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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Camilo Castelo Branco, Eduardo Frias, Ferreira de Castro e Paul Castilho

O Camilo é o Camilo, e o começo de Eusébio Macário é precioso, pela simplicidade, contrastando com o glit muito anos vinte e desinteressantemente "loucos" de Frias & Castro, mesmo que o romance tenha o seu quê para lá do ouropel, e com o malaise do protagonista de Castilho, aliás um nome seguro. Por isso, viva Camilo.

1879: «Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

1924: «Quem o diria, Berenice?...» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge 



1989: «Se quisesse definir a invisível peste que o acordar me toldava a existência, a palavra seria bruma.» Paulo Castilho, Fora de Horas

segunda-feira, 1 de maio de 2017

A SELVA (1930): fogo e cinza, destruição e regeneração


Última fala do negro Tiago, uma das personagens-chave de A Selva. Antigo escravo, velho coxo a quem os seringueiros tratavam por «Estica», de propósito para ouvi-lo praguejar dolorosamente, a todos proibia a alcunha excepto ao patrão, Juca Tristão, a quem tudo permitia, o que não impediu que o matasse. É Tiago quem lança fogo ao seringal após o aprisionamento de seringueiros fugitivos, de quem Alberto fora cúmplice na fuga, um deles o caboclo Firmino. Capturados por outros seringueiros -- episódio que suscita a Ferreira de Castro um extraordinário trecho --, são amarrados e açoitados no tronco, tal como sucedia, no tempo da escravatura, àqueles que eram apanhados. A passagem acima citada começa com a resposta a um dos seringueiros libertos pela acção de Tiago, um dos que lhe chamava «Estica» e queria agora, muito humanamente, agradecer-lhe o gesto . Um clic tinha-se produzido no velho e submisso Tiago, que se insurge da forma mais extrema. É esta insurreição, a destruição pelo fogo do algoz, que termina o calvário daqueles pobres diabos. A primeira leitura é óbvia: em situações extremas, justifica-se a eliminação do opressor. O que viria a seguir, Ferreira de Castro não nos diz, porque sabemos que a mesma exploração iria continuar, exercida por outrém sobre aqueles trabalhadores. A esperança reside num amanhã redentor, longínquo, mas que há-de vir. Em Novembro de 1929, o escritor terminava assim o seu romance: «O clarão perdia terreno: já não se via o bananal, apagavam-se ao longe os contornos da selva, o rio fundira-se na noite e os troncos cinzentos das palmeiras começavam a vestir-se de luto. Quando chegasse a manhã, derramando da sua inesgotável cornucópia a luz dos trópicos, haveria ali apenas um montão de cinzas, que o vento, em breve, dispersaria...» (Cap. XV, 1ª ed., p. 333)
O vento varre as cinzas dos escombros e limpa o terreiro para o que a seguir virá.

«--Me deixa sua peste! Me deixa já! Não foi por ti nem pelos outros como tu que perdi a minha alma e vou para o inferno! Foi porque seu Juca te fez escravo e aos outros safados que te acompanham. Se estivesse no tronco, como tu, o feitor que me batia lá no Maranhão, eu também matava a seu Juca. Negro é livre! O homem é livre!
[...]
-- Me mande matar, se quiser, branco. Eu já sou muito velho e não preciso de viver mais...» Cap. XV, 32ª ed., p.287. (18 de Julho de 2005)

A SELVA (1930): anarquismo: o social sobre o político

O redentorismo libertário tem aqui uma eloquente expressão, com a rejeição da divisão política, superficial ou dogmática, em favor de uma ideia mais vasta de ascensão comunitária projectando-se num futuro: «era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio.» Sem messianismo, como às vezes se diz, mas antes com uma convicção profunda na capacidade de auto-superação do género humano: a libertação do homem tem de ser feita pelo próprio homem. Este humanismo não se queda em especulação de gabinete, mas abre-se à acção; é, por isso, voluntarista, reactivo, proactivo, revolucionário, libertário, anarquista:

