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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

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Infância

Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha irmã, ela com três, eu com cinco anos, quando ele morreu. Lembro-me apenas que minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido, e que meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que não queria que levassem o seu marido.
Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o abc com a sua bela voz. Era delicado e incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às»

Jorge Amado, Cacau (1933), Lisboa, Planeta de Agostini, 1999, p. 25, ls.1-12

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

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«a maior parte deles formados por aluviões detríticas da Serra; de onde em onde, como em Espinheiro, Moimenta, Nabais e Carrapichana, aparecem aglomerados de granito muito duro, barrocais, ou montões graníticos isolados. Para os lados da Serra, porém, em Mangualde, S. Cosmado, Pico do Corvo (a Oriente de Gouveia), Folgosinho, Linhares e Cortiço, é grande a abundância de cerros, de elevações graníticas com os flancos eriçados de penedias; a Norte de Folgosinho, por exemplo, dominando a povoação, um castelo ou cúpula de quartzo róseo e leitoso; em Linhares, por todos os lados, rochas de granito feldspático, montes de blocos enormes; em Salgueirais há também grandes rochedos de granito de grão fino e feldspático, de dente de cavalo, que se estendem por Cortiço, Juncais, Quinta do Carriçal, Vila Soeiro e Jejua, até ao Mondego. A Oriente de Salgueirais levanta-se a penha de prados (alt. 1150m), uma espécie de castelo de ásperos blocos, com»


Carlos Alberto Marques, A Serra da Estrela -- Estudo Geográfico (1939), apresentação e notas de Pinharanda Gomes, fotografias de Duarte Belo, Lisboa Assírio & Alvim, 1996, p. 25, ls. 1-12.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

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«O rio Minho tem um afluente que se chama Coura e nasce entre pedras como um fio de água. Andam-lhe à roda pinheiros distraídos debaixo do céu, que é sempre azul e luminoso, e matam nele a sede os lobos e as rolas. A água corre sem ter tempo de colher estas imagens, feita espuma, de penhasco em penhasco. Vai engrossando, sem se saber bem porquê, no declive da montanha e, à medida que desce e aumenta, vai-se tornando mais séria. Começa por brinquedo que serve de brinquedo a algumas rãs, acaba em pai-»

António Pedro, Apenas uma Narrativa (1942), 2.ª ed., Lisboa, Editorial Estampa, 1978, p. 25, ls. 1-12.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

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«O CLARÃO DA CIDADE

"Na cidade dormem. Pois ela não tem noite! Eu bem lhe vejo o clarão no céu..." -- congeminava o garoto.
--Ó mãe, chegue aqui à varanda. Olhe cá: na cidade dormem?
A mãe, que não era mouca e manquejava, respondeu, mesmo da cozinha:
-- A cidade não dorme. Lá é sempre dia. (Depois disse qulquer coisa à pequenita, que ela veio logo a correr.)
Como se fosse contrariado no seu pensamento, o»

José Marmelo e Silva, Adolescente Agrilhoado (1948), 3.ª ed., Lisboa, Ulisseia, 1967, p. 25, ls. 1-12.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

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«prefeitos que passavam à parede, vindos do seu refeitório, a palitar os dentes. Inquieto um pouco, ofereci o meu olhar solitário a quem o aceitasse. Mas ninguém o aceitou. Aplicados, serrotando com a faca o naco de pão sobre a mesa, os mais velhos tratavam apenas de comer. Só o Gaudêncio, com quem eu ainda não falara, me pareceu reconhecer-me no seu olhar humilde e fraternal. Deus! Como éramos ambos feios! Porque a primeira distinção que eu fazia (e depois verifiquei que também faziam os prefeitos) era essa, precisamente, de alunos feios  e bonitos.
Decerto porque a maioria vinha da raça da gleba. 
Vergílio FerreiraManhã Submersa (1954), Mem Martins, Publicações Europa-América, 1971, p. 25, ls. 1-12.











domingo, 30 de agosto de 2015

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«ao príncipe da história linda que sua mãe contava, à beira da enxerga...
Agora, depois que deixara a escola, tudo mudou. O príncipe da história, que ele personificava, fora a enterrar naquele dia de começo das aulas, amortalhado na névoa que viera de longe, até à vila. E as pombas não saíram dos pombais, que eram moradias, como a do sr. Castro. E o sol não veio nesse dia, nem nos outros.
Então, Gaitinhas decidiu descer às ruas. Lá em baixo, naquele grupo de rapazes que pareciam formigas, devia estar Maquineta, seu antigo companheiro. Talharia por o dele e dos outros o seu destino.» 
Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1942), 5.ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, 1974, p. 25, ls. 1-12. 




sábado, 29 de agosto de 2015

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«era capaz de cumprir tudo quanto dizia, ao domingo, depois da missa, à porta do Valseves!

Apesar do seu estado de espírito animoso, Manuel da Bouça ensombreceu de novo ao meter pelo carreiro aberto na relva, que ligava o aglomerado da aldeia à sua casa, solitária entre os campos. As preocupações e a força de vontade que vinha despendendo davam-lhe uma expressão fatigada e melancólica.
Amélia, ao vê-lo atravessar a cancela, coxeando, perguntou, alvoroçada:
-- Que tens? Que te aconteceu?
-- Nada. Foi um espinho. Não é coisa de monta.»

