugares costuma buscar a necessidade dos homens; e por este respeito foi sempre o sítio escolhido para desvio da Corte e voluntário desterro do tráfego dela, dos cortesãos que ali tinham quintas, amigos ou heranças, que costumam ser velhacouto dos excessivos gastos da cidade.
Início de Corte na Aldeia (1619), de Francisco Rodrigues Lobo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1988.
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terça-feira, 19 de março de 2013
Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas.
Para o fim do Verão daquele ano vivíamos numa aldeia que, para lá do rio e da planície, confrontava as montanhas. No leito do rio havia seixos e pedregulhos secos e brancos ao sol e a água clara corria suavemente pelos canais. Passavam tropas em frente da casa e desciam a estrada, e a poeirada que levantavam cobria as folhas das árvores. Os troncos das árvores estavam também cobertos de pó e as folhas caíram cedo naquele ano e víamos as tropas marchando pela estrada fora e o pó que se levantava e as folhas levantadas pela brisa caíam sobre os soldados em marcha e depois a estrada deserta e branca sem nada além das folhas.
Início de O Adeus às Armas (1929), de Ernest Hemingway, trad. Adolfo casais Monteiro, Lisboa, Editora ulisseia, s.d.
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Fecharam os telhais.
Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar -- sentenciavam os mestres. Mas os sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Início de Esteiros (1941), de Soeiro Pereira Gomes, Mem Martins, Publicações Europa-América, 5.ª ed., 1974.
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segunda-feira, 18 de março de 2013
Conhecer as condições...
Conhecer as condições específicas e próprias da sociedade política e económica brasileira: não é para o público culto português um escusado diletantismo de ociosidade literária; antes, importa interesse decisivo, desde que esteja demonstrado que Portugal não possa, na fas histórica não só ainda não conclusa mas apenas esboçada, prescindir da tradicional correlacionalização com o Brasil.
Início de O Brasil Mental [1898], de Sampaio Bruno, Porto, Lello Editores, 1997.
domingo, 17 de março de 2013
Ei-la, pois, aqui, neste momento --
Ei-la, pois, aqui neste momento -- tudo parece natural ainda; venho olhá-la a cada instante, mas amanhã levá-la-ão, e como hei-de eu ficar sozinho? Neste momento ela está na saleta, em cima da mesa, juntaram-se duas mesas de jogo, mas o seu caixão, amanhã, será todo branco e a sua mortalha de tafetá será pálida; aliás, não é disso que se trata... Não paro, para cá e para lá, a ver se consigo explicar-me a mim mesmo o que se passou: há quase seis horas que procuro essa explicação sem conseguir coordenar as minhas ideias. No fundo, nada mais faço senão ir e vir, ir e vir... Eis como as coisas se passaram. Procederei com método. (Com método!) Deus meu, não tenho nada de um escritor, e isso vê-se bem, mas, que importa?, contarei as coisas tal como as compreendo. Mas, o que é para mim mais espantoso, é que eu compreendo tudo!
Início de Está Morta!, de Fiódor Dostoiévski, trad. João Gaspar Simões, Lisboa, Editorial Inquérito, 1940.
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sexta-feira, 15 de março de 2013
Para sempre.
Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás de aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros. É a História que se diz? Abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.
Início de Para Sempre [1983], de Vergílio Ferreira, 11.ª ed., Venda Nova, Bertrand Editora, 1998.
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quarta-feira, 13 de março de 2013
O Granico, Isso, Arbelos...
O Granico, Isso, Arbelos... três pancadas retumbantes percutidas no palco do mundo, -- e o pano sobre para a representação de um dos episódios mais prodigiosos da História Universal.
Benoist-Méchin, Alexandre Magno, trad. A. Guimarães, Porto, Lello & Irmão, 1980.
domingo, 10 de março de 2013
Ao cair de uma tarde de Dezembro, chuvoso, frio...
Ao cair de uma tarde de Dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a costa de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretensiosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Início de a Morgadinha dos Canaviais, (1868) de Júlio Dinis, Porto, Livraria Civilização, 1987.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Antes de ir buscar o automóvel, Pierre Dupont quis levantar dinheiro na caixa automática.
Antes de ir buscar o automóvel, Pierre Dupont quis levantar dinheiro na caixa automática. O aparelho aceitou o seu cartão e autorizou-o a levantar mil e oitocentos francos. Pierre Dupont carregou na tecla 1800. O aparelho pediu-lhe que esperasse um instante, depois entregou-lhe a soma estabelecida, lembrando-lhe que retirasse o cartão. "Obrigado pela sua visita", concluiu, enquanto Pierre Dupont guardava as notas na carteira.
Início de Não-Lugares -- Introdução a uma Antropolia da Sobremodernidade (1992), de Marc Augé, trad. miguel serras Pereira, s.l., 90º, 2006.
terça-feira, 5 de março de 2013
E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos...
E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário. Eram grandes caixotes de pinho, arvorando o nome e o endereço do destinatário, desenhados a zarcão, além de malões e de malas e de maletas e de caixas de chapéu, a ostentar numa placazinha de metal as simples iniciais EQ, gravadas em caracteres de esmero particular. Andaram por aí seis ou sete almocreves, largando bastante lama pelos soalhos, manobrando as cordas e retesando os músculos dos braços, exasperadamente sardentos ou desmaiadamente pálidos, e ficou possuída a casa do sangue e da alma do seu novo ocupante.