«Alberto não lhe dava atenção. Prendia-o a carta materna, com a notícia de que os republicanos haviam, enfim, resolvido amnistiar os insurrectos de Monsanto.
[...]
"Os republicanos... Os monárquicos..." Tudo aquilo lhe soava imprevistamente a oco, longínquo e sem sentido. Arrefecera-lhe a paixão, as suas antigas ideias pareciam-lhe de tempos remotos, dum outro eu que se perdera e esfumara na lonjura. Examinava agora, a sangue-frio, a sua causa vencida e nenhum ódio guardava para os adversários que combatera anos antes. [...] Cada vez sentia menos o domínio das teorias que o haviam forçado a emigrar e parecia-lhe mesmo que sobre elas se iam condensando, de modo ainda mal definido, uma razão diferente e um sentimento de justiça nova, mais profunda e mais vasta. "Em muitas das suas expressões, a vida rastejava ainda, em tanto mundo e ali mesmo, à altura dos pés humanos; e não era decerto com os velhos processos, já experimentados durante dezenas de séculos, que ela poderia ascender aos níveis que o cérebro entrevia. Não era, decerto, no que estava feito, era no que estava por fazer, que o homem viria a encontrar, talvez, o melhor de si próprio."»
 Cap. XII, 32ª ed., pp. 225-226. (17 de Julho de 2005)

domingo, 30 de abril de 2017

A SELVA (1930): selva metafórica e selva literal

Selva metafórica e selva literal, em ambas presente a necessidade vital de superação, na «luta desesperada de caules e ramos».

«Adivinhava-se a luta desesperada de caules e ramos, ali onde dificilmente se encontrava um palmo de chão que não alimentasse vida triunfante. A selva dominava tudo. Não era o segundo reino, era o primeiro em força e categoria, tudo abandonando a um plano secundário. E o homem, simples transeunte no flanco do enigma, via-se obrigado a entregar o seu destino àquele despotismo. O animal esfrangalhava-se no império vegetal e, para ter alguma voz na solidão reinante, forçoso se lhe tornava vestir a pele de fera. [...]» Cap. V, 32ª ed., p. 106. (16 de Julho de 2005)

A SELVA (1930): o rebanho

Aportados a Manaus, numa escala, os futuros seringueiros são proibidos de desembarcar para uma simples visita à cidade pelo angariador de mão-de-obra, Balbino. O trecho abaixo, referente à atitude de Alberto em não acatar uma decisão autoritária, reflecte um espírito de insubmissão e rebeldia, além de desgosto pela passividade dos restantes trabalhadores.

«Ia a voltar-se para encarar quem punha dúvida na sua resolução, que era firme, mas logo se deteve numa atitude de orgulho juvenil. Tanto como aquele que cerceava a liberdade, indignava-o a alma submissa dos que acatavam, silenciosa e passivamente, a ordem iníqua. "iria! Iria custasse, o que custasse!» Cap. III, 32ª ed., pp. 64-65.

A SELVA (1930): da dignidade individual



O extremar de posições é-nos dado pelos preconceitos da personagem principal, Alberto, um estudante de Direito, monárquico insurrecto de Monsanto, e por isso exilado; e um conjunto de gente ignara, acomodada naquele «curral flutuante» e conduzida em pura inércia de sobrevivência, um pouco o que acontece com os rebanhos. Não por acaso as noções de fraternidade e bem-estar, palavras-chave das doutrinas de revolução social, aparecem ligadas neste contexto de animalização dos futuros seringueiros, contrário, por isso, à sua intrínseca dignidade de homens. Este conceito de dignidade, geral e individual, é fundamental em Ferreira de Castro.

O extremar de posições é-nos dado pelos preconceitos da personagem principal, Alberto, um estudante de Direito, monárquico insurrecto de Monsanto, e por isso exilado; e um conjunto de gente ignara, acomodada naquele «curral flutuante» e conduzida em pura inércia de sobrevivência, um pouco o que acontece com os rebanhos. Não por acaso as noções de fraternidade e bem-estar, palavras-chave das doutrinas de revolução social, aparecem ligadas neste contexto de animalização dos futuros seringueiros, contrário, por isso, à sua intrínseca dignidade de homens. Este conceito de dignidade, geral e individual, é fundamental em Ferreira de Castro.