Ferreira de Castro, Emigrantes (1928), 24.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 25, ls. 1-12.  

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

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«Yes sir, yes sir...


That's my baby now!...

Uma larga hora, na vertigem de um clube, voa como um efémero segundo. Já dera meia noute. Começava a respirar-se um ambiente de nervosismo e de loucura, ao qual os mais fortes de espírito dificilmente resistiriam. Como um carro destravado em declive, César sentiu-se impelido para alegria alvar, selvática, que detém o pensamento e deixa os nervos à solta.
-- Parece que o champagne -- observou-lhe Odette, ao vê-lo tão animado -- não é tão mau como o pin-»

Mário Domingues, O Preto do Charleston, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1930, p. 25, ls. 1-12.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

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«no céu, não se ouve o farfalhar das poucas árvores na planície. Olímpia, de olhos fechados, parece estar longe dali e morde-lhe suavemente a polpa de uma orelha e ouve-se a sua respiração opressa, os lábios roçando-lhe a nuca, com o seu bafo morno e apetecido. de súbito, o braço que tenta enlaçar-lhe o busto, nervoso e precipitado, bate no candeeiro de petróleo que se encontra em cima da mesa. O candeeiro cai em estilhas. O estrondo dos bocados de vidro, a chama bravia da torcida no meio do chão da casa,»

Antunes da Silva, suão, Lisboa, Portugália Editora, 1960, p. 25, ls. 1-12. 


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«Havia já quem esperasse sem sobressalto a chegada do exército da Gironda. A princípio, vozes correram, anunciando que a divisão de Junot iniciara a marcha de Baiona. Espalhara-se depois que o exército se estava concentrando para uma campanha na Áustria... As colheitas principiaram. Serenamente, deitavam-se contas ao tempo das vindimas. Em paris, Napoleão mobilizava exércitos, imaginando aterrorizar Portugal. A esse tempo, em toda a terra portuguesa, secava o milho e rezavam-se as coroas»


Carlos Malheiro Dias, Paixão de Maria do Céu (1902), 3.ª ed., Lisboa, Portugal-Brasil Sociedade Editora, s.d., p. 25, ls. 1-12.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

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«Uma névoa de tristeza pairou nos olhos de Natél, porém o seu pensamento logo a conduziu para a imagem de Bostião e para as palavras que lhe ouvira um dia antes, deixando-a absorta e novamente enlevada. Sente-se feliz. O vozear de algumas crianças correndo no terreiro vem despertá-la. Alonga a vista na direcção do povoado, que o sol envolve numa doce e clara luminosidade.
Por essa hora, pela vereda aberta do capim que lentamente se vai içando à medida que a cacimba evapora ou escorre para o chão, as mulheres deviam já ir, em fila, na direcção da estrada, que se estende»

Orlando da Costa, O Signo da Ira (1961), 2.ª ed., Lisboa, Editora Arcádia, 1962, p. 25, ls. 1-12.

sábado, 22 de agosto de 2015

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Já caía a noite, ao saírem da taberna, o Lambaça conduziu o companheiro por ruas estreitas e antigas, pelas quais se espalhava um cheiro agridoce a cozedura de centeio. Saíram da vila por uma quelha pedregosa, que descia torturada por entre latadas e muros. Alguns camponeses, regressando ao trabalho, passavam por eles e saudavam sem surpresa. Ao fundo da quelha, gorgolejando por entre ervas e rebolos, corria um riacho, cuja frescura se respirava no ar. Durante muito tempo, já escuro, o Lambaça guiou»

Manuel Tiago, Cinco Dias, Cinco Noites [1975], 2.ª ed., Lisboa, Edições Avante!, 1994, p. 25, ls. 1-12.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

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«V

À chegada dos frios, Josefa decidiu comprar-lhe fatos novos. Andaram pelas lojas a escolher as fazendas, estudavam figurinos, combinavam as cores. A costureira punha desvelos na confecção, afagava nas provas aquele corpo que cumpria as medidas ideais. Romana saltitava, espetava o dedinho, propunha alterações sem razão e sem fim. Josefa procurava dar uma opinião, mas a prova findava antes que ela tivesse conseguido esclarecer as ideias. Quando Maria Emília estreou um casaco cor de cinza debruado a veludo azul escuro, Romana olhou-a com desolação:
-- É o cabelo, vês? Essa trança que te fica mal.» 

Hélia Correia, O Número dos Vivos, Lisboa, Relógio d'Água, 1982, p. 25, ls. 1-12.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

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«4.ª feira: 2 de Julho.

-- Um momento que eu estou aqui a ver se já se consegue falar para Lisboa. Ó menina! É Sines? Queria saber um número de telefone pela morada. Não? Não se consegue? Era o que eu já esperava! Obrigado. Está tudo na mesma. Em Lisboa ainda está em greve aquela gente dos telefones. É o que se está passando por lá. Ainda não pode fazer a chamada hoje. Volte amanhã. Ou volte logo. Quem sabe? talvez logo já se consiga ligação. E a senhora? Deseja postais? Estão aqui. Faça o favor de escolher. São bonitos são.»

Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven (1975)

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Resultado de imagem para tomaz ribas«Cada assunto, cada criatura, merecia-lhe um novo trabalho. E foi a vida do seu colega Bernardes que tivera uma filha que morrera tuberculosa; foi a vida superficial da Guida e a vida difícil da D. Maria; foi a história da D. Alda, a sua vizinha do 3.º andar, a quem todos os meses cortavam a electricidade e a quem todos os meses a porteira ia descompor, exigindo o pagamento da renda da casa ou os escritos nas janelas; foram histórias de criadas de servir, de ardinas, de vendedores ambulantes, de prostitutas, de velhos que saíam de noite pedindo esmola, de mulheres a dias... tantas, tantas vidas de gente que sofre, de gente que luta na esperança de melhores dias.»

Tomaz Ribas, Cais das colunas, Lisboa, arcádia, 1959, p. 25, ls. 1-12.

sábado, 15 de agosto de 2015

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«Sim, aquilo fora praga de maltês!...



Há anos a esta parte, a praia, a sua praia, morria lentamente. Tudo o que os seus olhos enxergavam de um formato e qualidade, varria-se como bosta mal-cheirosa. Eram pedreiros de rocha-acima a abrir caboucos, paredes de pedra e cal a tomar formas de janelas e portas; vigamentos, rijamente martelados, cobertos de telhas vistosas. Faziam-se correntezas de moradias -- e, entre cada duas filas, ficava uma nova rua e um novo nome a decorar. Também o pessoal, que depois se regalava lá dentro, diferia bastante: tipos que não suavam»

Romeu Correia, Calamento, Lisboa, Editorial Minerva [1950], p. 25, ls. 1-12.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

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«torpor. Quando as últimas pessoas saíram, levantei-me também. Constatei que seria provavelmente de chegar até à porta. Constatei ainda que me apetecia sentir na cara a brisa fresca da noite. Percorrer ruas da cidade até amanhecer. A chama do meu cigarro ao vento. E cair depois exausto na cama para um sono opaco como a morte. Mas a Maria José, a sua mão leve, segurou-me pelo braço e disse: fica mais um bocadinho. Repetiu que eu estava em péssimo estado e que não podia ir para o hotel assim. Compaixão, uma das coisas a que não resisto nos tempos que correm. Perguntou porque é que eu não ficava lá em»

Paulo Castilho, Fora de Horas [1989], 11.ª edição, Lisboa, Publicações dom Quixote, 2000, p. 25, ls. 1-12. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

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«estranho que a constelação formada pelas palavras "pagão", "cristão" e "baptizados" não lhe tivesse facilitado a reprodução do texto.
     -- Pode explicar-me -- perguntei ao meu colega -- como conseguiu esquecer completamente um verso de uma poesia que afirmava ser-lhe tão familiar e se tem uma ideia da fonte donde provém a frase que substituiu o verso esquecido?
     Era capaz de me dar a explicação que lhe pedia, mas era evidente que não o fazia de boa vontade.
     -- A frase "Agora que cada dia traz algo de novo" não me é estranha; creio tê-la empregado recentemente ao falar»

Sigmund Freud, Psicopatologia da Vida Quotidiana, tradução de José Marinho, Lisboa, Relógio d'Água, s.d., p. 25, ls. 1-12.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

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capa: Roberto Nobre
um automóvel em que o ferido foi transportado, com o máximo cuidado, para o hospital.
     Chegou ali ainda com vida. Verificou-se então que era o Luís de Campos, muito conhecido em tôda a cidade, o qual recebera uma punhalada ou facada, vibrada pelas costas, um pouco abaixo da omoplata do lado direito.
     As autoridades da investigação policial acudiram ràpidamente e puderam ainda ouvir da sua bôca, em palavras já entrecortadas pelos soluços da morte, que, ao passar naquela rua, por onde às vezes seguia em direção a sua casa, na rua de S. Caetano, se sentira

Lourenço Cayolla, Esfinge, Porto, brinde de Civilização #12, s.d., p. 25, ls. 1-12.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

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Abel Manta
[pom]binha bateu as asas. Pois tu não a sentes desarvorada? Vê se lhe espreitas para a alma, a arca cispada que te faz dar o cavaco, e hás-de acabar por encontrá-la cheiinha com o padre. Que asno! Para ti tem ela modos, mas para ela guarda os pensamentos, que são sempre o melhor da festa. A ti faz-te promessas; a ele irão as ternuras. Que esperas?! Não vês que o padre é um figurão, que lhe promete vilas e castelos e tu um labrego, dá-mo pobre, dar-to-ei aborrecido?! Não lhe enxergas as mãos mimosas e fidalgas de todo em comparação com as tuas, cobertas de surro? Entre um e outro, bem tola seria Brízida

Aquilino Ribeiro, O Malhadinhas [1922], Livraria Bertrand, 1983, p. 25, ls. 1-12.