Início de as Batalhas do Caia, de Mário Cláudio, Lisboa, Publicações dom Quixote, 1995.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História...
Difícil não será visionar Cascais na época gloriosa da sua História, quando D. Pedro I, satisfazendo o pedido dos seus homens bons, lhe outorga, a 7 de Junho de 1364, a solicitada autonomia administrativa. Na enseada que se estendia ao longo das suas penedias, defendida por forte baluarte, baloiçavam, agitadas pela nortada ou na quietude das suas águas calmas, caravelas pescarescas ou de pescar, tão usadas já, então, no Algarve (caíques); frágeis embarcações e pequenos barcos de velame latino e triangular, que, com o rodar dos tempos, vieram a tomar o feitio das actuais canoas, lanchas e traineiras. De tempos a tempos, o pavor lançava a tristeza àquele povo bom e ordeiro. A pirataria surgia e tudo devastava. Não raro se verificaram surtidas dos Mouros e dos Normandos... e, mais tarde, das próprias galés de Veneza, quando estas não vinham comerciar devidamente autorizadas.
Ferreira de Andrade, Cascais -- Vila da Corte -- Oito Séculos de História [1964], ed. fac-similada, Cascais, Câmara Municipal, 1990.
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sábado, 2 de março de 2013
Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir.
Les colines, sous l'avion, creusaient déjà leur sillage d'ombre dans l'or du soir. Les plaines devenaient lumineuses mais d'une inusable lumière: dans ce pays elles n'en finissent pas de rendre leur or de même qu'après l'hiver, elles n'en finissent pas de rendre leur neige.
Início de Vol de Nuit (1931), de Antoine de Saint-Exupéry, Paris, Gallimard, 1981.
Início de Vol de Nuit (1931), de Antoine de Saint-Exupéry, Paris, Gallimard, 1981.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação...
Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.
Início de O Drama da Sombra, de Ferreira de Castro, Lisboa, Diário de Notícias, 1926.
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Poucos haverá para quem o nome Viriato não suscite longínquas ressonâncias épicas...
Poucos haverá para quem o nome Viriato não suscite longínquas ressonâncias épicas ou evocações mais ou menos patrióticas. Para estes, ele é o herói que Camões imortalizou nos seus versos, com o qual as gentes portuguesas «na inimiga guerra romana tanto se afamaram», ou, citando as palavras patrióticas de Pessoa, «a fria luz que precede a madrugada... na antemanhã, confuso nada». Na cultura portuguesa, Viriato sempre representou o papel do herói mítico, antecedendo o Fundador, lutando valorosamente contra a ocupação romana e defendendo do poderoso invasor desta região que mais tarde daria lugar a uma parte de Portugal.
Início de Viriato, de Paulo Farmhouse Alberto, Mem Martins, Editorial Inquérito, 1996.
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
No fim de Agosto de 1939, em Nanga Parbat, haviam acabado os reconhecimentos da terceira expedição alemã, de que eu fazia parte.
No fim de Agosto de 1939, em Nanga Parbat, haviam acabado os reconhecimentos da terceira expedição alemã, de que eu fazia parte. Descobrimos uma nova via para o escalamento e esperávamos, em Karachi, a chegada dum cargueiro que nos conduzisse à Europa. O barco estava atrasado no seu horário e sombras negras pressagiavam, em cada dia que passava, a eclosão da segunda guerra mundial. Os meus camaradas Chicken e Lobenhoffer decidiram escapulir-se às malhas que a polícia inglesa nos andava a preparar. Só Aufschnaiter, chefe da expedição, combatente da guerra de 1914, se recusava acreditar na iminência dum novo conflito, obstinando-se a ficar em Karachi.
Início de Sete anos de Aventuras no Tibete (1952), Heinrich Harrer, trad. Alberto Calderon Dinis, 2.ª ed. Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade, 1959.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
A época é de tragédia.
A época é de tragédia. O que domina é o oiro. Só existe um deus -- O Gozo. Inteiro descalabro nas consciências. Eu que quero? tu que queres? Gozar. Visto que depois da morte só o nada existe e a terra tudo traga -- um buraco e alguns punhados de desprezível cisco -- o mundo divide-se logicamente em dois largos campos: nos que, cépticos, sem preconceitos, frios como lâminas, secos como pedras, conquistam, mandam e dominam, com o código por consciência, e a quem tudo na terra é permitido -- calcar, mentir, triunfar enfim -- contanto que se fique dentro dos limites duma coisa honrosa a que por convenção se chama a honra, isto é fora da cadeia; e nos pobres, explorados e simples, ainda ignorantes, crendo numa vida eterna, que lhes pague a dor de virem ao mundo só para chorar, fartos de miséria e gritos, fartos de fome e desilusão, caminhando como um rebanho, gasto e suado, por este vale de lágrimas e de quem os outros se riem às escâncaras.
Início de O Padre (1901), de Raul Brandão, prefácio de José Manuel de Vasconcelos, Lisboa, Vega, s.d.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Da soma de documentos que, sobre a vida portuguesa no século XIII, chegou até nós...
Da soma de documentos que, sobre a vida portuguesa no século XIII, chegou até nós salientam-se testemunhos bastantes para podermos garantir que já então existia uma corrente de comércio marítimo ligando Portugal aos entrepostos comerciais do Norte da Europa e do Mediterrâneo e que a primeira dessas ligações estava, pelo menos em parte, nas mãos de mercadores portugueses.
início de Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, de Luís de Albuquerque, 3.ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d.
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