«A sua epiderme contraía-se sob a força do asco que o convés imundo lhe causava. Sentia-se inadaptado, estranho ali, quase inimigo das vidas que o cercavam, aparentemente alheias a tudo quanto não fossem imposições do corpo e aderindo, resignadas, a todas as contigências.
Magoava-o a facilidade com que outros recrutados dormiam tranquilamente um sono que era, para o egoísmo dele, quase uma afronta.
E sorria, depreciativamente, ao pensar no apostolado da democracia, nos defensores da igualdade humana, que ele combatera e o haviam atirado para o exílio. «Retóricos perniciosos! Queria vê-los ali, ao seu lado, para lhes perguntar se era com aquela humanidade primária que pretendiam restaurar o mundo. Via-se o que tinham feito! Tudo na mesma, sempre a mesma violência, a demagogia até. E ainda havia os que queriam ir mais longe no desvario, destruindo fundo os caboucos sociais, desmoronando uma obra construída e cimentada pela velha experiência dos séculos. E para quê? Para quê? Possuíam alma essas gentes rudes e inexpressivas, que atravancavam o Mundo com a sua ignorância, que tiravam à vida colectiva a beleza e a elevação que ela podia ter? Se a possuíssem, se tivessem sensibilidade, não estariam adaptados como estavam àquele curral flutuante. Mas não. Mas não. Era o seu meio e, se as transplantassem, ficariam tímidas, desconfiadas e murchas, como bichos selvagens nos primeiros dias de jaula. Ele e os seus, declarados inimigos da igualdade, defensores de élites, eram bem mais amigos dessa pobre gente do que os outros, os que a ludibriavam com a ideia duma fraternidade e dum bem-estar que não lhe davam nem lhe podiam dar. Só as selecções e as castas, com direitos hereditários, tesouro das famílias privilegiadas, longamente evoluídas, poderiam levar o povo a um mais alto estádio. Mas tudo isso só se faria com autoridade inquebrantável -- um rei e os seus ministros a mandarem e todos os demais a obedecer. O resto era fantasia maléfica de sonhadores ou arruaceiros. (...)» (Cap. II, 32ª ed., pp. 46-47.) (15 de Julho de 2005)

A SELVA (1930): gente sem crónica (romance social e ética da escrita)



Do «Pórtico», 1ª edição de A Selva, de Ferreira de Castro (1930), as naturais referências aos seringueiros, «à gente sem crónica definitiva», objecto das preocupações sociais do autor. A conquista do pão é um dos mais conhecidos e importantes livros do príncipe Piotr Kropótkin, uma das grandes figuras da história do anarquismo, influência decisiva em Ferreira de Castro, sobre quem, de resto, projectou escrever uma biografia, nos anos 30, a pedido do poeta brasileiro Martins Fontes, um devoto do libertário russo.


 «Eu devia êste livro a essa Amazonia longínqua e enigmática, pelo muito que fez sofrer os primeiros anos da minha adolescência e pela coragem que me deu para o resto da vida. E devia-o, sobretudo, aos anónimos desbravadores, gente humilde que me antecedeu ou acompanhou na brenha, gente sem crónica definitiva, que à extracção da borracha entrega a sua fome, a sua liberdade e a sua existência. Livro bárbaro, como a vida que enquadra, como o scenário que lhe serve de fundo, êle completa em muitos pontos, à margem do entrecho, o meu romance «Emigrantes».
Num, a paísagem ridente do sul do Brasil; noutro a paísagem magestosa do Norte. Em «Emigrantes», o exílio pelo estômago; neste, o destêrro pelo espírito. E nos dois, a uni-los indissoluvelmente, a luta pela vida, a conquista do pão, a miragem do oiro -- um oiro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam. (...)» (12 de Julho de 2007)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

microleituras

Um dos primeiros livros publicados por Camilo Castelo Branco participa desta literatura, com «Maria. não Me Mates que Sou Tua Mãe!» (1848), como é referido pelo autor desta síntese notável de enquadramento e análise dum género tão peculiar, caído em desuso não há muito. Literatura de cordel, literatura de cego, vendido por feiras e mercados deste país, histórias fabulosas, relatos de viagem, episódios do ciclo arturiano, do último feito notável ou do último crime cometido, verso,drama e prosa de proveito e exemplo que leitores e ouvintes (não esquecer o analfabetismo endémico), consumiam gulosamente. Que o dissesse Ferreira de Castro, ainda criança, com a História do João Soldado -- um must da literatura de cordel.

incipit: «A designação "literatura de cordel" recobre, no uso dos especialistas,, um conjunto imenso e instável de obras que eram penduradas para exposição e venda em cordéis distendido entre dois suportes, presos por pregos ou alfinetes, em paredes de madeira ou na rua, podendo também pender dos braços da da cintura de vendedores ambulantes.»  

ficha:
Autor: Carlos Nogueira.
título: Literatura de Cordel: História, Teoria e Interpretação
edição: 2.ª
colecção: «À mão de respigar» #5
editora: Apenas Livros
local: Lisboa
ano: 2003

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Pub.



Acaba de sair a 2.ª edição do meu Viajar com Ferreira de Castro,
uma iniciativa da Direcção-Geral da Cultura do Norte,
agora em colaboração com a editora Opera Omnia

quarta-feira, 27 de abril de 2016

microleituras

Sobre a Censura e a auto-censura. O artiguinho saltou-me há vinte anos, impressionado com a leitura das «Mensagens» de Ferreira de Castro na sessão do MUD (1946) e na campanha de Norton de Matos (1949):  O medo das pessoas falarem livremente umas com as outras, não fossem ser presas, despedidas, interrogadas, torturadas. O país do medo. E, no tempo de Salazar, Ferreira de Castro escrevia isto para ser lido em público:

«[...] Os Portugueses, na sua maioria, vivem numa permanente desconfiança [...] Eles vêem em todo o compatriota que não conhecem um possível inimigo -- um homem que lhes pode fazer mal. Eles desconfiam de tudo, até dos mendigos, algumas vezes até dos parentes. até da sua própria sombra. Mesmo os homens mais pacíficos, pais de família cuja principal preocupação poderem alimentar os filhos, vivem neste ambiente de suspeição, que produz, tantas vezes, imerecidos juízos sobre pessoas que, afinal, são outras tantas vítimas do medo.»
(«Mensagem de Ferreira de Castro», Campanha Eleitoral da Oposição. Depoimento. 3.ª série, Lisboa, 1949)

O mesmo ano, contra a mediocridade instaurada pelo medo, com os surrealistas a erguerem-se. E, por falar em surrealistas, cruzo na temática do medo, poemas de Alexandre O'Neill, Natália Correia, mas também de Manuel da Fonseca e Manuel Alegre. E foi o que me veio à memória, quando pensava no que escrever sobre esta separata. Lembrei-me do parazer em pegar nos textos, aqui e ali, misturá-los, cozinhá-los. Sempre gostei de fazê-lo. E não apenas com a literatura, mas também com a pintura, a música...

incipit - «Uma ideia que tem feito carreira com sucesso é a da inexistência de grande obras reveladas após o 25 de Abril, dessas que aguardaram publicação durante anos nas gavteas dos seus autores.»

Ficha
Autor: Ricardo António Alves
título: Ferreira de Castro: Um Escritor no País do Medo
separata: Taíra - Revue du Centre de Recherche et d'Etudes Lusophones et Intertropicales #9
edição: Université Stendhal
local: Grenoble
ano: 1997
págs. 10

terça-feira, 29 de março de 2016

microleituras

Conferência proferida em 15 de Dezembro de 1972 no Museu João de Deus, evocando o filho deste, João de Deus Ramos. Alocução emotiva de alguém que fora amigo de Ferreira de Castro, desaparecido 19 anos antes, e que procurou honrar o nome e a obra do pai, materializando-a através da criação dos Jardins-Escolas João de Deus, pondo em segundo ou terceiro planos a obra própria. A propósito do autor de Campo de Flores, Castro lembra o contacto precoce, através das selectas, com a poética sensível e delicada do vate algarvio e o que representava para si a poesia,  nesses tempos infantis pouco auspiciosos, à partida. Edição sem aparato técnico, fora do mercado, provavelmente de tiragem muito reduzida.

incipit - «Minhas senhoras e meus senhores: / Talvez eu não afronte muito a lógica se vos disser que a minha ternura por esta casa, por esta admirável casa onde nos reunimos hoje, principiou antes mesmo dela existir.»

ficha:
Autor: Ferreira de Castro
título: Chamou-se João de Deus Ramos, Exactamente o Nome Paterno
edição: [Museu João de Deus?; Jardim-Escola João de Deus?]
local: Lisboa
ano: 1972
impressão: omisso
págs.: 12

quarta-feira, 23 de março de 2016

Mário Gonçalves Viana, «"A Selva", uma obra-prima»- FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA (1931)

«Se há livros que mereçam a classificação de notáveis, A Selva é, incontestavelmente, um deles.» (incipit)

1 parágrafo:
«A riqueza do vocabulário, a propriedade dos termos, a evocação cheia de intensidade pictórica -- tudo transmite a este romance as características dum autêntico poema em prosa.» (1930)

Nogueira de Brito, «Ferreira de Castro e a sua obra literária» - FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA (1931)

«Ferreira de Castro, a quem acaba de ser prestada homenagem de admiração pelo seu talento e, na moderna geração literária, um dos valores mais curiosos pela orientação mental que tem inspirado à sua obra de reconstrução mental e psíquica.»

1 parágrafo:
«Os tipos, que a sua obra incarna, são exemplos da vida, e não há um gesto, um vinco de fisionomismo que não atinjam uma verdade irrefutável, um sentido de exactidão a que não está acondicionado o género novela, tão escassamente conseguido. Carácter e individualidade, moral e temperamento, tendências e atavismos, andam na obra de Ferreira de Castro como coisa existente, a valer, sem deformação, sem tintas esmorecidas, antes com um vinco de beleza moral e uma característica de perfeição honrosa que impressionam. Em Ferreira de Castro não há elevação "estudada" do sentir afeiçoado à exigência da efabulação, a rebuscada irradiação de emotismo coado pela oportunidade mais ou menos feliz; há, sim, a espontaneidade que nasce da cena real da existência, sem qualquer assomo de artifício, sem clangores de retumbâncias festivas, nem estilizações frívolas de colorismos doentios e insinceros. É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.» (1928)

segunda-feira, 21 de março de 2016

Martin Parapar, «Ensayo lirico sobre Ferreira de Castro» - FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA (1931) #2

«Ferreira de Castro, el de los ojos eternamente tristes y añorantes; el de la sonrisa de nño ingenuo; el de los grandes y acariciantes debordamientos afectuosos; el hombre estraño que ha robado sus extrañas gemas a los ponientes del tropico, cuando caminaba, borracho de color de la maravilla escenográfica, a orillas del Amazonas;» (incipit)

1 parágrafo:
«Así dejemos a este puro poeta, ¿poeta?, poeta, sí, poeta, entre los rebeldes y gustemos su obra buena y sana, que nos ha de conducir fatalmente a una sociedad de amor y belleza, cuya viejas y pútridas simientes hayan sido purificadas por la sangre y el fuego.» (1926)

domingo, 20 de março de 2016

Jaime Brasil, «Notas biográficas e bibliográficas» (1931) - FERREIRA DE CASTRO E A SUA OBRA - #1

Incipit - «Ferreira de Castro é o mais representativo dos romancistas da nova geração literária em Portugal.»
1 parágrafo - «Quando arribou à terra brasileira, misteriosa e promitente, levava na sua bagagem, entre outras ilusões pueris, as ingénuas crenças religiosas, que aprendera no berço. Perdeu-as, pouco a pouco, crescendo, adubada pelos detritos delas, uma consciência liberta e inflexível ante os problemas eternos.»

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

um caminho de luz

«Mas a lâmpada de bolso, de alguém ainda sentado numa das popas, estoqueou de repente a obscuridade, abrindo um caminho de luz, estreito e oscilante, na terra que trepava do rio para a floresta, gretada na parte alta, que mal se via.»

Ferreira de Castro, O Instinto Supremo (1968)

sábado, 9 de janeiro de 2016

microleituras

Normalmente classificado como conto "fantástico" -- assim tem aparecido nas antologias do género --, sê-lo-á, se o interlocutor do narrador for mesmo o que reclama ser: Deus. Mas poderá também ser um louco, neste caso, dotado de excepcional clarividência.
Deus, ou louco que se crê tal, revela-se insatisfeito e desgostoso com a obra criada, um mundo imperfeito, como imperfeito resultou o Homem, criado à sua imagem.
O ateísmo do autor fica bem expresso, como claramente expostas estão as ideias inconformistas e libertárias que professou. De tal modo que, para a intrigante personagem que dialoga com o narrador, Louco ou Deus, há apenas um tipo de homens que estarão tocados por uma partícula de divino e que assim se aproximam do alegado criador, tal qual ele se mostra nesta curta narrativa: aqueles que questionam, aqueles que se revoltam, e por isso sofrem na carne e no espírito a férula dos poderosos deste mundo -- como sucedeu àquele que em tempos morreu numa cruz.

incipit: «Branca, airosa, pequenita, erguida sobre o tope de uma colina, a Capela do Senhor dos Navegantes divisava-se de longe, como um farol.»

ficha:
Autor: Ferreira de Castro
título: O Senhor dos Navegantes
local: Lisboa
editor: Expo'98
ano: 1998
impressão: Printer Portuguesa
capa: Luís Filipe Cunha
págs.: 37
tiragem: 5000


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

microleituras

Uma iniciativa inteligente da Direcção-Geral da Cultura / Norte, por volta de 2003: a edição de uma espécie de roteiros dos grandes escritores da região, a partir dos seus textos em que se abordassem, além das raízes próprias, os patrimónios material e imaterial. 
A mim coube-me o Ferreira de Castro, que tive de encaixar, tal como sucedeu com os outros autores, em quatro capítulos: «O Homem, o Escritor», «Espaços de Inspiração», «Topografia Literária» e «Nas Entrelinhas da Escrita». Não fiquei de todo descontente com o resultado final, muito enriquecido pelas fotografias de época e pelo excelente trabalho de António Pinto.

incipit: «Tivesse ou não emigrado para o Brasil, ainda criança e sozinho, Ferreira de Castro seria sempre escritor.»

ficha: 
Autor: Ricardo António Alves
título: Viajar com... Ferreira de Castro
colecção: «Viajar com... Os Caminhos da Literatura»
edição: Delegação Regional da Cultura do Norte / Edições Caixotim
local: s.l.
data: s.d. [2004]
impressão: Rocha / Artes Gráficas, Vila Nova de Gaia
fotografias: António Pinto,
págs.: 50
tiragem: 2000

sábado, 29 de agosto de 2015

12x25


«era capaz de cumprir tudo quanto dizia, ao domingo, depois da missa, à porta do Valseves!

Apesar do seu estado de espírito animoso, Manuel da Bouça ensombreceu de novo ao meter pelo carreiro aberto na relva, que ligava o aglomerado da aldeia à sua casa, solitária entre os campos. As preocupações e a força de vontade que vinha despendendo davam-lhe uma expressão fatigada e melancólica.
Amélia, ao vê-lo atravessar a cancela, coxeando, perguntou, alvoroçada:
-- Que tens? Que te aconteceu?
-- Nada. Foi um espinho. Não é coisa de monta.»

Ferreira de Castro, Emigrantes (1928), 24.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 25, ls. 1-12.